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Quinta-feira, 22 de outubro de 2020

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Escuta para ver: um presente que nunca se viu

Autor: Luiz Carlos de Oliveira Borges

09 Abr 2013 - 16:27

Adentro por uma porta e sinto um mal estar. O espaço é exíguo e ausência de um piano sendo tocado por Zulmira Canavarros me causa uma profunda estranheza. Apenas uma bombonier abarrotada de balas, chocolates, uma fantástica máquina de fazer pipoca exalam odores familiares que me faz sentir em casa. Porém dentre estas guloseimas não havia as deliciosas chávenas de chocolate feitas pelo velho Gama nas sessões em seu Hotel ao lado da Igreja

Presbiteriana. No corredor de acesso à grande sala, por trás das pesadas cortina se abre um enorme picadeiro. Tamanha era a inclinação dos assentos que penso estar no circo Bocute no Campo do Ourique para assistir a encenação teatral de Romeu e Julieta com os costumeiros figurinos maltrapilhos de veludo. Mas que nada! A confortável poltrona reclinável, o friozinho do ar refrigerado da sala evoca um emaranhado de inéditas percepções. Não me encontrava sob o calor insuportável das lona dos circos mambembes que faziam turnê por Cuiabá. Mas para entender o que está acontecendo é necessário voltar a fita. 

Tudo começou num desses tantos despertar deprimentes que vivi após a interrupção de continuidade do festival de cinema de Cuiabá. Naquele dia acordei com um telefone de Glorinha Albues. Bom dia flor do dia! Ela entusiasmada me convidava para prestigiar a avant premier da mais nova produção mato-grossense de cinema. Quis desistir da idéia. O cinema e coisas da cultura de Mato Grosso não mais me interessavam. Porém a sábia amiga foi convincente: do passado devemos reter apenas as boas lembranças. Meio a contragosto resolvi não declinar o convite, ainda mais que seria oportunidade de rever amigos que nos tempos atuais só encontrava virtualmente nas redes sociais da net.
Felizmente ainda havia na cidade um espaço para esta vivência.

Ao entrar na sala à meia luz, vi Arne Suksdorff e Maria sorridentes em meio a uma multidão barulhenta. Amauri Tangará, Marcio Moreira, Valéria Del Cueto e Bruno Binni estavam curiosos para conhecer esta nova produção. Embora bastante divulgada pela imprensa, pouco ou quase nada se conhecia dos realizadores e produtores do filme. Lázaro Papazian dava um Tchau para todos que o cumprimentavam. Vicente Leão comentava com Líbero Luxardo o sucesso de “Alma do Brasil” em terras portuguesas. Reynaldo Paes de Barros, Abud e Bernardo Lado cogitavam uma produção de uma epopéia no Pantanal. Os cineastas mais importantes dos mais de cem anos de cinema em Mato Grosso se faziam presentes na sessão. Portanto minha ausência seria inadmissível.

Cibele Bussiki e Jorge Katumba nervosos acompanhavam os últimos retoques da ambientação da sala e do cerimonial. Geni Retier vestia um estupendo vestido de cetim turquesa com contornos sensuais, que ao deslizar pelas escadarias produziam um farfalhar da trama do tecido. Era compreensível os ciúmes de seu marido desta bela atriz mato-grossense que culminou na destruição das cópias do filme “Paralelos Trágicos”.

Mulheres bonitas não faltaram na sessão. Glauce Rocha estava sentada ao lado do ator Rosalvo Caçador e do cineasta Névio Lotufo que perguntava a todos se haveria um baile depois da sessão. Sem festa não existe cinema, dizia Négio. A preocupação era procedente porque os produtores mato-grossenses contemporâneos investiam muito pouco no lançamento dos filmes. Nem uma rodadinha de chopp para comemorar uma estreia.

Gabriel Papazian e Pedro Rocha Jucá eram exceções. Quando da estréia de “Férias ao Sul” houve sessão de gala no Cine Tropical, com direito a tapete vermelho, banda da Polícia Militar vestida em uniforme de gala, e ainda um baile super animado que quebrou a monotonia da cidade. Champanhe, muito champanhe que até hoje suas borbulham espocam em meu nariz. A sala se alvoroçava para o inicio da sessão aguardando a chegada do governador do Estado, que não chegava e nunca chegou.

A tradição dos recentes governadores deste estado não foi quebrada. Eles preferem atolar seus pés nas merdas de animais em feiras de exposições agro-pecuárias, mas jamais ostentarem seus sapatos de couro nas salas, teatros e exposição de arte em Mato Grosso. Se alguém tiver alguma foto de um governador nos últimos 20 anos numa sala de cinema, por favor faça uma doação para o Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional da UFMT pois está em posse de um documento rato. Um escurecimento gradual da sala fez Jejé de Oya apressar suas anotações em seu caderninho de arame.

Rai Reis fotografava as figuras ilustres que se faziam presentes os quis Fernando Baracat apontava discretamente com seu dedo indicador onde ostentava um anel cravejado de brilhantes. A ministra da cultura Marta Suplicy, a Secretaria de Cultura Janete Riva já reclamavam pela demora. Mauro Mendes quando entrou na sala levou um escorregão que quase caiu nos colos do deputado José Riva. Torço para que ele não tenha deslocado o joelho, rompido os ligamentos ou inflamado o meniscu. Porque esta dor é insuportável e eu a conheço. Da pequena janela da cabine de projeção dava para ver Anibal Alencastro preparando os rolos do filme. Não gosto muito de participar de pré-estréias.

O clima é tenso, os críticos desfilam olhares indiferentes. Ainda mais quando entrou na sala Pablita Lelé, colunista, articulista e agora produtora de filmes. Pensei sair correndo da sala para procurar uma escarradeira, mas lembrei que a intendência da polícia municipal, para combater a tuberculose, proibira este utensílio nas salas de cinema de Cuiabá. Prefiro então respirar fundo e desviar os olhos e ver a morenice de Felipa e as mechas rubras de Lucia Palma.

Tudo pronto para começar a grande noite. Porém um longo discurso anunciou o filme como um presente inesquecível para os mato-grossenses. Apagam se as luzes, e o que se vê diretamente é uma exposição pornográfica da tela virgem, branca, nua sem as cortinas pintadas à mão como a do Cine Bandeirantes. Púdica e safada, a tela aguardando seu defloramento pelas imagens sente a falta da queimas de fogos de artifício para anunciar o início da sessão como no Cine Teatro Cuiabá. Apesar da ausência deste rito costumeiro, um feixe luminoso é lançado sobre as cabeças da platéia e tremulam estocadas de luzes sobre a rigorzijante tela. E nada mais acontece! Nem um fotograma sequer surge diante dos olhos. Decorrido meia hora de sessão descobriu-se que não havia filme, apenas uma tela branca. E como num filme de Bünel, ninguém conseguiu sair da sala. Apenas a tela em branco chorava!E a cidade em festa comemorou seus 294 anos!


Luiz Carlos de Oliveira Borges é cineasta e pesquisador do NDIHR-UFMT

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