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Terça-feira, 20 de outubro de 2020

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'Meu salário dava para comprar um frango', diz educadora venezuelana que passará primeiro Natal longe da família

da Redação - Isabela Mercuri

24 Dez 2019 - 09:15

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Mauri Dias veio com a irmã para Cuiabá

Mauri Dias veio com a irmã para Cuiabá

A noite de 24 de dezembro não será uma ‘noite feliz’ para a venezuelana Mauri Dias, 33. Não haverá jaca, nem outros pratos típicos de sua terra, muito menos a companhia dos familiares. No entanto, será de esperança: mesmo sentimento que a fez, junto com a irmã, vir embora da Venezuela para Cuiabá, onde as duas passarão as festas de final de ano. Ambas são educadoras, e decidiram pela partida quando o salário de todo o mês passou a ser suficiente só para comprar um frango.

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Mauri foi professora de educação infantil por doze anos. Há cinco, as coisas começaram a ficar difíceis. Há quatro, tornaram-se horríveis. “Não há gasolina, não há gás, as pessoas tem que cozinhar com lenha para fazer seus alimentos. Tem-se que caminhar muito, porque não há gasolina, os carros estão parados. E, se fazem cotas para comprar o combustível, podem ficar três dias na fila para conseguir”, lembra.

Ela e a irmã decidiram vir para Cuiabá quando outra venezuelana lhes disse que aqui era mais fácil de conseguir trabalho. Deixaram para trás a mãe, diabética, o pai, que sofreu um AVC há dois anos, uma filha de sua irmã, de dez anos, e um filho, de nove.

“Venho para cá com um sonho, de que possa trabalhar e trazer a minha família, para que possam ter uma vinha de qualidade, uma vida digna”, afirma. Segundo Mauri, o pai e a mãe não tomam remédios há alguns anos, pois o salário das filhas não era suficiente para comprá-los, e o governo também não fornecia.

Quando chegaram a Mato Grosso, no entanto, a realidade não foi tão fácil. A amiga venezuelana disse que não poderia lhes ajudar, e as irmãs acabaram na Casa Pastoral do Migrante. “É difícil, porque você sai da comodidade da sua casa e viver assim, não é fácil”, lamenta. Agora, elas procuram trabalho com qualquer coisa. “Aqui não posso exigir com o que vou trabalhar. E o quanto antes melhor, para que eu possa ajudar meus pais para que eles possam comer lá na Venezuela. E logo começar a juntar dinheiro para trazê-los para cá e dar-lhes comodidade, para que não passem por isso que estou vivendo”.

Enquanto isso não acontece, no entanto, as irmãs passarão as festas de final de ano sozinhas, e sem perspectivas de rever os familiares. A realidade é a mesma de Jean Luis Campos de 19 anos, que vive no Brasil há seis meses.

Jean Luis Campos (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

Ele chegou por Manaus, após recomendação de uma tia, mas não conseguiu nenhum emprego na cidade por causa da língua. Para sobreviver, fazia diárias em uma oficina mecânica, onde lhe pagavam de R$5 a R$10 para ser ajudante. Com a intenção de melhorar de vida, veio embora para Cuiabá.

Sua família está espalhada pelo mundo. O pai é falecido, o irmão mora no Peru, a irmã na Colômbia, com o marido, e a tia ficou em Manaus, mas deve vir para Mato Grosso em janeiro. Somente a mãe continua na Venezuela, realidade que Jean sonha em modificar, trazendo-a para o Brasil.

Após cerca de quatro semanas em Cuiabá, ele conseguiu um emprego de entregador. Vivendo na Casa Pastoral do Migrante, também já se conformou de passar as festas sozinho pela primeira vez, com o sonho de, em breve, comemorar ao lado da família.

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