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Domingo, 26 de junho de 2022

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Jesus nasceu em março e Papai Noel era santo medieval: professor da UFMT derruba mitos do Natal

Foto: Reprodução / Ilustração

Igreja teria se apropriado de data festiva na Idade Antiga para fortalecer o cristianismo

Igreja teria se apropriado de data festiva na Idade Antiga para fortalecer o cristianismo

Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. E não faz 2017 anos. O Papai Noel é, na verdade, um santo medieval, que só foi atrelado ao de natal no século XIX – e para transformar a data em comercial. O pinheiro é uma árvore que não nasce no Oriente Médio, na Judeia, onde Jesus nasceu, cresceu e morreu – e nem tem neve por lá. Mas, afinal de contas, de onde surgiu tudo isso?

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O Olhar Conceito conversou com o historiador Marcus Cruz, 50, formado em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre e doutor, presidente da Associação Brasileira de Estudos Medievais entre os anos de 2009 e 2013, e que atua principalmente nos seguintes temas: Antiguidade Tardia, historiografia, cristianismo, história da Igreja e Idade Média, para entender um pouco melhor a verdadeira história do natal.

Porque 25 de dezembro?

Para começo de conversa, Jesus Cristo nasceu na Judeia, provavelmente, no mês de março. Os cálculos foram feitos por um escritor espanhol chamado Géza Vermes, e seus resultados foram publicados em seu livro ‘Natividade’. A data do Natal teria surgido, então, trezentos anos depois do nascimento de Cristo, e por questões muito mais políticas do que religiosas.

Antes do ano 311 d.C., no Império Romano, o cristianismo era considerado uma religião ilícita. “Em 311, o imperador do oriente, chamado Licínio, promulga uma lei de tolerância aos cristãos. Então, a partir deste momento, o cristianismo não é mais uma religião ilícita”, explica Marcus. Como o Império Romano, na época, estava dividido entre império do Oriente e do Ocidente, a religião ainda não era legal no lado ocidental. Isso mudou dois anos depois, quando Licínio, junto a Constantino, imperador do ocidente, editaram a lei, e a religião passou a ser legal em todo o Império.

Dois anos depois, em 315, o Império é unificado, e passa a ser comandado somente por Constantino, favorece o cristianismo com isenção de impostos, concessões e terras. “A Igreja e o cristianismo se reforçam. Mas os cristãos, no IV século, ainda são uma minoria. E uma minoria que compartilha o mesmo universo cultural com milhões de pagãos. E o cristianismo foi, e ainda é uma religião sincrética, que dialoga com outras religiões”, completa o historiador.

Até aquele momento a data de nascimento de Jesus não era comemorada pelos cristãos. “A Igreja, numa tentativa de fortalecer o cristianismo, vai estabelecer uma data para o nascimento de Jesus. E aí se escolheu a data de 25 de dezembro, porque nesse dia era a data de um importante Deus daquele momento, que era o Sol Invictus, o Sol Invencível. E aí Jesus se associa a essa ideia do sol invencível”, explica. “O Sol Invictus também era uma divindade única, de uma religião monoteísta, que acabou não conseguindo vencer. A data de 25 dezembro se explica como uma tentativa do cristianismo de se associar a certos símbolos pagãos, para crescer e se fortalecer nesse momento em que, apesar de ser uma religião lícita, apesar de ter favorecimento por parte do estado romano, ainda era uma minoria”.

Na realidade, até mesmo o ano de nascimento de Jesus foi calculado errado. Segundo Marcus, o cálculo foi feito no sexto século, por um monge francês chamado Dionísio Areopagita, e ele errou. “A referência é o Evangelho de Lucas”, explica. “E nós sabemos que o Evangelho de Lucas faz referência à figura de Herodes. Herodes morreu no ano 4 a.C.. Ele fala também de um recenseamento que o governador da província da Síria teria mandado fazer, e por isso que Maria e José estariam em Belém. As fontes nos dizem que houve um recenseamento no ano 6”. No fim das contas, Jesus teria nascido, na realidade, entre o que hoje chamamos de ano 4 a 6 antes de Cristo. Ou seja, com os cálculos corretos, estaríamos vivendo, aproximadamente, no ano 2022.

E o resto?



A partir daquele momento, os cristãos e os pagãos comemoravam suas maiores festas no mesmo dia. Aos poucos, as tradições foram se fundindo, e, ao longo dos séculos seguintes, em diferentes épocas e locais, o Natal passou a ter diversos outros símbolos, até chegar ao que é hoje.

O Papai Noel, por exemplo, é inspirado em um santo medieval que distribuía presentes para crianças, o São Nicolau. Este símbolo é ressignificado até ser ‘transformado’ no que conhecemos hoje. “A figura do papai Noel é algo muito mais da lógica capitalista, porque aí você tem a lógica da troca de presentes, tem uma nova data de troca de presentes. Para a Igreja, em termos oficiais, a comemoração do Natal é a missa do galo, a missa que se faz à meia noite, no momento que Jesus teria nascido. Agora, ela também não rejeitou essas tradições, porque fortalecia a figura do Natal”, comenta o historiador.

Nossa decoração, baseada em um pinheiro decorado com neve e bolas vermelhas e verdes, e o peru e o tender que se come na ceia, também não têm nada a ver com o carpinteiro que nasceu e viveu na Judéia. “Essa festividade do Natal é uma construção muito mais europeia do que do Oriente Médio, onde Jesus nasceu, viveu e morreu”, explica Marcus. “O pinheiro não é uma árvore que dá região da Judeia. A ideia de natal com neve, isso tudo é uma lógica que é construída na Europa, que foi onde o cristianismo se realizou de maneira bastante forte. E principalmente depois, com a expansão dos países europeus, acabaram levando essas tradições culturais pra suas colônias, no caso aqui a América”.



Ao pinheiro e à neve se somam as castanhas e o bacalhau, tradições portuguesas, o Ginger Bread, tradição inglesa, e o panetone, de origem italiana. “E nós tomamos isso como tradições natalinas, e não tradições ligadas a alguns locais fundamentalmente europeus”, conta o historiador. “A força da igreja e o fato de que a nossa cultura é uma cultura onde a religião cristã - e aí eu não estou falando das diferentes igrejas cristãs, eu estou falando da religião cristã - tem um peso muito grande. Tanto que alguns autores, ao invés de falar de uma civilização ocidental, falam de uma civilização judaico-cristã. A nossa visão de mundo é, queiramos ou não, acreditemos em Deus ou não, moldada dentro de uma cultura na qual a religião cristã tem um papel fundamental”, afirma.

“Jorge Luís Borges, escritor argentino, disse uma vez que a literatura ocidental, os autores, escritores e escritoras ocidentais, só contavam duas histórias de maneira diferente: a história de um homem regressando para casa depois de uma guerra, que é a história de Ulisses na Odisseia, e a história de um Deus morto de maneira violenta, que é a história de Jesus. Não sei se o Borges está certo, mas mostra a centralidade que tem a religião cristã na nossa civilização, na nossa cultura”, finaliza. 
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