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Quarta-feira, 30 de setembro de 2020

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Catalão Roger Bernat cria jogo de xadrez com a plateia

Estadão

22 Ago 2013 - 18:00

Rara se fazer um espetáculo teatral é necessário um cenário, figurinos, atores. Não mais. Para criar suas peças, o catalão Roger Bernat prescinde de tudo isso. Seu único pré-requisito? A existência de uma plateia.

Nas montagens Em Votação e Domínio Público – que serão apresentadas esta semana no festival Cena Contemporânea de Brasília –, o diretor transforma os espectadores nos únicos intérpretes de seus espetáculos. “O que ocorre nas minhas peças é que não há espectadores no sentido tradicional, porque eles assumem o papel dos atores. Essa é uma velha aspiração do teatro do século 20, desde (Bertolt) Brecht até (Augusto) Boal”, explica Bernat, em entrevista ao Estado. “A única coisa que faço é aproveitar as ferramentas que a tecnologia nos deu nas últimas décadas para multiplicar essa aspiração e, assim, permitir ao público exercer seu desejo mais secreto: ser protagonista da ação.”

Ao utilizar aparelhos tecnológicos relativamente simples, o encenador propõe jogos nos quais o público se engaja intensamente. Tudo, porém, acontece de maneira distinta daquela que costumamos ver no teatro contemporâneo. “Os espetáculos partem de dispositivos que são colocados nas mãos do público. Nada acontece se o espectador não decide a cruzar essa fronteira. Nesse caminho, ele terá que enfrentar a sua própria vontade, encontrar as coordenadas que o orientem e, finalmente, construir a sua própria obra.”

O que se constrói, grosso modo, é uma narrativa de contornos sociológicos e, principalmente, políticos. Sem que a participação de quem assiste implique, nunca, em um convite para que se venha a revelar sua intimidade como indivíduo.

Bernat está a esticar os conceitos de democracia até o limite. Na obra Em Votação, que pode ser vista hoje na capital federal, ele promete dar à sala de teatro as feições de um parlamento. De posse de um controle remoto, cada espectador é chamado a responder a uma série de perguntas. Aos poucos, também vão sendo selecionados representantes, que compartilham as preferências de um determinado grupo e passam, depois, a escolher pelos outros. Um exercício prático do que significa o engajamento político, a responsabilidade de decidir e a dificuldade de delegar poderes. “Não se trata de uma ficção da política, mas de uma política de ficção”, ressalva o autor da peça, Roberto Fratini. Sua intenção é trazer políticos verdadeiros, em oposição aos verdadeiros políticos.

“Como alguém disse antes de mim, a participação é a última praia do capitalismo”, comenta o encenador. “Agora, me parece muito importante distinguir a participação da manipulação. Ambos os termos se entrelaçam nas campanhas intermináveis que nos convidam a fazer parte de redes, de programas e shows. É tarefa do cidadão tornar-se ‘especta-ator’ para conseguir distinguir as coisas.”

Xadrez humano. Amanhã e no sábado, será a vez de Bernat trazer Domínio Público. Nesse espetáculo, que acontece na rua, cada membro da plateia assume a posição de um peão em um jogo de xadrez. A esmo, pode-se caminhar por uma praça enquanto as instruções para a “partida” são dadas através de fones de ouvido. Grupos opostos começam a se formar. São pequenas comunidades que partilham dos mesmos valores ou padrões sociais e irão rivalizar com quem está fora. Parecem a materialização de uma dessas enquetes que se tornaram tão triviais na internet. E, com seus movimentos, ajudam o artista catalão a contar sua história. Esse é, aliás, um dos pilares da sua arte: criar e evidenciar oposições. “O consenso é o pior inimigo da democracia”, considera.

Durante sua estada no Brasil, Roger Bernat também irá mostrar uma prévia de Re-presentátion Númex, seu próximo espetáculo, que tem estreia marcada para outubro, no Centro Pompidou, de Paris. A obra parte de um fato real, ocorrido na Espanha, em 1979, quando operários assumiram o controle de uma empresa. “Aqui, os espectadores refazem uma assembleia de trabalhadores. Depois de dois anos se autogerindo, eles têm que decidir seguir adiante com essa experiência ou renunciar.”

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