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Terça-feira, 07 de dezembro de 2021

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crônica

'Uma sombra incendiária e seu belo balé', por Maria Eduarda Dias Cardoso

Maria Eduarda Dias Cardoso

01 Jun 2019 - 09:00

Foto: Reprodução

'Uma sombra incendiária e seu belo balé', por Maria Eduarda Dias Cardoso
Marinaldo Custódio descobriu Maria Eduarda, de apenas 18 anos, durante uma oficina de escrita literária no colégio Maxi, no início do mês de maio. Agora, faz questão de apresentá-la aos leitores. Marinaldo é autor dos livros 'Viagens Inventadas' e 'Vestida de Preto e Outras Crônicas', ambos publicados pela editora Entrelinhas.

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Leia a crônica:

Uma sombra incendiária e seu belo balé

Maria Eduarda Dias Cardoso

Pesquisando sobre a atual situação da Venezuela, encontrei uma foto datada de 2017, uma foto que nunca vou esquecer, vermelha de fogo e sangue. O retrato, sempre estático e calado, trazia mudo alguém, de rosto coberto por máscara antigás e o corpo coberto de fogo, lutando pelo direito à voz, ao não e a tantas outras coisas que eu não poderia enumerar. Lutando... basta saber que esse alguém simplesmente lutava, armado apenas com o fogo que o consumia e, talvez, algumas pedras que catou. Essa mudez, eternizada em imagem, grita tudo que não foi permitido às pessoas gritarem, berra a melodia da oposição, ensurdece aqueles que não a queriam ouvir. Essa mudez é a voz do povo, é tudo que lhe resta e tudo que lhe falta.

Era apenas um jovem rapaz, que naquele eterno efêmero momento parecia incorporar o fogo a si, como se fosse ele Prometeu. Realmente, ele era um Prometeu, a personificação de um coquetel molotov em mãos revolucionárias, usava uma máscara preta e camisa branca, mas era o fogo que o vestia e emanava de sua mão direita erguida e de seu peito, revelando o intuito de presentear seu país com, pelo menos, uma faísca. Não se esqueça, porém, de como Zeus temeu que os mortais ficassem tão fortes quanto os deuses após receberem as chamas do bravo titã e, apesar de condenar o presenteador a ter o fígado devorado por uma águia eternamente, a humanidade dominou o fogo e venceu, reduziu os tiranos do Olimpo a um mero mito curioso e realizou o pesadelo daquele que se achava o Deus dos deuses. Zeus teve razão em temer, pois assim é que se finda toda tirania, basta uma faísca e a vitória do povo é garantida, mesmo que tardia, pois contra esse é vã qualquer repressão.

O fogo ateado àquele rapaz, de nome e paradeiro desconhecidos, por meio da explosão proposital de um tanque de gás, era impotente se comparado ao que queimava sua alma, era fogo contra fogo. O ardor de convicções, o ardor por liberdade e o ardor que o fez manifestar consomem com imensurável força o poder dos injustos, reduz a pó. Tamanha essa força que dor nem queimadura alguma a intimida, mas a fortalece. Pior mesmo é admitir o quão bela é a foto, tão insensivelmente belo o balé do fogo paralisado envolvendo seu corpo que quase não se pode notar o horror capturado em pixels. Junto à imagem, estava vinculada uma notícia explicando que se tratava de um protesto contra a convocação de uma assembleia constituinte pelo “presidente” Maduro. Explicando, também, que já tinham morrido 32 pessoas durante apenas um mês de manifestações, número que com certeza cresceu muito de lá para cá. Bem mais que 32 mártires e incontáveis Prometeus, todos com desfechos que continuarão a se repetir até que vençam. Todos fadados à águia hepatofágica ou à morte, mas condenados a lutar e a vencer.

Por enquanto, a sombra incendiária de todos eles ainda paira pelas ruas, becos e estradas da Venezuela, ainda entoa gritos, ainda combate armas, fogo, gases e veículos blindados com pedras, vozes e cartazes, ainda luta na memória nacional e guerreia desarmada na linha de frente. Ainda vive e, como tudo que vive, queima.
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