Olhar Conceito

Sábado, 26 de setembro de 2020

Notícias / Artes visuais

Com mais de 40 exposições no currículo, jovens irmãos são grandes fomentadores da arte mato-grossense

Da Redação - Isabela Mercuri

22 Jan 2017 - 16:05

Foto: Arquivo Pessoal

Amanda Gama, Ivanilde Gama e Willian Gama em evento na Galeria Mirante das Artes - 2015

Amanda Gama, Ivanilde Gama e Willian Gama em evento na Galeria Mirante das Artes - 2015

Foi aos doze anos que Willian Gama adquiriu sua primeira obra de arte: um quadro do artista cuiabano João Sebastião. Nesta idade, entrando na adolescência, o garoto já tinha o interesse pela arte aflorado, principalmente, pela leitura de obras como “Arte Aqui é Mato”, de Aline Figueiredo. Hoje, dez anos depois, junto a sua irmã Amanda Gama já assinou a curadoria de quarenta e duas exposições e carrega um histórico de fomento aos artistas mato-grossenses.

Leia mais:
União do "Sagrado e Profano" marcam exposição de Sérgio Venny no Museu Histórico

Essa paixão fez também com que os dois estudassem História da Arte da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e também no Museu de Arte de São Paulo, o MASP. “Nós sempre achamos que a história da arte era a história da humanidade. Se hoje escrevemos, é por causa dos primeiros grifos”, conta Willian. “E sempre fomos muito curiosos. Sempre gostamos de estudar a história de Mato Grosso, na escola éramos os únicos que tiravam notas boas em história regional. Está tudo ligado”.

Influenciados também pelos pais, Ivanilde Gama e Oneias Gama (advogados e consultores jurídicos), os jovens desenvolveram o amor pela arte aos poucos. Atualmente, os cerca de 400 quadros que adquiriram nos últimos cinco anos ficam guardados no acervo pessoal em uma fazenda de Minas Gerais. “Lá temos a adequação técnica necessária, de temperatura e ambiente, para manter as obras de arte”, explica Willian.


Marília Beatriz - Presidente da Academia Mato-grossense de Letras - Em visita a Exposição Panorama 2006|2016 - Individual do Artista Carlos Lopes - Galeria de Arte do Sesc Arsenal - 2016 (Foto: Rildo Amorim) 

Em Mato Grosso, os dois desenvolvem um trabalho de fomento à arte local desde 2012, quando criaram a Associação Mirante das Artes. “Nossos pais sempre adquiriram obras de arte, e aos poucos percebemos que a situação dos artistas era muito instável, sem a garantia de retorno todos os meses”, lembra. A partir daí, os irmãos – na época com 17 e 18 anos – desenvolveram a ideia da organização, sem fins lucrativos, para auxílio deles.

“Auxiliamos em concessões do governo estadual, fizemos exposições em Várzea Grande, em Belém, em vários lugares fora de Mato Grosso mostrando os artistas plásticos daqui”, afirma Willian. O curador não se furta de comentar, no entanto, que este trabalho já havia sido feito nas décadas de 60 e 70 por Aline Figueiredo e Humberto Espíndola, criadores do Museu de Arte e Cultura Popular de Mato Grosso (MACP) – do qual, hoje, Willian e Amanda são conselheiros.

“O que eles fizeram na época foi surpreendente. Para fazer uma pesquisa que conseguimos fazer hoje via internet, Aline precisava ficar três meses morando em São Paulo, devorando livros”, comenta. “Eles foram revolucionários. Com a união da arte popular e erudita quebraram todas as barreiras existentes, mostraram ao Brasil que o Brasil era bonito, e que havia arte no interior do país, fora do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Minas Gerais”.

Galeria Mirante das Artes


Amanda e Willian Gama em entrevista no Olhar Conceito (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

O nome da galeria era para ser “João Sebastião”, em homenagem ao artista que pintou o primeiro quadro adquirido por Willian. No entanto, para não deixar ‘muito pessoal’, mudaram de ideia. “Num ato de humildade o João pediu que o nome não fosse esse, e sim o mesmo nome da Associação, que é também o título de uma revista de arte muito famosa no Brasil na década de 60". 

Mesmo antes de ser galeria, o restaurante Mirante das Águas foi o local escolhido pelos irmãos para instalarem seu escritório e uma pequena sala de exposições. Em 31 de março de 2014, então, o ‘Mirante das Artes’ abriu suas portas, com uma mostra de inauguração que levava obras de vinte e sete artistas que produzem em Mato Grosso para o público.

“Foi um sucesso. Na terceira semana de exposição já tínhamos vendido todas as obras. Era a primeira galeria de Várzea Grande em muito tempo, uma das únicas também em Cuiabá e um local seguro tanto para os artistas, quanto para os clientes”. Segundo Willian, as obras custavam a partir de R$2500, mas eles também mantinham uma loja de artesanatos com produtos a partir de R$30 como livros, camisetas e CDs.

“A Aline nos disse que, por ser em um restaurante, não seria todo mundo que iria comprar. Que a pessoa não vai até o restaurante preparada para comprar uma obra de arte”, lembra. “Não que não acontecesse. Teve sim uma vez que uma mulher, que não conhecia nem o restaurante, nem a galeria, foi almoçar, nos visitou e adquiriu um quadro de R$15 mil”.

Em dois anos de atividades, a galeria recebeu mais de trinta exposições, e os irmãos passaram a ser referência no mercado. “Tínhamos muito contato com João Sebastião e outros artistas na galeria, e os outros artistas plásticos ouviam, ficavam sabendo que estava dando certo e vinham nos procurar”.

Apesar da grande procura, a seleção dos artistas para a galeria era rígida. “Tínhamos obras de Humberto Espíndola, o único mato-grossense que participou da Bienal de Veneza, e que também já foi para a de Paris, de Havana, várias vezes na de São Paulo... Então não tinha como colocar quadros de qualidade inferior”, explica o curador. “Não que não déssemos oportunidade para novos artistas. Mas a seleção era feita pelo portfólio. Como nós dois estudamos história da arte por muito tempo, temos a noção do que é bom e do que não é”.

Problemas com funcionários e a falta de tempo – Willian e Amanda ainda são estudantes de direito e trabalham em uma empresa familiar – fez com que os dois fechassem as portas da galeria. Atualmente, trabalham com entrega de obras de arte em domicílio e continuam o trabalho de curadoria.

Exposições


Willian Gama, Babu78 e Amanda Gama - Abertura da Exposição Profundidade (Individual de Babu78) - A Casa do Parque - 2016 (Foto: Protásio Moraes)

Dentre as quarenta e duas exposições gerenciadas pelos irmãos, diversas foram premiadas e reconhecidas nacionalmente. Uma delas, por exemplo, foi “Percurso”, realizada durante a Copa do Mundo em 2014. “Ela foi eleita a melhor curadoria do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), que é a ponte para a Associação Internacional, ou seja, quem escolhe as obras para as Bienais Internacionais, etc”, explica Willian. Nesta exposição, os irmãos participaram como colaboradores, e a curadoria era de Aline Figueiredo.

Outra mostra foi “Orifício”, de Benedito Nunes, premiada pelo Sesc Amazônia das Artes e que viajou para estados como Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Maranhão, Amapá, Tocantins e o Piauí.

Agora, o objetivo dos irmãos é simplesmente continuar trilhando este caminho. Pretendem usar a faculdade de direito para trabalhar com cultura, como em direito de propriedade e leis do patrimônio histórico.

O conhecimento pode ajudar, também, a entender os direitos e deveres que tem como curador. Segundo Willian, a função deste profissional é de conceber e gerenciar a exposição. “Nos reunimos com o artista para construir a ideia da exposição. Ele nos diz a ideia e nós aparamos as arestas para criar. Também é função do curador produzir todo o material gráfico, contratar todas as pessoas que vão trabalhar na mostra, e gerenciá-la”.

O trabalho é complicado até mesmo para eles, que em pouco tempo já tem tanta experiência. Willian conta que em 2015, por exemplo, eles fecharam um contrato com uma produtora de São Paulo para um grupo de quatro artistas. No entanto, foram enganados e tiveram que arcar com 50% do valor pago.

“Cada artista pagou um valor X e [no final] o trabalho não foi feito. Eu tenho que protestar o contrato agora na justiça. Era um grupo de quatro artistas, e a produtora só fez trabalho para dois, deixando dois pra trás. No final das contas, nós (eu e minha irmã, como galeria) vamos ter que restituir em dinheiro esses dois artistas para que eles não saiam prejudicados”, conta. “Essa é mais uma das seguranças que o trabalho do artista com uma galeria proporciona ao artista”.

O incidente foi uma exceção. Em geral, o trabalho dos ‘irmãos Gama’ tem sido reconhecido e cresce ao passar dos anos. Apesar disso, Willian acha que ainda falta muito. “Nós somos muito mais acomodados do que a Aline Figueiredo, o Humberto Espíndola e a Dalva de Barros, por exemplo. Acho que são as inúmeras distrações, mesmo sendo tão ocupados”, lamenta.

Comentários no Facebook

Redes Sociais

Sitevip Internet