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Em isolamento e com uma bebê, cacerense passa por separação conturbada: “reforça nossa capacidade de luta”

Da Redação - Isabela Mercuri

13 Jun 2020 - 14:29

Foto: Reprodução

Em isolamento e com uma bebê, cacerense passa por separação conturbada: “reforça nossa capacidade de luta”
A semana do Dia dos Namorados sempre tem, principalmente na mídia, histórias de sucesso amoroso e propagandas da felicidade. Esta, no entanto, não é a realidade para muitas mulheres. Somente até o dia 1o de junho, as denúncias ao 180 aumentaram 40% em relação ao mesmo período de 2019. A cacerense Aleth da Graça Amorim, 30, não chegou a ser agredida fisicamente, mas sofreu injúria moral e teve que pedir uma medida protetiva à justiça. Em isolamento, com uma filha de dez meses, ela decidiu enfrentar a separação mesmo em meio à quarentena.

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“A relação já era bastante tumultuada. A pandemia só potencializou o que já existia nela. Porque a rotina precisa ser reajustada, tem todo o estresse em torno do trabalho, do financeiro, do futuro, tudo isso incide pra que o que já não funcionava, como o diálogo e respeito, deixe de existir de vez”, contou ao Olhar Conceito.
 
Aleth e o agora ex-companheiro estavam juntos há dois anos e cinco meses. A última discussão foi por um motivo banal, mas foi a gota d’água para ser definitivo. “O término seguiu com uma discussão que houve injúria e injúria moral e por este motivo eu pedi medida protetiva. Ele saiu [de casa] no mesmo dia que terminamos”, lembra.
 
A denúncia foi ainda mais difícil de ser feita devido às normas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Aleth estava com sua filha, que por indicações da própria OMS, não deve usar máscaras. Mas, por a criança não estar com o equipamento de proteção, foi impedida de entrar na sala da delegacia. A solução foi pedir para uma amiga que fosse até lá ficar com a bebê.
 
Entre “a cruz e a espada”, Aleth teve que ceder a algumas modificações em seu isolamento para conseguir sair da relação. Ela, que está terminando o mestrado, também se via muito afetada emocionalmente com a presença do ex-marido. “[Agora] preciso da ajuda da minha mãe a cada dois dias. Ela está em afastamento do serviço por ser grupo de risco, mas meu padrasto não. Ele tem um lava jato e segue trabalhando. Preciso também reorganizar ida ao mercado e outras coisas que era ele [o ex-marido] que fazia. Então, todo o cuidado que tive com o isolamento precisou ser flexibilizado diante do término. São riscos que nesse momento preciso assumir, infelizmente”, declara.
 
Já fragilizada por causa da pandemia, ela precisou ser ainda mais forte neste momento. “A banalização da vida e a normalização da morte mexem comigo. Então é momento de se voltar aos nossos, momento de exercitar o amor e a solidariedade e não encontrar isso de quem escolhemos viver junto machuca. Também tem toda a minha questão individual, mãe de uma bebê, processo de finalização de mestrado em contexto de pandemia, tudo isso nos fragiliza e é quando queremos um apoio que não vamos encontrar”, lamenta.
 
Além do emocional, Aleth agora tem que cuidar da vida financeira, já que está em busca de um emprego. “É preciso saber que a força necessária está em você mesmo, sobreviver a essa pandemia e seguir diante de todas as adversidades”, reitera.
 
Para conseguir sair da relação, a cacerense contou com ajuda da psicoterapia online, principalmente neste momento, em que não pode se encontrar com os amigos e a rede de apoio. Outra ajuda foram as conversas ‘à distância’ com uma prima, um amigo e a mãe. “Seguir em um fim de relacionamento em quarentena tem muitas particularidades e, você conseguir seguir numa condição tão adversa como essa, só reforça a nossa capacidade de luta e superação”, reitera.
 
“Eu não sei se era preciso que pelo derretimento das geleiras devido aquecimento global, um vírus que utilizou do morcego martelo, tendo o Pangolim como seu intermediário, através de uma venda cruel de animais em um mercado na China se espalhasse por todo o mundo, chegando à Cuiabá e incidisse no fim do relacionamento que estava. Relacionamentos começam, outros duram e outros terminam na dinâmica da vida. Mas foi nesse  contexto de pandemia, que de alguma maneira consegui aceitar e seguir nesse término”, finaliza.
 
Sobre a exposição da história, ela não se incomoda: “Acredito que o pessoal é político também, ainda mais com tudo acontecendo. Talvez sirva apenas para mim, ou pra mulheres em situações próximas, mas  precisamos falar: que nós mulheres estamos em lugares diferentes socialmente, ainda mais nessa pandemia, dentro de um contexto capitalista e patriarcal”.

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