Olhar Conceito

Segunda-feira, 21 de junho de 2021

Colunas

Como invadir ateliês ou você tem uma cabeça de animal

Autor: Leíner Hoki

23 Jun 2015 - 17:33

Arquivo Pessoal

Uns dos meus tipos preferidos de literatura são os que contêm algum índice biográfico. Algo sobre a vida das pessoas, traços do cotidiano de um grupo de amigos, uma pista da realidade de um outro. Melhor que autobiografias e diários, no entanto, só relatos de um terceiro. Simone de Beauvoir escrevendo sobre Sartre em “Cerimônia do Adeus”, Paul Valèry percebendo Edgar Degas em “Degas, Dança e Desenho”, são exemplos de livros gerados em encontros. Como leitora, arrisco que nada nos faz sentirmo-nos mais estrangeiros e, ao mesmo tempo, mais acolhidos, integrados e invisíveis – como aqueles seres do cotidiano que “invadem” nossos olhos apenas quando reparamos sua existência – quanto as leituras sobre encontros grandiosos. Somos invisíveis em nossas investidas e, dessa forma, invasores imperceptíveis.

Observar Alberto Giacometti

Fiquei invisível a Alberto Giacometti e James Lord em seus encontros em setembro de 1964. Lord foi posar para Giacometti, mas dessa relação nasceram dois retratos. Sentado, com as mãos cruzadas entre as pernas, Lord se apresenta em pintura. Mas, por sua vez, operando suas palavras, escreve Um retrato de Giacometti, livro no qual, preciosamente, o artista aparece em toda sua peculiaridade. Cada um deles, com as ferramentas preferidas, "pintou" o outro da forma quer o viu. Ver, sim! Giacometti queria ver e ser visto. Seu modelo devia olhar. Lord nos explica: " (Giacometti) estava sentado de tal modo que sua cabeça se encontrava a cerca de um metro e meio da minha e num ângulo de quarenta e cinco graus em relação a mim, com a tela colocada bem na frente dele. Não me indicou nenhuma pose, mas me pediu para olhá-lo de frente, com a cabeça reta, olhos nos olhos, e muitas vezes durante as sessões que se seguiram dizia: "Olhe para mim!" ou "Deixe-me ver!" ou simplesmente "Ei!", o que significava que eu devia olhá-lo direto nos olhos."

Para mim, ler sobre os hábitos de Giacometti foi uma surpresa! Não que eu imaginasse nada menos quando conheci seus trabalhos, quando olho para suas obras. Na verdade, às vezes até acho que consigo "esperar nada". Através do artista achamos que podemos encontrar a chave para entender sua criação, mas isso não é bem verdade. Muito menos verdade é para entender Giacometti. O que ele fala aponta para o que ele vê, mas não ajuda de nenhuma forma.

Se as pinturas do artista são assim nebulosas, sugestões distantes, o que ele fala não diz chave alguma, nenhuma interpretação é facilitada. O que elas fazem, essas coisas ditas, é vibrar com as pinturas em fricção de fala e imagem. Sartre escreveu sobre Giacometti e se perguntou: “como pintar o vazio? Parece que ninguém tentou isso antes de Giacometti. Há quinhentos anos os quadros estão abarrotados.” A obra de Giacometti parece mesmo estar “vazia”. Do jeito mesmo que o vazio tem a característica de provocar distâncias, quando vemos uma pintura de Giacometti, parece que uma imensa sala vazia nos separa. Há um espaço, quilômetros entre nós. A distância pode ter sido criada pela atração e proximidade: “sentado de tal modo que sua cabeça se encontrava a cerca de um metro e meio da minha”, contou Lord. Esse metro e meio é intransponível. Se buscarmos nos aproximar para captar um detalhe qualquer que achamos ter perdido à distância, o detalhe se perde, recua. Aquilo que parecia ser um olho, uma unha, some em tons de cinza, brancos sujos.

"Você tem uma cabeça de animal!", disse ele para James Lord. É uma pista!, eu penso. Paro a leitura e folheio o livro a procurar a página que contém a reprodução do retrato finalizado. Comparo-o à fotografia de James Lord, posando. Mas, hesito, onde está o animal?

O retrato que era para ser apenas um esboço, transformou-se em um trabalho resultado de 18 sessões e Giacometti profetizou várias vezes, não se tratava de terminar, ele apenas buscava ser honesto, “agir sobre a realidade [...] melhor ver, melhor compreender o que me cerca”. James Lord conta da dificuldade que foi não deixar-se convencer de retornar sempre, para mais uma, mais uma, mais uma sessão de trabalho. Giacometti apagava, com o branco, por cima do que fizera na sessão anterior. Dedicava-se em trabalhar apenas o nariz, não conseguia chegar a um resultado final porque, justamente, finalizar não o interessava. Interessava-se em trabalhar. Queria trabalhar. E James Lord precisava deixar Paris e teve de convencer o artista: precisava parar de pintar.

O pintor, ao se despedir de seu modelo, o fez com a promessa de recomeçar, melhor!, continuar o retrato. “Reparei não somente que de frente você parece um animal, como também que seu perfil é um pouco degenerado. [...] de frente você vai para a prisão, de perfil vai acabar no hospício.”

*"Seja Breve" é a coluna semanal sobre arte de Leíner Hoki, 22 anos, cuiabana. Atualmente cursa belas artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.

Comentários no Facebook

Redes Sociais

Sitevip Internet