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Segunda-feira, 21 de junho de 2021

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Que formigueiro estamos construindo?

Autor: Isolda Risso

18 Jun 2015 - 14:00

Arquivo Pessoal

Que a Copa no Brasil foi um equívoco generalizado é inquestionável, mas tenho lá minhas dúvidas se houve uma cidade que sofreu mais prejuízos que Cuiabá. Os desvios (de todos os tipos) em decorrência das obras da copa foram e ainda são um transtorno na vida de muita gente. Vira e mexe ganhamos uma herança ruim do período. Por razões não compreensíveis, nem com todo esforço empenhado e com as melhores intenções, consigo assimilar porque mudaram a mão de uma rua próxima ao meu prédio. Moro lá há um bom tempo, e nunca tivemos problemas, até que uma mente brilhante resolveu alterar a mão dessa rua “para as obras da copa”.

Desde então, dificilmente passamos mais de uma semana sem que no cruzamento haja uma batida de carros. Já teve batidinha, batidona, já vi gente saindo ensanguentada, já houve gente que saiu na porrada, enfim... já vi de tudo.

Muita coisa desagradável acontece por lá, mas no ultimo sábado fiquei chocada com a nova ocorrência. Era por volta de três da tarde quando ouvi um som sinalizando um encontrão entre veículos, acompanhado de uma gritaria das boas vindas daquele lado. Pensei: “Essa deve ter sido grande”, e fui para a janela bisbilhotar, mas que nada, graças a Deus nada de mais grave aconteceu, o prejuízo material me pareceu pequeno e os envolvidos já estavam fora do carro, aparentemente bem.

O surpreendente foi a agressividade do moradores dos prédios mais próximos. Ao invés de descerem para ajudar, saíram nas respectivas sacadas e desataram a xingar, a falar palavrões e a mãe do que provavelmente estava errado ouviu horrores, coitada! Sou assumidamente lerda, quem sabe resistente em processar certas coisas, mas o que leva um ser humano a agir dessa forma?

O que será que passa na cabeça dessa criatura que escolhe ofender em lugar de ajudar? O que esse tipo de atitude soma em sua vida e na vida de quem está ao lado? É tanta agressividade gratuita, que nos leva a crer: estas pessoas estão doentes, devem carregar uma dor profunda, uma infelicidade, uma amargura crônica e explícita. É inconcebível imaginar uma pessoa minimamente equilibrada agindo com tamanha hostilidade em uma situação que pede socorro. Se fosse um único morador sair à janela e gritar aquelas desaforos, até daria pra “aceitar”, mas foram vários, o que me leva a constatar um mundo inflado, e tem muita gente pronta e sedenta para mandar ele pelos ares sem pit stop em lugar algum!

Custo acreditar que estas as pessoas que se deram ao direito de berrar provocações, estando na mesma situação, iriam aprovar que agissem da mesma forma com elas, normalmente os ofensivos se ofendem com mais facilidade que os pacíficos.

Todos querem ser respeitados, tratados com educação, socorridos quando necessário, serem amados, etc..., mas poucos se predispõem a agir dessa forma. Esquecem que se temos direitos, nossos deveres são equivalentes. É inegável a insatisfação generalizada com o rumo do mundo, mas o que fazemos de fato para mudar o atual estado de coisas? Decerto aguardar algum plano miraculoso do estado? Uma ação coletiva da ONU? Algum maluco lançar uma teoria de como salvar o mundo ? Vejo que tudo isso seria inútil, e como é se o homem não tomar consciência da necessidade de se pacificar com seus conflitos, não se predispor a modificar-se, deixar de se contentar com o pouco que tem sido, para se transformar no que deve ser.

Este é um esforço cotidiano e na intimidade de cada um. É trabalho de formiguinha, cada qual carrega sua folha e todas constroem o formigueiro!

*Isolda Risso é pedagoga por formação, coach, cronista, retratista do cotidiano, empresária, mãe, aprendiz da vida, viajante no tempo, um Ser em permanente evolução. Uma de suas fontes prediletas é a Arte. Desde muito cedo Isolda busca nos livros e na Filosofia um meio de entender a si, como forma de poder sentir-se mais à vontade na própria pele. Ela acredita que o Ser humano traz amarras milenares nas células e só por meio do conhecimento, iniciando pelo autoconhecimento, é possível transformar as amarras em andorinhas libertadoras.

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