Olhar Conceito

Quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Colunas

Entre trios elétricos, drinks e mamadeiras

Autor: Raul Fortes

21 Mar 2019 - 15:46

Sempre fui de “carnavalizar”. Às vezes em Cuiabá, em outros municípios de Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo ou no “meu” Rio de Janeiro. Mas já faz alguns anos que tenho participado de festas e carnavais mais “caseiros”. Por exemplo, eventos feitos nos quintais, salões de prédios ou uma sala de estar integrada com a cozinha. Ou seja, sempre locais adaptados e intimistas. Afinal, há nove anos sou pai e não levaria meu pequeno para ambientes de grandes multidões ou locais com bebidas alcoólicas. Deixando claro aqui, que essa é uma reflexão pessoal. O meu respeito a todos os pais e a liberdade de como educam suas crianças.

Pois bem! Este ano resolvi sair em alguns blocos na minha Cuiabá e sem o filho. Em um dos dias, com abadás e todos os adereços possíveis, pude ver que, no bloco, além da bateria e do trio elétrico, tínhamos várias opções de bebidas alcóolicas e muita gente do bem e à disposição de festejar. Então, a “turma da igreja” – apelido carinhoso para um grupo de amigos – dançou, cantou e “entortou o caneco”. No fim, já entregues ao Uber, vencidos pelo cansaço e pelo álcool, um amigo decidiu fazer um vídeo. Em certo momento, ele dizia: “Um no chão, outro mancando, outro sem dente. Espero que nossos filhos não saibam disso um dia”. E foi após ver e ouvir o vídeo que me veio à cabeça uma pergunta: Será mesmo que meu filho já não sabe o que é festejar?

A partir do momento em que um filho nasce, mais festas acontecem em sua vida. Incrivelmente, todos os finais de semanas, até eles completarem uns 10 anos, são preenchidos por aniversários, shows infantis, campeonatos, entre outros eventos. Do dia para a noite, chega uma chuva de convites do Inácio, da Liz Maria, da Valentina e não para mais. Além de batizados e chás de bebês que são “subclasses” de festas infantis.

Certa vez fui convidado para um batizado e cheguei atrasado. Coitado de mim e das crianças que tudo viam, claro! Um dos amigos, já bem alto, lançou um “Toca Raul” e todos os demais, igualmente ou mais altos, seguiram o coro. Cantaram uma música de gosto duvidoso e no fim fizeram brindes “ao infinito e além”. Acho que a ideia deles era me deixar no nível próximo. Quase conseguiram! 

Outro dia, em um jantar com casais e crianças, não bebi e fiquei observando. Incrível como pais e filhos fazem coisas semelhantes. Enquanto as crianças, lideradas pelo Bento, brincavam felizes e tomavam água e suco, os pais estavam com suas taças, com vinho ou espumante, sempre em punho e também sorridentes. Algumas horas depois, já no horário do sono, os gêmeos Gabriel e Davi e eu fomos dormir. Observei os dois, cada um com sua mamadeira plástica e lúdica. O pai, ninando e balançando o carrinho duplo, também fazia gesto igual. Porém, a “mamadeira” dele era de vidro, verde e trincando!

No fim de semana que antecedeu o Carnaval, fomos a um aniversário de uma princesa feLiz! Ela estava comemorando um ano. Decoração, brinquedos, animadores, doces, etc. Tudo caminhava bem para os parabéns e as tradicionais fotos quando, de repente, saem Patati e Patatá do som mecânico e entra o pai da aniversariante com uma banda de pagode vintage distribuindo cervejas no lugar do picolé ou da pipoca.

Depois de tantos anos na vida noturna, agora as aventuras se resumem aisso. Cada carnaval, micareta, boteco e biboca de todo tipo parecem resumidas a apenas um aperitivo para a verdadeira “folia” que são as festas infantis.

Um carrinho de bate-bate, que eles “pilotam” mordendo o “beiço”, desbanca qualquer empurra-empurra de uma “pipoca” em Salvador. O pula-pula, onde as crianças derrubam bebidas umas nas outras e batem cabeça sem parar, deixa o frevo do Recife e qualquer CarnaRock no chinelo.

Mas não “tão, tão distante” do início do “desfile”, logo percebo que algumas crianças já “queimaram largada” e estão deitadas nos carrinhos ou nas cadeiras “ajojadas”. Assim como muitos de nós, que também já dormimos no carro ou no puf do lounge do camarote. 

Enfim, entre trios elétricos, shows da Tia Hanna, drinks e mamadeiras, é possível perceber que para cada idade se tem uma diversão e a oportunidade de aproveitar até o último minuto tudo o que é possível. Seja no Carnaval ou nas festas infantis.

Raul Fortes é músico educador e apresentador.

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