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Professor da Escócia organiza evento sobre o mercado de trabalho para os imigrantes

Da Redação - Isabela Mercuri

04 Out 2019 - 14:10

Foto: Isa(bela Mercuri / Olhar Conceito

Da esquerda para a direita: Israel (Benin), Malaquias (Guiné-Bissau), Rossbeli (Venezuela) e Francis (brasileiro, professor na Escócia)

Da esquerda para a direita: Israel (Benin), Malaquias (Guiné-Bissau), Rossbeli (Venezuela) e Francis (brasileiro, professor na Escócia)

Um evento para discutir o mercado de trabalho para os imigrantes, com foco na região amazônica, acontece neste sábado (5) na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. Realizado pelo professor de relações de trabalho da Universidade de Strathclyde, da Escócia, o evento pretende reunir imigrantes de diversos países, que falarão sobre seis anseios e queixas acerca da exploração no mercado de trabalho, vulnerabilidade e violação de direitos, que surgem em diferentes estágios da própria experiência migratória.

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Francis é brasileiro, mas mora na Escócia desde 2014, quando foi como aluno de doutorado. Atualmente, é professor da universidade, e coordena este projeto sobre os trabalhadores imigrantes no Brasil. Em um primeiro momento, o projeto realizou coleta de dados, entrevistas e discussões coletivas com grupos menores sobre o tema. Agora, o foco é a participação dos imigrantes diretamente.

“Chegou um estágio em que a gente está organizando vários workshops em diferentes regiões do país. Cuiabá vai representar o workshop da região amazônica, e ao mesmo tempo em que a gente está organizando um segundo workshop, na próxima semana, na cidade de Maringá”, contou Francis ao Olhar Conceito. “Como a gente quer entender vários aspectos da experiência dos imigrantes no mercado de trabalho, e essas jornadas migratórias e relações, isso é importante, até porque as pessoas que estão em Maringá são pessoas que passaram por essas regiões, que tiveram entradas por Manaus, pelo Acre, e acaba sendo o destino para muitos imigrantes”.

Nestes workshops, os imigrantes vão apresentar aos pesquisadores pontos essenciais e apontar a direção das ações que a universidade e outros parceiros podem fazer para apoiar e buscar resolver os problemas migratórios ou, ao menos, tentar contribuir para uma melhora.

Na última quarta-feira (2), alguns integrantes da comunidade de imigrantes de Cuiabá estiveram no programa ‘Noches Calientes’, comandado pela venezuelana Rossbeli, junto a Francis, para falar sobre o evento. Um deles foi o beninense Israel Silvano Russo, 26, que veio para o Brasil por meio de um programa de intercâmbio universitário. Atualmente, ele faz mestrado em educação na UFMT, e conta que ficou surpreso com a falta de conhecimento dos brasileiros sobre os estrangeiros.

“Falar sobre si nunca é falar de mais. Mas o que nós pretendemos fazer neste tipo de evento é se conhecer uns aos outros, como imigrantes ou estudantes estrangeiros, e falar mais sobre a gente para que haja mais respeito. Porque estamos no Brasil, e o povo brasileiro não conhece muito sobre a gente. Por isso ainda tem esses preconceitos... quando uma pessoa chega e já te chama de haitiano, e você não é, você já vê que tem um problema ali. Eles não conhecem. Tem gente que pensa que a África é um país, que o Haiti e a Jamaica estão na África, e que todo preto é africano, haitiano... tem várias coisas que a gente tem que esclarecer para as pessoas”, afirma.

Além da falta de conhecimento, ele conta que também percebe um racismo intrínseco na cidade de Cuiabá. “Se você sai para alguns locais em Cuiabá, como shopping, barzinho, só vê gente branca. Parece que ainda estamos no apartheid. Eu não sei porque acontece isso”, disse. “Eu ando estudando sobre eugenia, e a gente pensa que esse processo acabou, mas não. A gente ainda vive esses momentos. E a única coisa que podemos fazer é sensibilizar mais as pessoas, e não falar somente, mas cientificamente, pela universidade, e adotar políticas para que esse tipo de pensamento construído mude”.

O guineense Malaquias Augusto Lopes, que se formou em filosofia na UFMT e atualmente faz mestrado na mesma área, concorda. Segundo ele, dentre as queixas dos imigrantes em Cuiabá, a principal é o racismo. “Primeiramente a pessoa te vê e só pela sua cor de pele, já te descrimina. Segundo, se essa pessoa tiver o conhecimento de que você veio da África, fica ainda mais complicado. As pessoas vão procurar emprego, e perguntam de onde ela é. Dependendo do lugar, você não tem a mínima chance de conseguir”, lamenta.

A discriminação também atinge a venezuelana Indira Vilaruel, 33, musicista que morou por 5 anos em São Paulo antes de vir para Cuiabá, há dois anos e meio. “Em uma das orquestras que eu trabalhava em São Paulo, uma colega falou para mim que a gente estava pegando o trabalho deles. E eu falei... como assim? No meu país tem brasileiros, peruanos, italianos, muitas pessoas trabalhando, e a gente nunca fez isso... e outra, se eu estou fazendo o seu trabalho é porque sou apta a fazer, porque pode ter outra pessoa que não deu conta”, lembra.

Indira (Foto: Isabela Mercuri / Olhar Conceito)

Atualmente, ela é professora do Instituto Ciranda Música e Cidadania, e dá aulas no interior de Mato Grosso, onde, segundo a musicista, muitos brasileiros não têm disposição para ir. Este foi o primeiro emprego que ela conseguiu com registro formal. “Quando eu cheguei em Cuiabá, em 2017, não tinham tantos venezuelanos. No final de 2017, início de 2018, aconteceu o ‘boom’ da chegada, principalmente pela reorganização no país inteiro”, lembra. “Tem dois lados. Tem as pessoas que conseguem fazer a documentação e conseguem emprego, mas têm outras que não tem a mesma sorte, seja porque têm documentos, mas quando vão procurar trabalho recebem um ‘não’, principalmente pela língua, ou aqueles que estão sempre fazendo só diárias”.

Serviço

Trabalho Migrante – Festival de Trabalhos e idéias
Data: Sábado, 5 de outubro
Horário: das 9h às 19h30
Local: Adufmat – UFMT
Veja a programação na galeria
O evento terá participação da estrela de alô migrantes

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