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"Fala-se muito mal na TV", diz Lima Duarte sobre atores da atualidade

Terra

14 Ago 2013 - 16:00

A noite era para celebrar os 30 anos do lançamento de Sargento Getúlio. Mas, no bem humorado debate que precedeu a entrega da honraria, na terça-feira (13), no Festival de Gramado, o protagonista do longa, Lima Duarte, e o diretor Hermano Penna também aproveitaram para criticar alguns dos pontos negativos da dramaturgia brasileira e da atual situação do cinema no País.

Duarte recordava com alegria da época em que dublava as vozes dos protagonistas das animações Wally Gator e Manda-Chuva - além do cachorro Dum Dum da Tartaruga Touché, seu favorito -, quando enfatizou a importância da voz para a carreira de um bom ator, criticando: "hoje se fala muito mal na televisão".

"Esse naturalismo de consumo é uma coisa muito irritante. Precisa aprender a falar, a empostar a voz", disse em meio a imitações hilárias dos personagens com os quais tanto se divertiu emprestando a voz décadas atrás. "Existem atores, como a Fernanda Montenegro... Que voz poderosa! Quantos sentimentos ela passa com a voz. É um elemento fundamental ao qual atores têm tergiversado. É necessário aprender a falar. Ou reaprender".

Já Penna, indagado sobre as lembranças de filmar Sargento Getúlio, lembrou das dificuldades de fazer o longa. Rodado no sertão sergipano com baixíssimo orçamento, a produção tinha uma equipe total - "contando diretor, eletricista, técnico de som..." - de apenas dez pessoas, número irrisório mesmo para filmes B atuais, além de condições amadoras para suporte dos poucos funcionários.

Mas a parte ruim viria depois, quando, com o filme em mãos, Penna viu a Embrafilme (antiga empresa estatal de produção e distribuição cinematográfica) recusar seu lançamento. "O Sargento foi feito em 1978 e passou cinco anos nas prateleiras deles. Até que o (diretor) Luiz Carlos Barreto ficou encantadíssimo com o filme, espremeu a Embrafilme e eles tomaram a consciência de exibi-lo".

Resolvida em oito meses após o seu lançamento - período no qual as bilheterias conseguiram pagar todos os custos do trabalho, entre produção, financiamento e comercialização -, a dor de cabeça ocorrida ao longo de meia década fez Penna citar o problema de uma avaliação precipitada de um filme - e a enfatizar o peso da crítica especializada em ajudá-lo a se tornar um sucesso ou um enorme fracasso.

"É preciso muito cuidado com o primeiro olhar sobre o filme. Existe uma responsabilidade profunda da crítica com o filme nacional, porque muitas vezes aquilo é a vida de pessoas", apontou. "É necessário estar despido de preconceitos, ir ver o filme e tentar absorvê-lo de forma isenta".

O tom de seriedade, raro em grande parte da coletiva de imprensa, se manteve ao comentar o espaço cada vez menor dado a produções nacionais nos cinemas do País. Para Penna, a escassez de filmes brasileiros se deve à ocupação da grade das salas por longas de arte, "quase sempre com alguma ligação com a França", e, claro, à dominação quase total do restante pelo mercado norte-americano.

"Nós estamos absolutamente sem salas para exibir nossos filmes. Será que ninguém vê isso? É uma loucura o que acontece no cinema independente brasileiro. Hoje eu tenho um filme pronto e o distribuidor me diz, 'quando tiver dinheiro, volta'. É inexplicável", desabafou.

Naturalmente, o foco do encontro foi Sargento Getúlio, consagrado em Gramado com cinco Kikitos em 1983 e homenageado em meio às exibições da quinta noite do festival. E Lima Duarte mostrou que, mesmo passadas três décadas de lançamento da produção, ainda a vê com a empolgação de um jovem com poucos títulos no currículo.

"Lembro que li o roteiro e achei uma coisa fantástica", disse, citando algumas frases marcantes do longa, responsável por premiá-lo como Melhor Ator em Gramado na ocasião. Naquele distante ano de 1978, Duarte, em fase de incrível alta na carreira, abriu mão de papéis bem mais lucrativos para se juntar ao então desconhecido Penna em uma empreitada que, como se provou com tantos problemas posteriores, era arriscada.

"Essa fera (o protagonista) me apaixonou de cara e, quando me deram aquilo, achei maravilhoso. Não tinha hotel, água, ficamos meses lá sob o sol do Sertão. O único combustível que tivemos foi a paixão. Mas ganhei demais com isso. Sou muito feliz por ter feito o Sargento e espero que ele esteja à altura de seu criador", disse.

Baseado no romance homônimo de João Ubaldo Ribeiro, publicado originalmente em 1971, o longa conta a história de um sargento do sertão sergipano que recebe a missão de prender um importante adversário antes de se aposentar. O filme se passa no período conhecido como Estado Novo, entre 1937 e 1945, quando o Brasil era governado por Getúlio Vargas.

"Sempre que volto a Sergipe vejo que é impressionante como João Ubaldo narrou fatos históricos, recriados por sua imaginação fértil. É um filme que reflete exatamente os conflitos do País, que só encontraram certo equilíbrio com Juscelino", apontou Penna.

"O Sargento é o homem do povo utilizado como braço armado de uma estrutura que ele não entende. É uma figura épica, trágica, que se rebela contra a ordem e abraça sua individualidade. É essa grandeza que dá a ele a eternidade".
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