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LUTA ANTIMANICOMIAL

Abandonados pela família, egressos dos hospitais psiquiátricos recuperam dignidade em residências terapêuticas

Da Redação - Isabela Mercuri

21 Set 2019 - 09:00

Foto: Olhar Conceito

Abandonados pela família, egressos dos hospitais psiquiátricos recuperam dignidade em residências terapêuticas
Mesa posta. Comida feita. Nas cadeiras, sentados, carregavam o peso de uma vida amarga nas costas, muitas vezes sem nem se dar conta. O medo era tanto, que não dava tempo de esperar a mastigação – e se alguém conseguisse entrar pelos buracos do rosto para roubar o almoço? Não reconheciam os objetos metálicos colocados ao lado dos pratos. A mão era a ferramenta mais eficaz para satisfazer a fome, mero instinto animal. Era assim que viviam os pacientes nos manicômios. E era o que via a cuidadora Alessandra Fátima, quando começou a trabalhar nas Residências Terapêuticas em Cuiabá – local para onde portadores de transtornos mentais sem apoio familiar foram levados quando iniciou-se a reforma da psiquiatria – há 14 anos. Hoje, a realidade é outra. Ainda medicados, mas vivendo livremente em comunidade, eles já se alimentam sozinhos, passeiam e até arriscam idas ao mercado e à lotérica. A realidade melhorou, mas não é o ideal.

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“Se eles estivessem no meio familiar, estariam muito mais felizes do que aqui”, é o que constata Roseli Batista Costa, 40, coordenadora de saúde mental de Cuiabá. Hoje, cerca de 50 pessoas vivem em seis residências terapêuticas no município, resultado de uma longa luta anti-manicomial, que começou na década de 70, pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia. A capital ainda é a única cidade do estado de Mato Grosso que conta com estas casas. Junto a esta política pública, estão os Centros Integrados de Assistência Psicossocial (CAPS), e, ainda, o antigo Hospital Adauto Botelho, hoje chamado ‘Centro Integrado de Assistência Psicossocial’ (CIASP) para novas internações de até seis meses, e onde vivem alguns pacientes que ainda não conseguiram ser transferidos.

Roseli, coordenadora de saúde mental de Cuiabá (Foto: Olhar Conceito)

A reforma da psiquiatria começou com a publicação do livro ‘A Instituição Negada’, de Franco Basaglia, em 1968. Na obra, ele expôs parte de suas práticas realizadas no Hospital Psiquiátrico de Gorizia, onde testemunhou uma série de abusos e negligências no tratamento dos enfermos. Sua revolta logo se espalhou por outros países do mundo. No Brasil, movimentos ligados à saúde iniciaram as denúncias na década de 70, principalmente por meio do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM). A iniciativa de reformar o sistema psiquiátrico brasileiro nasceu em um encontro, em 1987, mas só em 2001 foi, enfim, promulgada a lei ‘Paulo Delgado’, que garante aos portadores de transtornos mentais o direito de receber tratamentos menos invasivos, que priorizem a reinserção na família, trabalho e comunidade.

Há quinze anos, aconteceu, então, o fechamento da ala neuropsiquiátrica do Hospital Adauto Botelho, em Cuiabá. Alguns pacientes voltaram para suas famílias, mas muitos estavam abandonados. E foi pensando nelas que o governo federal determinou a criação de Residências Terapêuticas.  “Para acomodar pessoas com transtorno mental que tenham vindo de longas internações de hospitais psiquiátricos, que não tenham familiares, ou que vivam em estado de vulnerabilidade. Estes são os três requisitos para que sejam abrigados”, explica Roseli.

Uma das residências terapêuticas de Cuiabá (Foto: Olhar Conceito)

Para incentivar a volta ao seio familiar, foi criado também o ‘Programa de Volta para Casa’ (PVD). O governo passou a pagar um benefício de R$ 420 para cada paciente. “Seria para ele estar no seio familiar, para a família ter uma renda para poder cuidar dele. Mas tem muitos que não querem, e mesmo tendo essa renda, eles continuam aqui”, explica Roseli. A transição dos manicômios para as casas é feita aos poucos, e até hoje ainda existem pacientes que não conseguiram sair da internação do CIASP.

A principal diferença entre os hospitais e as residências é que, nas casas, os pacientes vivem livres, enquanto nos manicômios, eram trancafiados. Em cada casa moram no máximo 10 pacientes, que são acompanhados por duas cuidadoras e uma auxiliar de enfermagem. Ali eles assistem televisão, ajudam nos serviços domésticos caso sintam vontade, podem sair para ir ao mercado ou a outros lugares perto (dependendo da severidade da deficiência, e sempre acompanhados de uma cuidadora), trabalham na horta, no jardim, e vivem em harmonia uns com os outros. Além disso, saem pelo menos uma vez na semana para fazer terapias ocupacionais nos CAPS, e para as consultas.

Alessandra, hoje aos 46, acompanhou a evolução dos moradores. “Hoje são outras pessoas. Sentam-se na mesa, usam os copos, os talheres... têm alguns que comem de garfo, outros com colher. Hoje eles descascam uma fruta se quiserem, dormem com o chinelo no chão mesmo, ao lado da cama [antes escondiam no colchão com medo que alguém pegasse]. Tem outros que vieram há pouco tempo, e alguns ainda em fase de adaptação, que não interagiam, mas vão aprendendo. Hoje algumas até mexem com a cozinha, lavam a louça, secam, ajudam a lavar as roupas... quando chegaram, não faziam nada disso”, conta.

As cuidadoras são contratadas pela Prefeitura, e fazem regime de 12 horas de trabalho por 36 de folga. Em cada turno há sempre duas para tomar conta de todos os pacientes, além de fazer trabalhos domésticos como lavar, passar e cozinhar. Também fica na casa uma auxiliar de enfermagem. “Existe uma equipe que coordena todas as residências terapêuticas, [formada por] uma gerência, uma assistente social, uma enfermeira e a nossa coordenação”, conta Roseli. Esta equipe faz visitas periódicas a cada uma das seis casas.

As cuidadoras Alessandra (esq.) e Eva (dir.); (Foto: Olhar Conceito)

As residências são mantidas somente com recursos do município, e o benefício que cada morador recebe, de R$ 420, é usado por eles mesmos para comprar o que quiserem. Logo que as casas foram instaladas, eram realizados passeios regulares por pontos turísticos da cidade, o que diminuiu após o aumento do número de moradores. Alguns deles, por terem sido abandonados, não têm documentação, o que inviabiliza o recebimento do benefício – e o pagamento destas atividades de lazer.

Muitos não sabem nem mesmo quantos anos têm, mas a coordenação mantém o trabalho diário de tentar encontrar os familiares de cada um. “Eles têm lapsos em que comentam, lembram da família. E a coordenação tenta encontrá-las. Muitos já foram embora, a família já levou. Já foram para Rondônia, Campo Grande... as famílias encontraram e vieram buscar”, lembra Alessandra. A realidade, todavia, não é a mesma para todos. “Já têm alguns que têm visita da família... porque os familiares moram aqui, mas não querem levá-los. E eles ficam muito contentes, comentam, perguntam...”.

Enquanto uns saem, outros ainda chegam. “Estamos com uma paciente aqui que está sendo inserida na casa agora, que é do Adauto. Ela passou mais de 25 anos hospitalizada, e estamos tentando a sua adaptação. Ela vem na casa, passa o dia, volta para o Adauto para dormir, e no outro dia volta de novo, até a gente ver se realmente ela está adaptada a ficar”, conta Roseli. “Ela ainda tem dificuldade de convivência com os outros. A gente já tentou que ela dormisse, mas ficou agressiva com o cuidador e outros moradores”, lembra.



Apesar da possibilidade de surtos – na casa visitada pelo Olhar Conceito, a maioria dos pacientes sofre de esquizofrenia paranoide – eles não são frequentes e, graças às terapias e aos medicamentos, os moradores vivem em paz. É esta a realidade que a coordenação tenta passar aos familiares que não querem manter o contato: a de que os deficientes intelectuais não são um problema e, com o tratamento correto, vivem perfeitamente em sociedade.

Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência 

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado neste sábado, dia 21 de setembro, no Brasil. A data foi criada oficialmente a partir do decreto de lei nº 11.133, de 14 de julho de 2005, mas já era comemorada antes, desde 1982. A criação foi resultado do trabalho do ‘Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes – MDPD’. A intenção é conscientizar sobre a importância do desenvolvimento de meios de inclusão das pessoas com deficiência na sociedade.

Serviço

Quem quiser conhecer uma Residência Terapêutica ou oferecer algum tipo de trabalho voluntário, deve entrar em contato com a Secretaria de Saúde pelos telefones: (65) 3617-1409 / 7356

*Com informações do 'Politize!' 
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