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Quarta-feira, 28 de outubro de 2020

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'Tem que escutar de mim, e não sobre mim', afirma sheik sobre intolerância religiosa

Da Redação - José Lucas Salvani

26 Jan 2020 - 08:20

Foto: Rogério Florentino/Olhar Direto

'Tem que escutar de mim, e não sobre mim', afirma sheik sobre intolerância religiosa
“Tem que escutar de mim, e não escutar sobre mim”. A fala é do sheik Abdussalam Almansori, muçulmano, sobre a intolerância que ele e outros religiosos sofrem algumas vezes. O sheik afirma que os mulçumanos não jogam a culpa nestas pessoas porque sabe que se trata, antes de tudo, de uma ignorância. Na última terça-feira (21), comemorou-se o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, assegurado desde dezembro de 2007. 

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“Não jogamos a culpa em todos os brasileiros e cristãos. Nós achamos que todo o preconceito que acontece contra nós e outras religiões é por causa da ignorância. Tem pessoas ignorantes. Eles não perguntam, não procuram conhecimento ou correm atrás da informação certa. (...) Tem que escutar de mim, e não escutar sobre mim. Escute a minha opinião, meu pensamento, minha doutrina, crença e fé”, pede.

Ele relembra o caso de uma irmã, que vestia um hijab, junto de seu neto, na época das eleições de 2018, em outubro. Ela foi vítima de ameaças em um mercado em Cuiabá. Mesmo sendo nascidos e criados no Brasil, a xenofobia também contribui para a intolerância contra os muçulmanos explica o sheik.

Nos caso do candomblé, o babalorixá Paulo T’Osumare conta que por ser uma religião de matriz africana o preconceito surge a partir do racismo. “As religiões de matrizes africanas sempre tiveram uma pegada maior nesta situação, tanto pela religião, como também pelo povo negro. A primeira visão é essa, contra o negro, [é] a religião do negro, então nós temos essa dificuldade de aceitação pelo respeito”, explica ao Olhar Conceito.

Já Jatabairu Francisco Nunes é espírita kardecista, mas foi criado pela mãe que era médium de um terreiro de umbanda, quando ainda morava em São Paulo. A casa de sua mãe já foi até apedrejada algumas vezes.

Ele estudou primeiro o espiritismo científico por necessidade pessoal e posteriormente foi se aproximar do lado religioso. Jataboiru, inclusive, estudou outras religiões por curiosidade. “Minha mãe era médium de terreiro de umbanda, em São Paulo, mas quando vim para Mato Grosso eu era católico. Como a gente tem uma tradição espírita, eu procurei o espiritismo, fiz o estudo dentro o espiritismo científico para depois passar para o estudo do espiritismo religioso, dentro de Alan Kardec. A umbanda, por ser afro, é diferente do espiritismo do kardecismo”, explica.

Por ser espírita, ele já foi xingado por fiéis de outras religiões, mas já está acostumado, e afirma que muitos espíritas optam por não esclarecer sua religião ou dizer ser adepto a outra por medo do linchamento. “Temos um universo muito maior de espíritas que falam que são adeptos a outras religiões por medo do preconceito”.

Para o mestrando em Filosofia da Religião, Cristiano Batista, “as pessoas não buscam saber aquilo que elas não conhecem e desrespeitam, inclusive, sem conhecer. Eu acho que o problema principal está aí", pontua.

Outros caminhos

Cristiano hoje se reconhece como um ateu, mas passou por algumas religiões, como o espiritismo e budismo, e estudou bastante sobre algumas delas, tanto que conclui em fevereiro mestrado em Filosofia da Religião, na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e inicia em março um doutorado na mesma área. Sua família é católica praticante e tem até três padres, sendo dois primos e um tio que considera como um segundo pai. Os padres são justamente as pessoas com quem ele consegue ter um melhor diálogo sobre estas questões.

Apesar daqueles que não enxergam qualquer problema em ele ser ateu, há alguns familiares que repudiam a escolha de Cristiano. Muitos, inclusive, sequer sabem que ele é ateu e não há qualquer plano em contar porque são pessoas com quem ele não tem muita proximidade, como também não se sente obrigado.

“De fato, tem uma parcela da família que não vê com bons olhos. Não só na minha família. Por exemplo, na família da minha esposa, que também é uma família católica praticante, tem muita gente lá que eu sei que nem sabe que sou ateu e que tenho certeza que se souber vai, digamos assim, não vai ver com bons olhos. São pessoas que têm opiniões muito fortes, tanto na dela quanto na minha, com relação a pessoas que são ateístas. É como se fosse uma falha moral da pessoa”.

Fotógrafa, Vitória Molina é agnóstica, que não nega ou afirma a existência de deus, e passou a se identificar como tal quando passou a estudar um pouco sobre o assunto, por volta de 2016. Os seus primeiros questionamentos começaram na adolescência, quando estudava em uma escola adventista. Ao longo do tempo, passou a não gostar da ideia e se sentia forçada a seguir a religião. “Eu passei a enxergar outras formas de ver a religião e mundo, quando entrei na faculdade, há quatro anos. Eu não acredito ser atéia (...), mas sinto que há uma energia”.

Crime há 22 anos

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa é comemorado desde 2008. A criminalização por preconceito e discriminação é válida desde 1997, quando a Lei nº 9.459 alterou a Lei nº 7.716, de 1989, mas Jataboiru ainda acredita que é necessário ter uma educação nas escolas sobre as religiões, um ensino ecumênico. “Não adianta você criminalizar: o que falta é um conhecimento, cultuamento de aceitação de que todas as religiões são iguais. Não existe religião perfeita”.

“Não é questão de ter informação, mas um formação que te ajude e ensine as pessoas, o cidadão, a respeitarem as escolhas dos outros independente de quais elas são”, acredita Cristiano. “Não adianta ter a informação se eu não sou ensinado e não tenho uma educação moral e adequada para entender e respeitar as diferenças. Isso vale para a religião e para qualquer outra coisa, como orientação sexual, questões de gênero e raça”.

No islamismo, “você é livre sempre, pode seguir qualquer religião”, explica o sheik. O Islã enxerga com respeito as demais religiões. O sheik explica que o islã vê a intolerância religiosa como um pecado porque Alá, o deus dessa religião, é único, logo, ele é o responsável por todos os demais profetas, como também por todas as religiões. 

“Nós acreditamos que Ala [é um] Deus único. Ele que enviou Jesus, Moisés, Abraão, Noé, José e Muhammad. Ele é quem mandou todos os profetas para guiar o ser humano e orientar as pessoas para o caminho da felicidade nessa vida e na outra. Então, para nós, a nossa religião vem de Deus, então todas as religiões divinas tem uma mensagem que é a favor do ser humano. Não tem intolerância na nossa religião. É um pecado”, explica Abdussalam.

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