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Canto, dança e atuação: atriz cuiabana aprendeu a cantar com avô e interpreta clássicos do teatro musical

Da Redação - Bruna Barbosa

A primeira vez que a atriz Mariel Mattos, de 26 anos, subiu em um palco foi ao lado do falecido avô, João Pereira de Matos, o “Dão”, em um evento para idosos de Presidente Prudente (SP). Com o avô, a cuiabana aprendeu a cantar e não sentir vergonha por ser quem é: uma artista. Mesmo tendo Dão, que era cantor de seresta, como sua maior inspiração, Mariel ficou afastada dos palcos, sem voz para cantar, durante o período da adolescência e da pandemia da covid-19. 

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O mundo da arte ressurgiu na vida da cuiabana em duas oportunidades: quando entrou no curso de Rádio e TV, da UFMT, e quando assistiu a primeira peça de teatro depois do período de isolamento social. Mariel brinca que a vida mudou quando aceitou o convite do namorado de assistir o musical “Aladdin”, da On Broadway. 

“Foi uma libertação para mim, chorei o espetáculo inteiro, lembro que falava que era no palco que queria estar e agora estou. No final, o Rafael Cerigato, que é diretor do On Broadway, explicou que era um curso e que se alguém tivesse sentido no coração poderia fazer parte também. Na hora segui a página no Instagram e fui atrás de informações”. 

Através do convite de fazer parte da escola de teatro musical de Cuiabá, no final da peça, em 2022, Mariel conseguiu se reconectar com a versão de si mesma que havia esquecido na infância. Uma menina serelepe que não sentia vergonha de se apresentar ou soltar a voz para cantar. 

“O teatro surgiu na minha vida desde criança, na escola. Desde pequena ele me ensinava a cantar. A gente se apresentava para a família. Minha família ficava falando que eu cantava bem e seria cantora. Eu era bem ‘aparecida’ quando era criança e o pessoal falava que eu me daria bem com as artes”.

Na adolescência, ela se afastou do teatro quando entendeu o que era o julgamento alheio. Mesmo com muita vontade de atuar e cantar, Mariel parou de ir atrás de oportunidades artísticas. Na pandemia da covid-19, por conta do isolamento social, se retraiu ainda mais. 

Quando viu a magia acontecer no palco do Cine Teatro através dos atores da On Broadway que encenaram Aladdin, a cuiabana teve certeza de que precisava voltar a fazer parte do mundo da arte. 

“O espetáculo foi mágico, foi muito bom e eu amei tudo.. Eles fizeram um On Broadway Experience durante alguns meses de férias, era um workshop, fui fazer e logo depois abriram a audição para Mamma Mia!”. 

No espetáculo Mamma Mia!, da On Broadway, em Cuiabá, Mariel interpretou Tanya. (Foto: Dizão/Reprodução)

A chegada de Tanya 

Quando decidiu que participaria das audições para a versão cuiabana do musical Mamma Mia! feita pela On Broadway, Mariel nunca tinha passado por uma seleção do tipo, mas decidiu que teria que ser “na cara e na coragem”. Foi assim que ela cantou Touch-a Touch-a Touch Me, do musical The Rock Horror Picture Show, durante a avaliação na escola. 

A atriz explica que, por ser sua primeira experiência com um espetáculo grande, ela buscou uma personagem com quem se identificasse. Tanya, de Mamma Mia!, pareceu encaixar perfeitamente com a personalidade cômica de Mariel. 

“Essa primeira audição foi para entrar no curso deles, que é intermediário já e que é o show. Me identifiquei com o lado cômico da personagem, sou aquela pessoa chata que não consegue parar de fazer piada. Vi a Tanya, as piadas, o jeito, a coisa de andar de salto, a sensualidade e achei uma personagem muito legal”. 

Mesmo que já tivesse se apresentado em peças de teatro na época em que fez cursos no Sesc Arsenal e com outros grupos artísticos de Mato Grosso, Mariel lembra da inesquecível sensação de ver todas as cadeiras do Cine Teatro lotadas nas duas sessões de Mamma Mia!, em março deste ano. 

Tinha feito algumas coisas na época do Sesc Arsenal, mas foi a primeira vez que tinha tanta gente para assistir. A gente canta ao vivo, é muito desafiador. Principalmente por não termos acesso aos melhores equipamentos. Todo mundo trabalha, ninguém é ator exclusivo do On Broadway, então a gente se encontra duas vezes por semana. Lotamos as duas sessões, foram mais de mil pessoas”.

Mariel conta que a vergonha, que vez ou outra ainda teimava em aparecer durante os ensaios, desapareceu quando ela subiu no palco do Cine Teatro como Tanya. O que começou com o convite feito por Cerigato em 2022, e ressoou como um sinal do destino no coração da cuiabana, se tornou a certeza do amor por musicais.  

“Trabalhei com produção audiovisual para cinema, via os atores, conversava com eles para saber como era a rotina e fui pesquisando se queria TV, cinema ou teatro. Quando entrei no teatro musical tive certeza, eu gosto de cantar, é a arte que mais gosto mesmo. Decidi e simplesmente se tornou a prioridade da minha vida”.

Mamma Mia! lotou as duas sessões e mais de mil pessoas passaram pelo Cine Teatro para assistir musical da On Broadway. (Foto: Arquivo pessoal)

Cantando nos palcos de Cuiabá 

Mariel não deixa de ressaltar, com orgulho, que faz parte do grupo de artistas que resistem na cena teatral de Cuiabá. A atriz conta que acredita no poder que os  musicais produzidos pela On Broadway têm de tocar outros corações como aconteceu com ela. Outra das sensações inesquecíveis que foram proporcionadas pela entrada no teatro musical foi o carinho que recebeu do público em Mamma Mia! 

“Aquilo foi muito legal, porque saímos do teatro para tirar foto e todo mundo estava esperando. Lembro que foi fofo, não esperava passar por aquilo na minha vida. Uma menina pequenininha chegou em mim dizendo que eu era o personagem favorito dela. Recebi muito carinho das pessoas e eu não esperava isso”. 

“Aqui em Cuiabá tem muita essa coisa das pessoas acharem que não tem peças de teatro e isso é muito triste. Como Mamma Mia! já é um espetáculo conhecido, foi muito mais fácil para vender. Ouvi muitas pessoas falando que tinha que ter mais teatro, mas a gente sabe que está acontecendo. Só que por ser uma peça conhecida mundialmente acabou chamando mais atenção”, continua. 

Na semana passada, Mariel cantou mais uma vez os clássicos do universo musical em duas apresentações que lotaram a Caixa Cênica do Espaço Roda, onde as aulas e ensaios do On Broadway acontecem duas vezes por semana. Dessa vez, ela interpretou Fantine, de Os Miseráveis. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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“São espetáculos abertos com 60 lugares, a gente monta tudo e são feitos com alunos inexperientes. Ficamos três meses ensaiando com pessoas que nunca tinham feito teatro ou musicais. Foi lindo e uma experiência bonita de ver. Tiveram adolescentes fazendo pela primeira vez e foi lindo ver aquele encantamento acontecendo”. 

Mariel destaca a importância de ter encontrado um espaço seguro e de acolhimento como a On Broadway para retomar o teatro. Nos musicais, os atores precisam cantar, dançar e atuar ao mesmo tempo. A cuiabana explica que mesmo com a dificuldade de exercer as três coisas com perfeição, os atores recebem o apoio constante dos professores. 

“Graças a Deus nunca estive em um espaço que me fez mal, porque teatro é algo que mexe muito com a autoestima da pessoa, ainda mais musical, onde a gente dança, canta e atua. Tem que haver um cuidado com as dificuldades, não dá para apontar para os outros e é isso que gosto no On Broadway. Saber que a gente está resistindo e fazendo musical aqui… Nossa, nunca imaginei que teria musical aqui”. 

Por conta do trabalho como analista de comunicação no Sicredi, Mariel precisa conciliar os ensaios e estudos com a profissão. Por isso, ela precisou adiar a entrada na MT Escola de Teatro, onde foi aprovada na primeira fase do vestibular. A atriz continua ativa na On Broadway, que vai levar “Família Addams” para os palcos de Cuiabá na próxima temporada, em março do ano que vem. 

“Serão 2h30 de espetáculo. Estou muito empolgada, primeiro porque acho que todos os personagens tem muito a ver com minha infância, porque sempre amei. Vai ser muito legal representar o imaginário dessa família”. 

Foi com o avô Dão, que era cantor de seresta, que Mariel subiu em um palco para cantar pela primeira vez. (Foto: Arquivo pessoal)

A relação com o teatro musical é definida como “intocável” por Mariel, já que, além de funcionar como uma ferramenta de libertação, foi essencial durante os períodos de depressão e ansiedade que ela enfrentou. 

“O teatro não vai mais sair da minha vida, porque é algo que literalmente salvou a minha vida. É nítida a diferença de comportamento e de como isso me libertou. Eu estava depressiva e ansiosa. Fico até emocionada, porque essa relação só me proporciona coisas boas, é intocável”. 

A jovem conta que sua maior referência no canto segue sendo Dão, o avô cantor de seresta, que não foi esquecido quando ela subiu no palco do Cine Teatro para interpretar Tanya para uma plateia lotada. 

“Quando subi em um palco pela primeira vez foi com ele. Quando ele morreu eu parei de cantar, foi uma ruptura, precisei levar para a terapia. Sentia tanta vergonha de cantar, que minha voz não saía mesmo. Tem tudo do meu avô nisso [na trajetória no teatro musical]. Foi ele que me ensinou a cantar e que eu não precisava ter  vergonha”.
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