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Histórias centrais de Cuiabá: exposição de José Medeiros apresenta a cidade esquecida e ignorada

Da Redação - Naiara Leonor

02 Ago 2016 - 17:02

Foto: José Medeiros

Histórias centrais de Cuiabá: exposição de José Medeiros apresenta a cidade esquecida e ignorada
“As pessoas dizem muito pelas mãos, contam histórias, revelam as marcas do ser através delas, seus calos, sua mansuetude, aceleração e vagareza do tempo, da mente, do coração. Olhos atentos enxergam várias vidas por meio delas. Mãos que alcançam a dor e o amor.”

São mãos, ásperas, de dedos rachados e pele queimada pela urgência do desejo insano. Mãos pretas em ouro, em prata do dinheiro jogado para calar a culpa alheia, para calar a dor alheia e justificar o desprezo nosso. São essas mãos que recebem o visitante que adentra a exposição “Kyyaverá – Cuyaverá – Cuiabá 300” por José Medeiros, disponível até dia 31 de agosto no Museu de Arte e Cultura Popular (MACP), na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com entrada gratuita.

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O tratamento de igual para igual é o que aproximou José Medeiros de seus personagens, a abordagem humana ultrapassou as diferenças, eliminando indiferenças. “Eu me mudei pra região da Praça da Mandioca por causa do projeto. Pensei, ‘não é possível que eu não vou conseguir fazer isso’ [ter um contato mais direto com os usuários de crack], então eu coloquei um chinelo peguei a câmera e fui conversar com eles”, explicou.

Na voz de Elza Soares, ‘Paciência” de Lenine envolve por inteiro quem adentra o universo dos personagens de Zé Medeiros, que com sua característica imersiva nos chama pra dentro da história de cada foto. A vida é mesmo tão rara nos corredores de Cuiabá, por José Medeiros.


Série de retratos da exposição “Kyyaverá – Cuyaverá – Cuiabá 300” por José Medeiros.

Entre retratos e poesias, uma escrita pela alma de Sol, que atirou no mundo seu sofrimento explodindo em versos. “Esses são os meus dias, os mais tristes que o destino escreveu e me deu sem perguntar se queria eu. E no arquivo da minha vida esses dias permaneceu. São os dias mais silenciosos que já se deu, porque eu não tenho ninguém somente Deus e eu.”

A exposição é apenas uma mostra de todo material que o fotógrafo reuniu. “Não sei se quero fazer um livro, tem muito material, mas ainda não decidi. Eu quero levar isso pras pessoas, sensibilizar de alguma forma, não sei se só discutir ou só dar o troquinho na mão deles e ir embora.”

Como num beco rumo ao coração da cidade, uma instalação revela a origem da voz de Elza como pano de fundo da vida nas ruas. “Vocês perceberam que no fim o saquinho morre? Até ele tem vida”, comentou José Medeiros sobre o elemento que aparece durante o filme.

Um dos momentos mais tocantes é o altar em luto por ‘Cheroza’. O luto por aquela conhecida que eu não sabia nada, mas que recebia sempre pelas ruas da vida e que agora não está mais lá. “Me sinto como um pai incompetente que não conseguiu ajudar ela de alguma forma. Quando ela faleceu eu não estava aqui, estava viajando, fiquei sabendo depois, nem sei o que fizeram”, conta o fotógrafo.


Homenagem a Cheroza, falecida em maio de 2016

A exposição pode ser visitada durante horário de funcionamento do MACP, das 7h30 às 11h30 e das 13h30 ás 17h30 de segunda a sexta e aos sábados das 13h às 18h, entrada gratuita.

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