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Influenciada por Sandra de Sá, Seven Mônica vive na noite cantando MPB: “canto como se fosse a última vez”

Da Redação - José Lucas Salvani

02 Fev 2020 - 14:20

Foto: Olhar Direto

Influenciada por Sandra de Sá, Seven Mônica vive na noite cantando MPB: “canto como se fosse a última vez”
Com 32 anos, Seven Mônica é influenciada por Whitney Houston e Sandra de Sá, e vive nas noites cuiabanas cantando MPB. Ela afirma que canta com a alma, “como se fosse a última vez”. Transsexual, ela já sofreu em alguns momentos de sua vida. Na primeira vez, Mônica sequer se entendia muito bem e sabia quem era. Na segunda, sofreu justamente por ser quem é. Os eventos só a fortaleceram. 

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Foi aos 16 anos quando Mônica fez o seu primeiro show profissional. Na época, ela ainda se identificava como Leandro e recebeu, por meio de seu pai, uma proposta de cantar em um casamento de um vizinho da família, porém não sabia que seria paga por isso. Seu pai escondeu a verdade até que o casamento acabasse, para surpreendê-la pelo reconhecimento recebido. “Meu pai chegou com um envelopinho. Eu lembro como se fosse hoje”. Ela ganhou o equivalente a R$ 100 e desde então seguiu sua carreira artística.   

Ainda que o reconhecimento financeiro tenha se dado somente aos 16 anos, desde muito pequena, aos sete anos, ela já cantava em escolas, aniversários e, mais tarde, em uma igreja evangélica, onde fazia parte do Ministério de Louvor. O canto na igreja foi até por volta dos 18 anos, quando decidiu falar para seu pastor que estaria se afastando para seguir com sua carreira. Atualmente, ela não frequenta mais a igreja.

Aos 32 anos, Mônica tem como grande inspiração Whitney Houston, Mariah Carey, Ed Motta e Sandra de Sá, mas já passou por vários gêneros musicais. Tem como paixão a black music e soul, mas já cantou gospel e até sertanejo por influência do pai. Hoje ela segue mais firme com o MPB e interpreta muitas canções de Elis Regina. “Eu consigo sentir que não sou eu, mas minha alma cantando. Eu canto com a alma. Eu canto com todo o meu sentimento como se fosse a última vez da minha vida”.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Cantar Elis nunca foi um problema para ela porque ama, mas já se tornou uma validação sem a inteção para pessoas não transsexuais que esperavam receber uma mulher periférica, com músicas “vulgares”, mas receberam uma mulher “culta” por cantar o MPB. No dia, foi até elogiada, mas Mônica fez questão de explicar que só não estava cantando Pabllo Vittar porque não queria, não porque estava tentando se portar de uma forma que seria aceita pela sociedade.

Transformação

Mônica foi criada pelos avós, e somente com a aprovação de sua avó que ela começou o seu processo de transição porque tinha o desejo de usar determinadas roupas, mas receio quanto a transfobia. “Eu cantava em certos lugares, e ainda tinha vergonha de tirar uma calça e colocar um vestido. Porque eu me via como mulher, mas eu não tinha coragem ainda de me assumir como mulher na sociedade pelo fato de [poder] sofrer a transfobia, mas eu comecei a dar a cara a tapa”.

Sua avó, inicialmente, não gostou muito, mas não demorou muito para que ela desse uma bênção, mas alertou ficar preocupada com o preconceito que ela iria sofrer. Mônica foi logo nas primeiras lojas perto de casa e comprou todas as roupas que sempre quis vestir. “A cada coisa que eu me libertava no meu corpo, na estética, eu me sentia realizada. Exemplo: quando eu passei um batom pela primeira vez, eu me senti livre”, conta.

Abuso sexual, violência e preconceito

Ao longo de seus 32 anos, Mônica precisou ser forte. Ao nove anos, ela sofreu abuso sexual. “Tendo essa bagagem do medo do abuso que vem como há uns anos, logicamente não tenho mais esse medo de enfrentar as pessoas porque sou muito feliz. Eu tenho felicidades e acabou distribuindo felicidades para as pessoas que estão ao meu redor. De certa forma [fortaleceu]", conta.

O que aconteceu com Mônica marcou ao ponto dela passar a se questionar sempre, ao ver uma criança, se ela estava bem. Isso vai além do abuso sexual. Ela se questiona se está tudo certo com a criança, se não esta passando qualquer problema na escola, família ou sofrendo algum preconceito.

“Esse preconceito, esse pré-julgamento, ele sempre vai existir. Sempre, amor. Eu ficava muito triste, na época, porque principalmente aqui em Cuiabá as pessoas não conseguem evoluir. Eu não sei se elas não conseguem ou se não querem evoluir. Eu acho que é um pouco de cada e elas querem cuidar muito da vida dos outros e acaba esquecendo as delas. Esse processo de cuidar da vida dos outros, acaba sobrando para a gente, da família LGBTQI+”.

O ápice da transfobia contra Mônica foi por meio da agressão física. Foi no ano passado, em uma quinta-feira, quando estava tentando carreira no Rio de Janeiro, capital, que tudo aconteceu. Ela tinha terminado de cantar e foi esperar uma amiga entre o Posto 3 e Posto 4, na praia, onde tinha muitas pessoas, apesar de estar à noite. “Eu não estava sozinha”.

Em determinado momento, três rapazes, “bem magrelos”, ela descreve, começaram a mexer com ela. Um deles chegou e perguntou se ela estava sozinha. Quando virou para responder o tratamento deles passou a ser totalmente diferente por perceberem que ela era uma mulher transsexual. O rapaz que fez a pergunta começou a maltratá-la e insultá-la, como também jogou areia. Não demorou muito para que os três a agredissem.

“Eu ficava gritando e a Julieta [amiga] ouviu. Um senhor que estava atrás, chamou um guarda da rua, que veio para me salvar. O guarda conseguiu prender dois, mas outro saiu correndo, aquele que começou [tudo]. Foi isso que sofri no Rio de Janeiro”.

Sete dons

Para explicar o nome artístico de Mônica, é preciso retornar ao período em que ela ainda se identificava como Leandro. Nesta época, ela utilizava o nome artístico Leandro Magalhães. “Eu fiz uma doidura uma vez de gravar um CD, comprar as capinhas de acrícilo no camelô. Pedi para imprimir uma foto minha e colocar no CD. Eu fiz isso e tem gente que tem até hoje o meu CD. Eu fiz 100 cópias”, conta.

O nome, ao longo do tempo, porém passou a incomodá-la. “Muito grande”. Uma amiga sugeriu para que ela fosse até o monte, onde Deus iria dar um novo nome a ela de presente. Ela foi, mas no caminho encontrou uma mulher, que nunca havia a visto, e lhe disse “Deus mandou te dizer que Ele está te dando sete dons”. Mônica ficou o número sete martelando em sua cabeça até que decidiu: Leandro Seven seria nome artístico.

“Leandro Seven” é tão importante para ela que tem uma tatuagem escrito “L7”, próximo ao ombro esquerdo. Posteriormente, quando passou a se identificar como mulher, Mônica adotou apenas o Seven, mas uma amiga sugeriu que ela tive um nome próprio, além do artístico. Com isso em mente, quando acordou um dia, olhou para o espelho e disse “você tem cara de Mônica”. Hoje, Mônica tem como nome artístico, e de certidão, Seven Mônica.

O sonho de Mônica no meio artístico não é gravar um álbum, ter um grande show ou ser muito famosa, tanto que para ela está bom do jeito que está, com seus shows regulares na noitada cuiabana. Porém, confessa que gostaria muito ter uma música composta por ela como trilha sonora de uma novela ou filme. Para ela, isso basta.

Para contratar Seven Mônica, basta ligar para 65 99245-1814 ou entrar em contado pelo Instagram.

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