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“O que resta para elas é vender o corpo”, diz travesti sobre a inserção da comunidade no mercado de trabalho

Da Redação - José Lucas Salvani

27 Out 2019 - 14:54

Foto: José Lucas Salvani/Olhar Direto

“O que resta para elas é vender o corpo”, diz travesti sobre a inserção da comunidade no mercado de trabalho
Ariane Cury, rainha da Parada da Diversidade de 2018, aponta que as mulheres trans e travestis sofrem dificuldades para entrar no mercado de trabalho e, muitas vezes, a prostituição é a única opção viável. Garota de programa, ela mesma optou seguir por este caminho há mais de 10 anos e agora se sente independente como nunca.

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“A maioria das trans já sofrem bullying nas escolas, dentro de casa. [É] muito cedo, no início de descoberta. Isso faz com que ela às vezes sejam agredidas dentro de casa e expulsas. Às vezes elas saem sem dinheiro e sem ter para onde ir. O que resta para elas é vender o corpo. Quando acontece esse tipo de coisa, a gente também procura o mercado de trabalho”, explica Cury.

A busca pela independência parte também pelo desconforto em frequentar os locais de trabalho e espaços públicos. Os olhares tortos e os julgamentos contribuem em determinar para que elas busquem por algo que não proporcione esses preconceitos. A própria Ariane seguiu para a prostituição por estar cansada dos julgamentos.

“Na prostituição eu não encontrei um conforto, eu encontrei a minha independência. Eu percebi que eu não precisava daquelas pessoas me olhando, me apontando o dedo e dizendo o que eu devia ou não fazer. Eu me sento totalmente independente e ganhando um dinheiro mais do que ganhava quando eu trabalhava [na escola]”.

“Eu acho que ser travesti é isso, é você ser independente”, pontua Ariane, que é acreana e veio para a capital mato-grossense em 2008, ano em que começou a se descobrir como travesti. Ela era professora de educação física na rede estadual do Acre e cuidou de fanfarras de diversas escolas do estado.

Ariane conta ao Olhar Conceito que atuou nas principais escolas estaduais no Rio Branco, mas em 2008 foi para uma unidade educacional no interior. Nesta escola em questão, a diretora tentava de todas as formas sabotá-la. Em uma competição estadual de fanfarra, inclusive, a gestora chegou a dizer que estava torcendo para uma escola concorrente, justamente por ser Ariane, que ainda se identificava como gay, quem cuidava da banda de sua escola.

Contrariando a vontade da diretora, a fanfarra cuidada por Ariane venceu o estadual, foi para a próxima etapa, em Sorocaba (São Paulo), e venceu o primeiro lugar. Mesmo com a vitória, toda a situação foi a gota d’água. Desta forma, ela decidiu ir embora e tentar um novo emprego. “O que me expulsou desse mundo de trabalhar foi o bullying que eu sofria. Eu sofria muito bullying por ser gay e afeminada, pelo meu jeito de vestir e minha aparência. Eu larguei mão disso”, explica.

Chegou em Cuiabá naquele mesmo ano, e não demorou muito para começar a trabalhar como garota de programa e, ainda com algumas dificuldades, nunca pensou em tentar outra coisa. Por volta de 20 dias, entretanto, mudou-se para Curitiba (Paraná), onde permaneceu por cerca de dois anos e meio. Após esse período, ela voltou para a capital mato-grossense e, como ela mesmo diz, tornou-se sua casa.

“Eu nunca tive interesse em procurar o mercado de trabalho. Eu nasci para ser patroa, não empregada. Eu não consigo me imaginar trabalhando em uma loja, em um salão de beleza. Não nesse exato momento. Não que futuramente eu venha precisar, porque se tiver eu vou e não tenho problemas. Só que nesse momento eu não me vejo trabalhando para ninguém”, pontua.

Parada da Diversidade 2019

Na edição deste ano, a Parada da Diversidade Sexual de Cuiabá 2019 será realizada no dia 16 de novembro e terá uma feira para trabalhadores LGBTI+. O evento terá como tema “Somos muitos, mas podemos estar em qualquer profissão” e visa trazer debates sobre a inserção da comunidade no mercado de trabalho e desmistificar alguns estereótipos profissionais. A expectativa é de 25 mil pessoas nesta edição.

Entre os debates acerca do mercado de trabalho, um deles será sobre a Previdência Social. O presidente do conselho explica que muitos não conseguem se aposentar por diversos fatores, como não conseguir uma carteira de trabalho assinada. O atual governo, de acordo com ele, também não contribui porque está desfazendo tudo o que foi conquistado pela comunidade nos governos anteriores.

“O que nós buscamos nessa parada? Nós buscamos o espaço no mercado de trabalho como qualquer cidadão. Aos olhos de Deus nós somos iguais a todo mundo. Buscamos esse lugar e buscamos também a Previdência Social. Queremos aposentar. Eu conheço LGBTs idosos que não conseguiram se aposentar”, aponta Valdomiro Arruda, presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual (CMAS).

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