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Há dez anos, psicóloga se dedica a tratar pacientes com câncer por meio da arte

Da Redação - Isabela Mercuri

15 Out 2017 - 10:08

Foto: Rogério Florentino Pereira/OD

Há dez anos, psicóloga se dedica a tratar pacientes com câncer por meio da arte
Já são dez anos convivendo com pessoas que lutam, todos os dias, para sobreviver. Dez anos fazendo com que este, no entanto, não seja o único pensamento em suas mentes, conversando sobre a vida e a morte e – porque não – ensinando um novo ofício a quem terá que recomeçar a vida. Maria de Fátima Pedreira, psicóloga, lidera o setor de ‘Arte Terapia’ do Hospital de Câncer, e guarda em sua memória histórias que leva para sempre.

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“Eu comecei aqui há dez anos, porque eu trabalhava, antes, no Adauto Botelho, e tinha uma paciente lá que a mãe dela ficou internada no Hospital de Câncer, e percebeu que aqui não tinha nada para os adultos, só para as crianças”, lembra Fátima. Na época, os pacientes que vinham do interior, ou os que precisavam passar o dia todo na instituição para fazer diversos tratamentos, ficavam deitados ou sentados durante horas, amargando os pensamentos negativos trazidos pela doença. “Ela falou com o diretor, na época era o Dr. Rogério, e ele aceitou que eu viesse fazer este trabalho aqui. Só que ele me chamou e disse: ‘nós não vamos dar nada pra você, você vai ter que começar a pedir”.

Foi assim que se iniciou o trabalho da sul-matogrossense, que vive em Cuiabá já há trinta anos. No início, o máximo que ela tinha para oferecer eram papeis e lápis de cor, para que eles pintassem cartões de nata. Foram tantos, que o setor já conseguiu vendê-los para comprar mais materiais. Só um ano depois, que uma senhora, chamada Dona Iolanda, doou a primeira máquina de costura, e assim continuou o trabalho de Fátima: com doações, vendas e muito esforço.

Atualmente, o setor de arte terapia do Hospital de Câncer conta com dez voluntários, muitos deles ex-pacientes que se curaram e decidiram ajudar. “É muito boa essa interação, essa amizade que eles têm aqui. Porque quando um paciente descobre que tem câncer, a única coisa que ele consegue ver é a morte. E conversar com pessoas que já passaram por isso e estão curadas, faz eles terem mais esperança”, afirma.

O ateliê fica aberto diariamente, durante oito horas, tempo em que Fátima trabalha. Ali são confeccionados panos de prato, bonecos, quadros e outros tipos de artesanato, que são vendidos para ajudar a instituição. “Como o hospital tem muitas dívidas, não é sempre que esse dinheiro volta pra gente pra poder comprar mais material. A maioria do que nós temos vem de doações mesmo”. Apesar dessa dificuldade, os pacientes que produzem recebem uma porcentagem das vendas.

Nos dez anos dentro do Hospital, muitas histórias marcaram a psicóloga. Uma delas, no entanto, foi especial. “Tinha uma senhora, muito bonita, que queria fazer cirurgia plástica e estava fazendo os exames preventivos. Nesses exames ela descobriu que tinha câncer no colo do útero”, lembra. “Ela foi abandonada pelo marido, e a família tinha certeza que ela ia morrer. Não podiam vê-la que já começavam a chorar. Ela decidiu vir para Cuiabá sozinha para se tratar, conheceu o setor de arte terapia e adorou. Ela passava o dia inteiro aqui. Tomava café da manhã, almoçava... E quando acabou o tratamento, depois de seis meses, curada, ela não queria mais ir embora. Tivemos que fazer todo um trabalho, porque ela tinha sido abandonada pela família, mas precisava reencontrá-los”, conta.

Além dela, existem muitos outros ex-pacientes que usam o que aprendem na arte terapia para seguir a vida. Um deles, conhecido como ‘Seu Guimarães’, começou com desenhos, e atualmente expõe seus quadros junto ao artista plástico Nilson Pimenta, com quem fez outras aulas. Outras, principalmente mulheres, escolhem o artesanato como nova fonte de renda. “Tem muita costureira, cozinheira, que descobre que tem câncer e vem pra cá, e fica por um tempo recebendo o auxílio-doença. Depois, quando elas ficam curadas e descobrem que não vão mais receber, muitas não podem voltar a trabalhar com o que faziam antes, e usam o artesanato como nova fonte de renda, para se sustentar”.

Para alem dos benefícios financeiros, a arte terapia, segundo Fátima, ajuda de forma prática no tratamento da doença. “Existem várias terapias que podem ser feitas, com dança, teatro, mas o que fazemos aqui é essa de artesanato. E isso muda a qualidade de vida da pessoa mesmo, porque quando ela produz alguma coisa, ela passa a se sentir útil, a ter um estímulo a mais para viver. Além de tudo isso tem a amizade entre elas, e as conversas que acontecem aqui, que são muito importantes”, finaliza.

Serviço

O setor de Arte Terapia do Hospital de Câncer sempre precisa de doações, principalmente de: enchimento de acrílico para boneca, linha para crochê ou tapete, e qualquer outro material que pode ser reciclado.

Também é possível ser um voluntário, por até 4 horas semanais. Para mais informações: (65) 3648-7560.
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