Olhar Conceito

Segunda-feira, 13 de abril de 2026

Colunas

Pedra Canga: um Mato Grosso que fala, resiste e não se deixa esquecer

Há livros que se limitam a narrar acontecimentos. Outros, mais densos,
realizam um gesto mais amplo: restituem ao leitor um território inteiro — com
suas vozes, suas sombras, suas crenças e sua memória ainda em combustão.
Pedra Canga, de Teresa Albues, inscreve-se nesse segundo campo. Não se trata
apenas de uma história que se acompanha, é uma experiência que se atravessa.

No povoado que dá nome ao romance, a narrativa se organiza em torno
da família Vergare, figuração do poder concentrado e da riqueza erguida sobre a
espoliação. Mas o eixo da opressão não esgota o enredo. Ao seu redor, organiza-
se uma constelação de personagens que sustenta a respiração do romance. Zé
Garbas, figura contraditória e intensamente humana, alterna entre a
irreverência desbocada — de viola de cocho em punho, expondo hipocrisias — e
um fundo de inconformismo que só se consuma ao final, quando decide arribar
caminho com os ciganos. Marcola, mulher de guia e de escuta funda, presença
quase iniciática, transita entre planos e lê o mundo para além da superfície
visível, conduzindo os outros por entre mistério e revelação. Crescência
condensa a violência social e afetiva: arrancada de seu lugar, submetida ao
desejo e ao mando, devolvida à senzala, sucumbe ao desgaste de uma vida que
não lhe pertenceu. Nastácio prolonga essa tragédia em grau extremo, vivendo
como escravo do próprio pai sem jamais saber sua origem, como se a crueldade
pudesse atravessar gerações sem nome.

E há ainda os garotos de Pedra Canga — Zigmundo, Capacete de Aço,
Miguelito, João Gonçalo, Chico, Leão Manso, Evilázio, Zelito — meninos de
pobreza crua, criados ao deus-dará, unidos pela fome, pela astúcia e por uma
lealdade silenciosa. Viviam em barracos de adobe, entre pouca comida e
nenhum conforto, aprendendo cedo a “se virar” por conta própria. Para eles, a
Chácara do Mangueiral não era apenas um pomar: era o escândalo de uma
fartura interditada. As frutas amadureciam, caíam, apodreciam sem serem
tocadas, enquanto o povo carecia do básico. Diante disso, organizavam
expedições quase militares, guiadas por planos improvisados e coragem infantil,
para invadir o território proibido. O que encontravam, quase sempre, era a
resposta brutal da propriedade: tiros de sal grosso, disparados não apenas
contra corpos pequenos, mas contra a própria ousadia de desejar. Ainda assim,
insistiam. E quando, mais adiante, a chácara se revela vazia e as frutas podem
enfim ser colhidas sem perseguição, a cena adquire valor de desforra simbólica:
não é apenas um punhado de meninos exibindo mangas, goiabas e pitombas
com orgulho, mas a própria Pedra Canga experimentando, por um instante, o
gosto tardio de uma reparação.

Desde cedo, percebe-se que o romance não se contenta em expor
conflitos sociais. Há nele um movimento de escavação — da memória, das
marcas deixadas pelo tempo, das histórias que persistem mesmo quando
silenciadas. O passado não se apresenta como matéria distante; ele retorna, se
impõe, se reintegra com tal intensidade que parece reassumir sua presença “em
toda a sua força”.

Nesse universo, o sobrenatural não comparece como adorno nem como
ruptura da lógica narrativa. Ele constitui uma forma de apreensão do mundo.
Marcola, figura central nesse aspecto, não distingue radicalmente o visível do
invisível: transita entre ambos com naturalidade, escuta seus guias, reconhece
forças que não se deixam reduzir à explicação imediata. Quando insinua que
sonho e recado podem ser uma só coisa, desarma a oposição convencional entre
realidade e imaginação. O que se revela ali é uma ampliação do real — não sua
negação.

A própria terra guarda memória. A casa dos Vergare não é apenas
construção, mas concentração de mando, violência e permanência. Por isso, sua
queda não poderia ocorrer sem resistência. Há uma luta que atravessa a noite,
forças que se recusam a abandonar o lugar, como se o mal ali sedimentado
exigisse enfrentamento para se dissipar. Quando enfim se desfaz, não se trata
apenas da ruína de uma estrutura, mas da dissolução de um poder que insistia
em permanecer inscrito no espaço.

Ainda assim, o romance não se encerra na devastação. Há, ao final, uma
abertura para a celebração. O povo reunido, a luz que resplandece, a música que
atravessa a noite, o encontro entre Maria dos Anjos e Antônio — tudo sugere
uma forma de restituição. E na imagem do barco que desliza sobre as águas,
delineia-se uma travessia que é ao mesmo tempo concreta e simbólica: algo foi
superado, ainda que não inteiramente apagado.

Nada disso alcançaria tal densidade sem a linguagem que sustenta a obra.
Teresa Albues constrói um texto de aparência simples, mas de elaboração
rigorosa, em que a oralidade do interior mato-grossense não é recurso
decorativo, mas estrutura viva da narrativa. Ali, o mundo se organiza em torno
de gestos e objetos que carregam memória: o guaraná partilhado como rito de
aproximação, a viola de cocho ressoando entre o deboche e a denúncia, o cigarro
de palha aceso em conversas que misturam conselho, desabafo e revelação. As
palavras — “acocorada”, “desgrenhada”, “cismando”, “ressabiado” — não apenas
nomeiam, mas encarnam modos de vida. Dessa matéria aparentemente comum
emerge uma escrita que, sem alarde, alcança momentos de forte condensação
poética, em que a frase se transforma em pensamento, e o pensamento
permanece como experiência.

A natureza participa ativamente dessa construção. O rio não é cenário: é
caminho, é passagem, é linguagem. As cores parecem ganhar som, o vento
carrega sinais, a água reorganiza o mundo. Tudo vibra numa lógica que
ultrapassa a percepção imediata, aproximando matéria e espírito numa mesma
corrente.

Essa articulação entre o particular e o amplo constitui uma das maiores
virtudes do romance. Ao fincar raízes profundas em Mato Grosso — em sua fala,
seus costumes, suas formas de vida —, a obra alcança uma dimensão que
ultrapassa o local. O que ali se narra — a pobreza que une, a exploração que
estrutura, a resistência que insiste — reverbera para além de qualquer geografia.

Ler Pedra Canga é, nesse sentido, um gesto de aproximação com uma
literatura que nasce da terra e da memória sem abrir mão de complexidade. É
encontrar um Mato Grosso que não se reduz a paisagem, mas se afirma como
experiência humana densa, atravessada por conflitos, crenças e permanências.

E, ao final dessa travessia, permanece uma espécie de ensinamento
discreto, quase sussurrado: diante da vastidão do caminho, não é o rio que
decide o destino — é a mão que segura o remo.
Sitevip Internet