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Quarta-feira, 05 de agosto de 2020

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É underground, mas é poesia!

Autor: Felippy Damian

29 Mai 2013 - 10:39

A leptospirose, também conhecida como mal de Weil, é uma doença que causa febre alta, dor de cabeça, dor muscular, podendo em muitos casos levar o indivíduo a óbito. É popularmente conhecida como febre do rato, expressão que no nordeste significa “sujeito sem controle” e batiza o filme lançado em 2011, pelo pernambucano Claudio Assis.

O longa apresenta Zizo (Irandhir Santos), poeta e militante libertário, que prega com certo hedonismo a revoltasocial e principalmente moral, muitas vezes com um megafone no meio de um avenida ou a bordo de um barco, outras vezes em pé em cima da mesa num churrasco entre amigos. O poeta inquieto tem de lidar com a recusa sexual de Eneida (Nanda Costa), porém o desprezo afetivo não é capaz de desmotivar as ações e intervenções artísticas e ideológicas do protagonista.

Todo filme preto e branco lançado nos nossos dias suscita, depressa, um questionamento quanto à intenção do diretor com a sua escolha. Por se tratar de um filme de Pernambuco, rodado em Recife, esse questionamento ganha uma proporção potencializada. A resposta vai além das sequências iniciais e está no ambiente inóspito habitado pelos personagens, ambiente de doenças derivadas de animais, como homens e ratos.

Veja o trailer do filme

É nesse ambiente que vemos Zizo criar sua poesia, levada em forma de provocação para os centros da cidade. É ali onde ele, de certa forma, vive talpoesia, com sexo e cachaça, como é repetido por mais de uma vez durante a exibição. O subversor poeta tem no seu tom agitador elementos carismáticos que logo o apresentam como um líder e herói em potencial. Datas de cunho civil, comercial e religioso são tão inspiradoras para seus poemas quanto às brigas do casal homossexual de amigos.

A forma como o underground e sórdido Claudio Assis – nãodevo ser nem o primeiro, nem o último, que o adjetiva assim – mostraa nudez e o sexo dão significados extras a sua obra. Nada nas cenas é gratuito, com destaquepara as cenas de sexo na caixa d’água, onde mulheres velhas e totalmente em desacordo com os padrões de beleza vigentes são filmadas, com Zizo, por uma câmera posicionada ‘a cima’, em uma distância considerável.

As atuações de Irandhir Santos e Nanda Costa chamam atenção, e boa parte do crédito deve ser imputado ao roteiro que constrói seus personagens com lirismo marginal e, incrivelmente, verossímil. Irandhir, aliás, tem colecionado além de prêmios vários papeis relevantes nos últimos anos. É o ator brasileiro mais interessante dos últimos cinco anos.

Não faltam elementos que afirmem o filme Febre do Rato como cinema de autor, marginal e underground. Uma obra com a presença marcante da cultura popular, mais uma experiência que, de certa forma, é poeticamente imprescindível vinda do Pernambuco.

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