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Sábado, 19 de setembro de 2020

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Texto curatorial: Agnaldo Farias fala sobre a exposição de Tuca Réines, 'O Olhar Vertical'

Autor: Agnaldo Farias

06 Jan 2017 - 16:28

Nosso olhar, como nosso corpo, está submetido à gravidade. Ela limita e condiciona nossa experiência, aderindo-nos ao chão que pisamos de tal modo que um simples muro torna-se um obstáculo intransponível; uma parede de edifícios, um fator de achatamento do céu; e mesmo a majestosa e inteiriça linha de horizonte que delimita o mar ou uma planície reduz-se a um produto da tímida distância que cobre o intervalo que vai dos nossos olhos aos pés. Por tudo isso é fácil entender o gosto remoto, ancestral, de atingir os picos das montanhas. O inexcedível prazer de ver de cima. O inexcedível poder de ver de cima. Uma sensação renovada a cada torre ou prédio em que subimos até um andar alto ou, melhor ainda, ao topo, com o vento forte no rosto e a atmosfera frenética da cidade reduzida a sussurros vagos e indiscerníveis. No fundo, uma excitação similar a de um gajeiro: o marinheiro encarapitado na gávea, a cesta instalada no alto da linha vertical dos mastros, o minúsculo compartimento flutuante de onde se vê mais longe, de onde se antecipa o que está por vir.

Tuca Reinés, fotógrafo earquiteto, como Le Corbusier – o mestre que lhe ensinou a importância do domínio de novas técnicas (“As técnicas ampliaram o campo da poesia”), um dos pioneiros a celebrar o avião como desencadeador de uma revolução do olhar –, percorreu do alto algumas das principais metrópoles e cidades médias brasileiras. Mas nosso artista não fez isso através de aviões, com suas rotas preestabelecidas, automáticas, imutáveis, com todo encanto tornado monótono pela janela pequena e embaçada separando-nos drasticamente do mundo lá fora. Tuca Reinés voou de helicóptero, o que lhe permitiu decidir as rotas a serem cumpridas, guiando-o em busca das características mais incomuns dos aglomerados urbanos visitados, percebendo-lhes as belezas, os contrastes, as delícias e as misérias sob ângulos imprevistos, produto de seu olhar, a um só tempo sensível e crítico. Flutuando numa caixa metálica com um barulho ensurdecedor, mas amplamente envidraçada, quase toda transparente, o artista despachava-se para lá e para cá pelo céu das cidades, durante horas, fotografando diagonal e verticalmente, às custas de pedir ao piloto que inclinasse o aparelho, em ímpetos de queda livre. Lançando seu olhar através de pontos de vista surpreendentes,Tuca Reinésrevelou aspectos cruciais, fascinantes e urgentes das nossas cidades, muito distintos do conhecimento que emerge do rés do chão e que está limitado por ele.



Tuca Reinés: O Olhar Vertical – fotografias da Coleção Santander Brasil
Abertura para convidados: dia 19 de janeiro, às 20h00
Período da mostra: 20 de janeiro até 19 de fevereiro de 2017

Serviço

Palácio da Instrução
Rua Antônio Maria Coelho, 151, Praça da República - Cuiabá, MT
Horário de funcionamento é de segunda a sexta, das 13h às 19h
Mais informações: (65) 3613-9240

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