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Quarta-feira, 05 de agosto de 2020

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Os Miseráveis e Amor: a tentação de se fazer trocadilhos infames e pertinentes

Autor: Felippy Damian - Especial para o Olhar Conceito

15 Mai 2013 - 08:56

A coluna de hoje vai viajar pelo universo do cinema autoral. Intrigantes, costumam render muito papo para os críticos do cinema, é por isso que vamos hoje destacar o lirismo e a dramaticidade de dois deles: Os Miseráveis (2012), musical de Tom Hooper, e a obra Amor (2012), de Michael Haneke. O primeiro deles não chega a ser intimista, muito porque faltam elementos para tal na obra de Victor Hugo. No entanto as opções adotadas pelo diretor são extremamente distintas daquelas tomadas por Michael Haneke, no segundo filme em questão, quando ambos pretendem tencionar ao máximo as cargas dramáticas de seus filmes ao longo das duas horas medias de seus trabalhos, ambos ambientados na França.

Enquanto Hooper abusa de close-ups para maximizar emoções estampadas nas expressões faciais de seus atores cantores, sempre dialogando entre estes quadros e outros colossais, como na cena do suicídio de Javert (Russel Crowe), Haneke divide todas as ações na mesma locação, interna.

Em Os Miseráveis, boa parte da dramaticidade se apresenta nas letras das canções, relegando todos os outros elementos artísticos e técnicos da produção, da montagem, até da direção.

É justamente a montagem o trunfo de Amor. Haneke que apresenta certo ineditismo pessoal frente ao intimismo cinematográfico acaba por compor, assim como David Lynch, suas cenas enquanto quadros. Lynch tem a sua formação nas artes plásticas, por essa razão cria as cenas como parte de sequências únicas que nutrem certa independência semióticas das demais. Hanekecompõe cada cena como quadro, e este quadro por si só, nesta obra, tem a relevância de uma sequência. Algumas dessas cenas, inclusive, transicionampara cenas em que o mesmo personagem está em ação, e em outros momentospara o mesmo personagem em ação no mesmo lugar, a transição se dá pela passagem de tempo.

A cena do sonho de Georges (Jean-Louis Trintgnant), em Amor, é incrivelmente grandiosa, digna do filme, o elemento onírico do sonho foi utilizado com habilidade singular, vista em autores como Buñuel e Lynch.

Um terceiro ponto entre Hooper e Haneck, e ainda mais abismal, dá-se em relação à música. O primeiro apresenta todas as falas cantadas, com as letras impertinentemente objetivas, como supramencionado. O segundo exibe duas pessoas extremamente ligadas à música, seja profissionalmente ou como viés de prazer, porém há a ausência de trilha sonora, como em Fita Branca (2009). Todas as canções entoadas aparecem como elementos de cena, assim como os varias áudios externos, fora de quadro. O foco aqui não está na execução e sim na apreciação, vede a cena em que apenas o público do teatro é apresentado, enquanto pode-se ouvir o piano do artista, também fora de quadro.

Divergências assim ressaltam a importância de Amor, originalmente Amour, enquanto filme de autor e relevante artisticamente, principalmente pela cadência poética que imprime ao abordar o tema que nomeia o título. Ressaltam também o insulto literário aos que já provaram dos feitos Victor Hugo e que vêm em Os Miseráveis uma adaptação e interpretação artística de muito mal gosto, tanto mal gosto quanto o trocadilho que me permite dizer ser este um filme miserável. Logo qualquer elogio feito ao roteiro de Os Miseráveis deve ser direcionado a obra literária original de Victor Hugo, muito provavelmente tais elogios devem ou deverão ser feito por pessoas que não conheceram o romance francês.

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Os Miseráveis



Amor

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