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pai do baguncinha

Conheça a história do primeiro trailer de "x-bagunça" de Cuiabá

Da Redação - Vitória Lopes

30 Set 2018 - 14:21

Foto: Arquivo pessoal/Ale Arfux

Conheça a história do primeiro trailer de
Nas esquinas de Cuiabá, ele quase sempre está estacionado. Seja na periferia ou no Centro, o tradicional trailer com o ‘baguncinha’ já faz parte da cultura gastronômica regional, juntamente com a maionese temperada. O orgulho cuiabano surgiu na década de 1990, entretanto, o seu pioneiro é o "x-bagunça", que já fazia sucesso na época em que o córrego da Prainha ainda corria aberto.


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A iguaria que fomentou o segmento do lanche de rua  em Cuiabá foi criada em março de 1973, por Ale Arfux. Na época, ele morava em Corumbá (MS) e tinha uma empresa de secos e molhados. Contudo, Ale acabou falindo e ficando sem perspectivas.

Quando trabalhou na Casas Pernambucanas, ele conheceu um cuiabano, o “seo Luiz”. Foi ele quem o aconselhou a vir para Cuiabá. “Ele falava ‘tchape e cruz’ e tudo. Em frente a Casas Pernambucanas tinha aquelas placas de propaganda de filmes e tinha um chamado ‘Amor e Sexo’, e ele dizia ‘Amor e Setcho’ (sic)”, lembra Ale, brincando com o sotaque cuiabano.
 

Hoje com 70 anos e dono da Máfia Pizzaria, Ale Arfux relembra quando inventou o x-bagunça

Inspirado no modelo de negócio de um amigo, que também tinha um trailer de comida, o empresário então procurou se informar se havia venda de lanches durante a vida noturna na capital mato-grossense. Com um cardápio na mão, um trailer fabricado em Bauru (SP) e o chapeiro Raul, Ale Arfux veio ressignificar sua vida em Cuiabá com o “Hot Dog Gato Frio”.

Estacionado próximo ao Córrego da Prainha – que ainda estava aberto -, Ale conta que o começo foi difícil, porque aqui não havia fornecedores. Quem o ajudou foram amigos e conhecidos. Um dia, por exemplo, seu futuro funcionário “Pala” estacionou uma F100 perto do estabelecimento. Quando Ale disse que não tinha refrigerantes, o homem que trabalhava numa distribuidora já fez negócio com ele.  

“Eu tinha um amigo que conheci quando eu tinha um armazém, e ele era vendedor da Baurupel, e ele que me fornecia alguns produtos. Outro amigo meu, gerente do Grande Hotel em Corumbá, o Machado, montou uma padaria lá no Porto e me fornecia os pães. Coincidiu de encontrar vários amigos aqui... e deu tudo certo”.

No início apenas com lanches tradicionais, como bauru e cachorro-quente, a clientela começou a se formar e o Hot Dog Gato Frio se tornou um point. O costume na época era também comer dentro do carro, com bandejas personalizadas que prendiam nas janelas. Era só piscar o farol, que lá ia o garçom atender.

Em suma, a maioria dos clientes era formada por jovens, que frequentavam a antiga balada Sayonara. “Eles vinham antes de ir pra lá, passavam no meu lanche e ‘abasteciam’. Depois, voltavam de madrugada”, relembra.

Uma bagunça no pão
 

O local virou um point durante a vida noturna cuiabana nos anos 70

O lanche, que é o “pai” do baguncinha, surgiu a partir de um pedido inusitado. Um dos amigos e clientes fiéis de Ale, Érico Presa, apareceu no Hot Dog Gato Frio. “Depois de um mês que eu abri o negócio, ele chegou e disse ‘Barbudo, eu já enjoei dos seus lanches, já comi de tudo. Faz alguma coisa diferente pra mim’. Então respondi que iria fazer uma ‘bagunça’ com pão. Subi no trailer, assumi o comando, e com tudo que eu tinha lá, salsicha, bacon, hambúrguer, queijo, presunto, maionese e ovos, preparei o x-bagunça, que ficou muito bonito”, conta.

Os demais clientes, quando espiaram a iguaria recém inventada, logo pediram do mesmo. Só naquela noite, o empresário conta que vendeu 56 x-bagunças. Uma semana depois, o sanduíche foi incluído no cardápio.

Inclusive, os nomes diferentes dos lanches já faziam parte do cardápio de Alê. Do ‘x-bagunça’, com tudo que um cliente faminto tem direito, ao ‘x-miséria’, que era apenas um pão com salsicha.

A Hot Dog Gato Frio ficou aberta até 1978. Atualmente dono da Máfia Pizzaria, Alê sempre teve um pé na cozinha e facilidade para lidar com o ramo da gastronomia. “Minha vó era italiana e ela faleceu quando eu tinha 6 anos de idade. Somos 10 irmãos e o único que ficava vendo  minha vó cozinhar era eu. Então eu tinha um dom desde criança pra mexer com comida. Até hoje, quando digo alguma coisa na cozinha, perguntam ‘como o senhor sabe que está bom?’, eu digo ‘só de olhar, só de sentir o cheiro’”.

 Zé Bolo Flô, um cliente fiel
 
Um dos clientes mais assíduos do Hot Dog Gato Frio, de acordo com Alê Arfux, foi a emblemática figura do Zé Bolo Flô, o poeta-andarilho. Conforme ele lembra, Zé Bolo Flô batia ponto lá, sempre pedindo por um x-bagunça e uma fanta.

“Um dia, um funcionário meu, o finado Cícero, foi brincar com ele, e ele deu uma paulada na costa do Cícero. Então todo mundo tinha medo dele. Quando ele chegava, já corríamos e dizíamos ‘olha o Zé Bolo Flô! Vem logo com o lanche e com a Fanta!”, fala sobre a imaginação febril do homem.

Em outra ocasião, Zé Bolo Flô sumiu do point por uma semana. Preocupados se havia acontecido algum com ele, os funcionários se acalmaram quando ele voltou no oitavo dia. “Enquanto faziam o x-bagunça dele e a traziam a Fanta, fomos atender um carro. Quando voltei, ele pediu outro x-bagunça e Fanta. Então questionamos, falamos que ele já havia comido. E ele disse ‘cala boca! Tem uma semana que não venho aqui, ainda tenho seis em a ver!’”, ri enquanto conta do cliente fiel, mas que não pagava.
 
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