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Terça-feira, 20 de outubro de 2020

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Há seis anos, mineira passa aniversário e véspera de Natal levando ceia para famílias carentes de Cuiabá

da Redação - Isabela Mercuri

24 Dez 2019 - 14:21

Foto: Arquivo Pessoal

Christiane (esq.) fazendo o trabalho voluntáro

Christiane (esq.) fazendo o trabalho voluntáro

Quando entregou uma casa completa a uma moradora do Jardim Alá, em 2017, a mineira Christiane Rodrigues de Melo ouviu as crianças atônitas dizerem: “A gente vai dormir em uma cama?”. Aquele foi um dos momentos mais emocionantes de todo o tempo em que ela trabalha como voluntária nos projetos da Pastoral Social da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, e dos muitos outros em que realizou ações sociais por conta própria. Hoje, já são seis anos que ela – que comemora aniversário no dia 24 de dezembro – passa a véspera de Natal entregando uma ceia completa, junto a roupas, brinquedos e uma cesta básica, a famílias carentes de Cuiabá.

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A solidariedade de sua parte começou bem cedo, quando ela e o marido levavam comida ao Abrigo Bom Jesus, e passaram a ir com as filhas, ainda pequenas, passar o dia com os idosos, cortar-lhes os cabelos e fazer suas unhas. Quando moraram em Rondônia, participavam do projeto ‘campanha do quilo’, em que cada rua do bairro era dedicada a doar um tipo de alimento. No nascimento do Jardim Florianópolis, já em Cuiabá, os dois faziam sopão junto a colegas de trabalho e levavam para os novos moradores.

Christiane (Foto: Olhar Conceito)

A participação na campanha de Natal começou em 2014. O projeto já existia há dois anos e, convidados pelo padre, Christiane e o esposo decidiram integrá-lo. No ano seguinte, já se tornaram coordenadores de um dos grupos e, hoje, são coordenadores geral do financeiro.

A campanha funciona da seguinte forma: são dez grupos, cada um responsável por um bairro. Em meados de outubro, estes grupos vão até estes locais para realizar um cadastro. “A gente vai para falar do advento, do menino Jesus, do Deus que vai nascer dentro do nosso coração. E claro que, junto com essa visita pastoral, a gente começa a fazer uma ficha da família, com número da roupa, do sapato... [mas] a gente nem fala que está pedindo as doações e que elas serão contempladas, porque a gente espera e coloca na mão de Nossa Senhora do Bom Despacho que tudo vai se resolver”, conta Christiane.

Com as fichas em mãos, começa o árduo trabalho em busca de doações de alimentos, roupas, sapatos e brinquedos, durante pouco menos de três meses. Na madrugada de 23 para 24 de dezembro, cerca de 30 homens voluntários ficam da meia noite às 9 horas da manhã, em média, assando os frangos e preparando a farofa e o arroz à grega para a ceia, que será entregue à partir das 12 horas do dia 24 – depois da benção do padre. “A gente compra os sacos térmicos e vai ensacando e colocando nos isopor”, explica. “E o Padre Cleberson fala para a gente ser bem generoso. É colocado bastante mesmo”.

Como algumas famílias não são cadastradas – ou porque se negam, por serem evangélicas, muitas vezes, ou por não estarem no bairro no dia em que ele é feito – as equipes também levam um excedente para dar às crianças que ficam com vontade. Em 2019, além das 30 famílias de 10 bairros, também foram cadastradas 133 famílias do Aterro Sanitário, incluindo 10 famílias de haitianos.

Outras ações

O trabalho da Pastoral, no entanto, não se restringe ao Natal. No Dia das Crianças é feita uma grande festa e evangelização – em 2019 foram 650 pessoas presentes, na Escola Municipal do Barreiro Branco. Este também é um dia de evangelização. Outra ação é realizada em fevereiro, na volta às aulas, quando as mesmas crianças das famílias cadastradas para o Natal recebem do lápis à mochila.

O inesperado não passa despercebido pela equipe. E foi desta forma que Christiane se deparou com a família de Luzia, durante o projeto do Natal. “Eu cheguei numa casa e tinha uma moça, uma senhora com seis pães, seis filhos e nada mais. Meu marido comprou uma cesta [básica], depois nós compramos frango, carne, mas quando eu cheguei em casa, eu não concordei com aquela situação daquela senhora”, lembra. “Era uma casa de zinco, e toda aberta na cumieira, e caía toda a chuva lá dentro. Eles não tinham cama, tinham um fogareiro horrível, e eu fiquei olhando para aquelas coisas [e pensando] no tanto que Deus já me ajudou e me concedeu, fruto do nosso trabalho, mas primeiramente Deus. Eu não concordei e liguei para a minha filha, e falei: ‘olha, vamos fazer um barracão pra essa moça?’ E na segunda-feira estava lá depositado o dinheiro para começar esse barracão”.

Antes, durante e depois da reforma da casa de Dona Luzia (Foto: Arquivo Pessoal)

A primeira ajuda veio da filha, mas logo toda a Pastoral se envolveu naquele propósito. Os voluntários pediram doações a casas de material de construção e, naquele aniversário, Christiane pediu de presente artigos de decoração e de casa. Uma casa nova e totalmente equipada foi entregue à família alguns meses depois. E foi neste momento que as crianças disseram a frase que a voluntária guarda em sua memória: “Nós vamos dormir em uma cama?”.

Esta é só uma das muitas histórias que ela viveu nos últimos seis anos. Toda véspera de Natal, fica nas entregas do meio dia até por volta das 19 ou 20 horas, dependendo da chuva e da conversa, e ‘sai correndo’ para conseguir jantar com sua família. “E uma das coisas que eu acho mais sensacionais, que me emociona muito, é que quando eu sento com a minha família para cear e partilhar aquele momento do aniversário do menino Jesus, eu sei que uma média de 400 a 500 famílias também estão [fazendo o mesmo]”, comemora.

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