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Terça-feira, 18 de janeiro de 2022

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entrevista

Psicóloga critica censura a exposição: é necessário ajudar as crianças a interpretar a realidade, não escondê-la

Foto: Arquivo Pessoal

Daniela freire é psicóloga e coordenadora de grupo de pesquisa sobre Psicologia da Infância

Daniela freire é psicóloga e coordenadora de grupo de pesquisa sobre Psicologia da Infância

Depois da retirada da exposição “Cinco Elementos do Cerrado”, de Tchélo Figueiredo, do Goiabeiras Shopping no último domingo (13), diversas pessoas se posicionaram contra o local onde as fotos foram expostas. O argumento foi claro: no shopping passam crianças, e crianças não sabem lidar com a imagem de um corpo nu.

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Esconder dos menores a existência do outro e da sexualidade tem sido tarefa difícil para os pais, que se encontram cada vez mais perdidos na criação. Entre mostrar demais e mostrar de menos, muitos escolhem colocar vendas nas crianças para que somente quando começarem a se interessar, por si só, pelo corpo alheio e pelo seu próprio, busquem formas de sanar suas dúvidas. Seria este o caminho?

A psicóloga, doutora em educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), professora do curso de psicologia da UFMT e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Psicologia da Infância, Daniela Freire, deu uma entrevista ao Olhar Conceito falando especificamente sobre este assunto.

Daniela relembra que é impossível esconder a nudez de seus filhos, seja ela erotizada nos comerciais de televisão ou artística. A escolha dos pais está em explicar o assunto ou deixar para que eles ‘aprendam’ em outros locais.

A psicóloga discute, ainda, o papel social do Shopping. Hoje, visto como um local ‘seguro’ e sem função educativa, o espaço poderia repensar sua função, buscando o apelo cultural, o que faria com que a população, aos poucos, lidasse melhor com propostas como essa.

Leia a íntegra da entrevista:

OC -  Qual a relação da criança com o corpo nu de um adulto?

Daniela -
O corpo é a primeira referência que a criança possui que a possibilita estabelecer sua relação com o mundo. O contorno corporal da criança se constitui na relação com o outro corpo, no caso o de sua mãe ou o de quem a materna. Um dos momentos mais emblemáticos da relação da criança com o corpo nu se dá no ato da amamentação. Além disso, o movimento do corpo também é um importante elemento que promove o desenvolvimento, a emergência da inteligência prática que anuncia as condições para o desenvolvimento das operações mentais mais abstratas.

Assim a criança aprende a interpretar o mundo por meio do corpo e de seu movimento.

OC - Com que idade ela começa a entender que o corpo é diferente, ‘se interessar’ por ele?

Daniela - O corpo vai sendo significado pela criança a medida que sua capacidade intelectual se desenvolve, de forma que em cada idade o corpo é percebido e interpretado de diferentes formas.

Vamos dividir em grandes períodos: a primeira infância até seis anos, de 6 a 12 anos e de 12 em diante. Na primeira infância a criança identifica diferenças anatômicas, aprende a nomear tais diferenças conforme a cultura designa o sexo (cujo critério mais utilizado é a referência biológica tal como descrita cientificamente), neste período o grande desafio da criança é compreender o significado do ser homem e do ser mulher ainda muito atrelado pela significação que lhe é apresentada pela cultura. Então o corpo pode ser entendido como importante referencial identitário.

Com o desenvolvimento intelectual e com a capacidade de nomear sentimentos desenvolvidos a criança passa a compreender os diferentes significados sobre o corpo que circulam na cultura um deles é o erotismo, que de certa forma atravessa a infância e discussões sobre a erotização das crianças tem sido levantadas alertando para o fato de adultos tratarem o corpo infantil como um corpo maduro sexualmente falando. Mas também essa erotização encontra a criança dentro de sua própria casa pela via da televisão e conteúdos midiáticos em geral como uma propaganda de cerveja, por exemplo.

Muitos são os debates sobre a construção de um corpo feminino como objeto, no caso da propaganda de cerveja quando a própria garrafa se transmuta em um corpo de mulher ou vice versa.

A forma como a sociedade trata o nu, banalizando, transformando os corpos em objeto de manipulação do desejo do outro é um dado que passa a ser compreendido e muitas vezes naturalizado pelas crianças.

Isso para não falar do abuso sexual de crianças muitas vezes realizado por pessoas conhecidas e até parentes muito próximos. Tal assunto, ainda tabu na nossa sociedade, segue silenciado pelas famílias e pelos educadores.

Esta criança quando chega na adolescência pode assumir uma sexualidade ancorada nos significados que lhes são apresentados pela cultura, pelos grupos sociais aos quais ela pertence. O corpo nu pode ser significado como objeto a ser usado conforme o desejo do outro, portanto um corpo fragmentado e submisso, mas também pode ser um corpo integrado as dimensões do afeto e do pensamento. Um corpo que pensa, sente e age de forma coerente e criativa.

Os processos de formação da pessoa humana realizados no interior dos grupos familiares, educacionais, religiosos e por meio dos processos de comunicação de massa poderão contribuir para a relação que o ser humano estabelece com o corpo nu, especialmente pela forma pela qual significam a nudez.

OC - É diferente a relação que a criança tem com o corpo dos pais (que ficam pelados em casa, por exemplo), com outros corpos (como o dessas fotos)?

Daniela - Os principais mediadores que a criança possui para compreender o mundo são seus familiares, Quanto menor é a criança mais influenciada ela é pela visão de mundo dos adultos, aos poucos e, se autorizada por eles, desenvolve sua forma de pensar com diferentes graus de autonomia até a vida adulta.

Existem muitos contextos em que a nudez aparece. Ela pode ser significada como corpo biológico tal como aparece nos livros de ciência quando a criança estuda o aparelho reprodutor, pode ser uma nudez erotizada, pode ser um corpo nu sem vida ou um nu artístico. Em cada contexto teremos significados diferentes.

Neste sentido, a relação que a criança estabelece com a nudez, seja de quem for, passa pela significação que é atribuída à ela.

OC - Algumas pessoas reclamaram dizendo que seria necessário uma ‘classificação indicativa’ na exposição. Outras argumentaram que as fotos não eram sensuais / sexuais, e por isso não precisaria. O que seria ‘o certo’?

Daniela - Vi a exposição no shopping e de fato concordo que não era uma nudez erotizada, mas admito que havia uma referência à sensualidade, um significado possível para a nudez. A sensualidade oral quando uma pessoa chupa um caju por exemplo é mais percebida pelo adulto que possui a capacidade de simbolização mais desenvolvida. Uma criança pequena provavelmente não se atentará para esse significado mesmo que veja a mulher com o caju na boca.

No geral o que se vê são corpos de mulheres em exercício criativo, um corpo que se transforma em uma narrativa. Não é apenas um corpo feminino nu que se mostra literalmente mas sim um corpo feminino nu inserido em um contexto maior que convida a uma narrativa, a se contar uma história, O nu não é o apelo principal.

O que me parece que ficou deslocado foi o lugar da exposição. Sobre isso podemos pensar em muitos aspectos especialmente porque o principal apelo de um shopping não é o cultural embora seria ótimo que fosse. O público que ali esta é muito variado e pode significar o nu artístico de formas antagônicas e isso explica reações de aplausos e de rejeição. No entanto, se o shopping definir por essa linha de trabalho assumindo uma função educativa articulando ações culturais com ações de consumo (isso já é realidade em outros lugares) talvez a população, paulatinamente, lide melhor com a proposta.

A questão aqui não passa pela criança mas sim pelos adultos, pelo projeto cultural que o shopping quer assumir e pela articulação das ações que tem exercido em nome da cultura.

OC - Até que ponto os pais devem esconder de seus filhos a existência da sexualidade / corpos nus, quando isso se torna repressão?

Daniela -
Os pais conseguem esconder? Neste país onde o corpo nu é uma questão fortemente marcada pela cultura? Não conseguem não é mesmo, como não escondem da criança a violência, a miséria, o abandono, a competição. Podemos escolher entre ajudar a criança a interpretar a realidade ou deixar esta tarefa para outros agentes sociais.

A Arte é um caminho que pode nos ajudar por meio do seu condição de anunciar novas possibilidades.

OC - Como um pai, ao passar pelas fotos no shopping, poderia explicar para seus filhos sobre aquilo?


(Foto da exposição de Tchélo, retirada do Shopping)

Daniela -
Não necessariamente precisa explicar. Muito provavelmente a criança se interesse pela tatuagem da moça, ou pela cabeça de boi dela. O corpo nu não é a única imagem na cena retratada.

É preciso perceber o que de fato mobilizou a atenção da criança e, se for o corpo nu então esta seria uma ótima oportunidade de apresentar a diferença entre um corpo objeto que é aquele que aparece na televisão da própria sala de casa para um nu artístico.

Mas entendo que essa possibilidade não é possível para todas as famílias.

8) Para você, a exposição estava em local inadequado, por não estar ‘escondida’ das crianças?

Daniela -
As crianças tem o direito à cidade e à cultura, isso deveria ser inegociável. Mas são as famílias que definem onde elas podem circular.

Há um contrato tácito que o shopping é um lugar ¨seguro¨ para crianças circularem sem que nenhum perigo as aflijam. O shopping, de certa forma, vende essa ideia de segurança. A segurança,para a maioria das pessoas, pressupõe controle, linearidade, norma. O contrário disso seria o imprevisto e o estranhamento diante do novo.

Penso que o dissenso se deu muito em função desta contradição. A Arte com seu potencial criativo em um espaço conhecido e valorizado como normativo.

Na minha compreensão o shopping deve pensar em seu projeto cultural com maior determinação e perceber a importante função social deste investimento. No entanto, é preciso considerar que diferente de uma galeria de Arte, onde o público busca o novo como experiência, no shopping circulam pessoas pouco disponíveis a se deixar mobilizar pelo poder criativo de uma obra de Arte.
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