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DO NORDESTE PARA CUIABÁ

Com nome de gênio passado de pai para filho, Einstein Halking trilha carreira como estilista e figurinista

Da Redação - José Lucas Salvani

06 Mar 2021 - 08:20

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Com nome de gênio passado de pai para filho, Einstein Halking trilha carreira como estilista e figurinista
Nordestino, Einstein Halking encontrou em Cuiabá a oportunidade de unir sua veia artística com a moda. O homem com o nome de dois gênios - um deles, estilizado sem querer, já que foi erro de cartório - já trabalhou com coleções e também figurinos para apresentações de cantores e produções cinematográficas, e sempre tenta causar uma reação que fuja dos “aplausos educados e sorrisos amarelados”.

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O estilista é formado em Moda pela Universidade de Cuiabá (Unic), mas passou pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Tudo visando um aprofundamento profissional, mas longe de buscar trabalhar no mercado, até porque, para ele, “é muito mais interessante provocar reações do que só aplausos educados e sorrisos amarelados”. Porém, em São Paulo, com muitas pessoas indo contra essa mesma corrente, ele optou voltar para Cuiabá. O racismo também foi um dos fatores determinantes.

“Sempre existiu uma barreira pelo fato de eu ser negro, pelo fato de eu ser nordestino. Essas dificuldades me fizeram broxar um pouco. Por causa dessas limitações, que foram impostas em mim em São Paulo, eu decidi voltar para Cuiabá. Aqui eu já tinha um mercado, as pessoas já me conheciam. Quando eu voltei de São Paulo, eu voltei muito mais preparado e muito mais forte para desenvolver esses trabalhos, diferentes de 10 anos atrás quando eu me formei na Unic”, explica ao Olhar Conceito.



Apesar da bagagem que ganhou na capital paulista, Einstein sente dificuldades quanto à mão de obra qualificada. Ele precisou fazer figurinos de produções inteiramente sozinho por não encontrar alguém que pudesse fazer. Já quanto ao material que utiliza, é mais conveniente comprar diretamente em São Paulo devido a disparidade de preços, geralmente mais caros na capital mato-grossense.

“Ser criativo também é saber fazer com pouco. Durante muitos anos, eu vivi nessa condição de fazer com o que tinha, às vezes eu usava materiais recicláveis, materiais como papelão, pregador de roupa, bombril e assim vai. Então durante muitos anos eu fiz esse trabalho e as pessoas me conhecem por isso, por esse tipo de trabalho que desenvolvo. Hoje eu ainda continuo fazendo isso, mas eu tenho essa possibilidade agora, eu tenho grana para poder comprar esses tecidos de fora”.

Ao longo de sua carreira, Einstein considera dois trabalhos como os mais importantes. O primeiro é uma coleção que aborda o suicídio de indígenas kaiowá - trabalho desenvolvido para a conclusão de curso no Senac - e o segundo é uma coleção que desfilou na Casa dos Criadores, o segundo maior evento de moda em São Paulo, depois do Fashion Week.



“A coleção era sobre falar sobre como a gente pode ficar preocupado em qual é a cor do momento, qual é o tecido do momento, sendo que lá em Mato Grosso do Sul tem crianças de 15 anos se matando porque foram tiradas de suas terras. Se você tira a terra do indígena, ele perde a sua existência ali naquela terra, ele planta, ele faz os seus rituais, onde enterra seus entes queridos. A relação com a terra para ele é muito importante. Acho que grande parte dessa problemática toda de invasão de terras indígenas, claro que existe a questão da ganância e tudo mais, mas eles não entendem essa importância. Se eles entendessem com certeza não fariam isso. No capitalismo, não existe gente boazinha”.

Einstein consegue se enxergar muito na coleção, mas essa percepção veio posteriormente. Nordestino, ele nasceu no Ceará, em Fortaleza, mas vagou por diversas cidades brasileiras. Morro no Rio de Janeiro, foi pra Cuiabá, Belo Horizonte, São Paulo e depois voltou para a capital mato-grossense. “Essa transitoriedade me fez entender algumas questões”.

Costura, Madonna e “rebeldia”

A relação com a moda se iniciou muito cedo, ainda na década de 1980. Quando criança, Einstein acompanhava sua mãe em lojas de tecido. A matriarca comprava para fazer roupas com as costureiras e o programa para ele era uma verdadeira diversão. Enquanto a mãe escolhia os tecidos, ele folheava revistas de moda e se encantava com looks dos mais diversos.



O nome Einstein foi dado por seu avô que, inclusive, foi prefeito de Natal. O patriarca viajava muito e passou a batizar seus filhos e netos com nomes de gênios ou personalidades marcantes. O pai de Einstein tem o mesmo nome que o dele. Um de seus tios, é Shakespeare, policial com dois filhos. Sidarta, é gay. O nome mais simples da família é Rita de Cássia, que foi batizada com o nome da santa após uma promessa de sua avó.

Já o sobrenome Halking não é estilizado para ser seu nome artístico. É erro de registro em cartório. Era para ser Hawking, de Stephen Hawking, mas a proposta não deu muito certo. “Eu achei ótimo porque só eu vou ter esse nome e virou meu nome artístico”, detalha ao Olhar Conceito.

Aos sete anos, os pais descobriram uma deficiência auditiva em Einstein e constataram ser resultado de um erro médico, após tomar um remédio errado. Em consequência, ele escuta cerca de 20% sem os aparelhos auditivos - e quase 100% com eles. Por este motivo, Einstein acredita ter perdido uma etapa que classifica como importante: a percepção do mundo. Entretanto, foi justamente essa perda que faz com que Einstein acredita ter contribuído para sua formação enquanto artista.



A infância e pré-adolescência de Einstein também foram marcadas por Madonna, quem sempre gostou por conta de seus posicionamentos transgressores. No início da década de 1990, a cantora lançou o álbum “Erótica” e o polêmico - para sua época - “Sex”, livro recheado de fotos da intérprete de “Ray of Light” nua. Einstein tinha uma cópia deste livro e andava para cima e para baixo com ele nos braços, até mesmo na escola católica que estudou no Rio de Janeiro.

As irmãs da escola sempre ficavam horrorizadas em ver um garoto de 10 anos com o livro em mãos. Um dia, porém, o pesadelo delas chegou ao fim quando resolveram destruir o livro na frente de Einstein. Era o seu último ano naquela escola e, como vingança, organizou uma apresentação de “Like a Virgin”, no Natal, com outras colegas de classe. Foi uma das primeiras formas que encontrou de questionar a “normalidade e caretice”. Foi sua primeira rebeldia.

House of Einstein Halking

Recentemente, o estilista mudou o nome de seu ateliê para House of Einstein Halking. Em abril, ele deve abrir o espaço para compartilhar com outras pessoas. “Vou começar a abrir as portas para as pessoas poderem vir aqui trabalhar e estudar, para ter acesso aos meus livros, meu ateliê, as minhas maquinas e ao meu acervo. Então a partir de abril vou começar a alugar meu acervo para os profissionais da área”.

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