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Profissão remanescente: últimos costuradores de bola resistem no Centro de Cuiabá

Da Redação - Vitória Lopes

15 Jul 2018 - 16:00

Foto: Olhar Direto

Profissão remanescente: últimos costuradores de bola resistem no Centro de Cuiabá
As incontáveis malas e mochilas do Conserto Silva guardam uma das mais antigas profissões. Consertar bolsas e malas quase sempre está atrelado para o caminho de costurar bolas de futebol. Os irmãos José Gonçalves e Dejair da Silva Santos já fizeram a alegria de muito menino e garantiram a pelada de sexta-feira de tantos outros boleiros, em mais de 40 anos de serviço.



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No fundo do estabelecimento, atrás de um balcão e na máquina de costura, Dejair, de 67 anos conserta uma mochila jeans em silêncio. O único barulho do ambiente é a televisão ligada na “Sessão da Tarde” e da máquina a trabalhar. Sem tirar os olhos do zíper que está arrumando, ele conta que nunca trabalhou em nenhuma outra função, a não ser a de costurar o remendo das pessoas.

Ser costureiro ou sapateiro é um cargo de gerações. Ele aprendeu o ofício com o pai, aos 17. “Meu pai era o sapateiro da ‘Sapataria Trindade’, famosa sapataria da rua do meio (Rua Ricardo Franco), ai pelos anos 1970. No caso de costurar bola, porque a profissão que eu exerço hoje foi com o Baiano. Isso de costurar mala e bolsa é outra profissão. Baiano trabalhou junto com meu pai, na Trindade também, só que ele saiu e montou uma sapataria por conta, ai ele pediu permissão pro meu pai e ele deixou, e fui aprender a profissão com ele, que é essa aqui”, diz ainda segurando a mochila.
 

Seus filhos, entretanto, não se interessaram por sua função e seguiram outros caminhos. Dejair então continuou com as malas e aposentou as bolas, tocando o ofício pro irmão, José Gonçalves. “Eu fiquei mais no serviço burocrático. E também é muito difícil bola hoje em dia. São difíceis pra costurar, elas já vêm tudo ‘localizada’ (sem costura)”, conta Dejair. Hoje, José é o responsável pelos pedidos de bolas dos clientes.  “Eu não mexo mais com bola. Bola tem que ter paciência e eu não tenho mais”, e ri.

O futebol na vida do cuiabano de São Gonçalo Beira Rio não se resume apenas ao passado de remendar bolas. Ele, dom bosquino de tchape e cruz e santista de coração, já foi presidente do clube São Gonçalo Beira Rio nos anos 2000. Dejair deixou o clube quando os jogadores começaram a cobrar pra jogar amadoramente. “Era profissional nada, era boleiro aproveitador. Eu tinha o bar lá e tomava conta do time, aí parei”.

Assim como os clientes vão chegando de repente, José entra no recinto. Desde os 15 anos ele faz da costura de bolas seu ganha-pão, e conseguiu criar assim o casal de filhos, que hoje é um mecânico e uma contabilista.
 

Com duas agulhas, o trabalho manual e silencioso demanda pouco tempo, a depender da dificuldade. O torcedor do Operário e Flamengo leva cerca de 10 a 15 minutos para trocar uma câmara, e cobra de R$ 10 a R$ 15 para costurar. “Se pegar uma bola e não largar, é coisa de meia hora pra consertar. Mas isso para colar. Agora para trocar uma câmara, é até mais rápido. Tem a válvula também, que o pessoal vem pra trocar o bico”, explica. Para colar, ele cobra de R$ 30 a R$ 35.

Os pedidos que chegaram naquele breve período da tarde eram todos de bolsas. José conta que em uma semana boa, recebe de 5 a 6 bolas. Mas tem semana que não vem nenhuma. No início, ele recebia tantas encomendas, que tinha que levá-las pra casa, para costurar enquanto assistia ao jogo de domingo – e seu filho observava o trabalho, aprendendo também o ofício.

Já passaram pelas mãos do costureiro bolas de futebol de crianças que jogam na rua a profissionais, como do Operário e Mixto. A Olímpica Esportes, sempre que recebe um produto com defeito de fábrica, também leva pra eles, assim como alunos de Educação Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Prefeitura.

Ele estima que o movimento caiu cerca de 50%. Isso se deve muito provavelmente pelo modo como a fabricação das bolas mudou. “Tem muitas bolas hoje que são descartáveis, não tem conserto. Ou a pessoa compra uma bola boa, ou compra aquelas descartáveis. Tem muitas bolas boas, de primeira, que não tem conserto, porque não tem costura. Então é difícil, mas ainda tem muitas bolas para consertar, e a gente conserta né?”.

Serviço

Endereço:
Rua Campo Grande, nº 84 - Centro
Horário: comercial do Centro

8 comentários

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  • Justo
    16 Jul 2018 às 21:27

    Fica na Rua Campo Grande quase esquina com a Rua 07 de Setembro no centro histórico de Cuiabá.

  • Jailson Aleixo
    16 Jul 2018 às 11:50

    A família "Quati" do S. G . Beira Rio. O meu respeito.

  • edson
    16 Jul 2018 às 09:01

    e onde fica isso?

  • Eduardo de Lamonica Freire
    16 Jul 2018 às 08:09

    Não poderia deixar de complementar: 1.A torcida pelo Flamengo e pelo Operário demonstra a excelência do esportista-artesão... 2. Meu abraço e meu respeito ao José Gonçalves. 3. Faltou citar na reportagem onde essas preciosas raridades são encontradas comercialmente.

  • Eduardo De Lamonica Freire
    16 Jul 2018 às 07:51

    Bela matéria, com o sabor de Cuiabá dos anos cinquenta e sessenta: prazerosa, romântica e familiar. O pai e o Baiano, mestres de ofício do amigo Dejair eram exímios artesãos do couro e "profissionais de primeira" e amigos que trabalhavam na Sapataria Trindade, uma respeitável referência do comércio do calçado em Cuiabá, localizada na "Rua do Meio". O Dejair representa (ainda) um seguimento cuiabano, felizmente presente nesta Cuiabá querida de 300 anos: o dos filhos que perpetuam, com orgulho. o rastro da competência familiar na arte do profissionalismo artesanal. Numa era de "tecnologismo selvagem" (e muitas vezes desumano), espero que na nossa Cuiabá tal exemplo se eternize.

  • Arruda
    15 Jul 2018 às 23:34

    Bela matéria de reconhecimento pelo trabalho dos irmãos Silva.Parabéns Vitória Lopes ??????

  • Gláucia da Silva
    15 Jul 2018 às 22:25

    Faltou o endereço na reportagem... já quero levar algumas bolsas

  • Mulher ma
    15 Jul 2018 às 17:33

    Profissão bonita Mas a modernidade acaba com tudo.

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