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Instalação no Salão Jovem Arte é criticada por “banalizar escravidão”; autor nega e organização se desculpa

Da Redação - José Lucas Salvani

25 Out 2021 - 15:07

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Instalação no Salão Jovem Arte é criticada por “banalizar escravidão”; autor nega e organização se desculpa
A artista Elaine Fogaça, uma das selecionadas para o 26º Salão Jovem Arte, utilizou suas redes sociais para desabafar sobre a instalação “Liberdade”, do artista João Manteufel, que utiliza um grilhão preso a um celular. Ao Olhar Conceito, Elaine defende que a obra banaliza a escravidão. João, todavia, afirma que não teve a intenção de provocar tal conotação e queria abordar com a obra “a dependência tecnológica”.

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“Infelizmente ele escolheu o grilhão para isso, esse objeto tem um histórico muito triste pois foi usado durante a escravidão para prender pessoas negras pelo pescoço dificultando sua fuga. Ao escolher esse objeto, o artista banaliza a escravidão, que foi o episódio mais sangrento da história do povo negro, comparando ela a uma ação livre que é o uso do celular na atualidade”, pontuou Elaine em entrevista ao Olhar Conceito.



A artista não prentende encerrar o seu manifesto apenas com o desabafo no Instagram. Segundo Elaine, um movimento está sendo criado com o objetivo de "conscientizar os curadores e pessoas que visitem o espaço".

João afirmou ao site que todos têm o direito de expor sua opinião, mas que nunca teve a intenção de promover tal conotação racista a sua obra. “Acho que todo mundo pode expor sua opinião. Mas, nem de longe, teve essa conotação, ou quis dar algum sentimento. Acho que está faltando, pelo menos, entendimento histórico. Os grilhões vem desde mais de 10 mil anos antes de Cristo, muito, mas muito antes da escravidão no Brasil. A ideia é abordar a dependência tecnológica, a escravidão ao consumo, a superficialidade, a este mundo onde likes valem mais do que realmente viver”.



O autor da instalação, inclusive, encaminhou à equipe de reportagem a descrição da obra, que não está disponível tanto no catálogo online do Salão, como na Galeria Lava-Pés, onde está exposta, para reiterar que nunca foi sua intenção. Confira abaixo, na íntegra, a sinopse da instalação “Liberdade”.

Título da Obra: Instalação Liberdade 
Ano de Produção: _2021
Dimensões: círculo de metal em diâmetro de 50cm, corrente que ligará o círculo ao celular medirá 1m e será soldada no celular na parte traseira.
Técnica: instalação feita em aço, com uma mídia (vídeo) que veiculará no celular Samsung e complementará a instalação que estará suspensa ( conforme mostra o layout).
Descrição: Hoje em dia, o celular é tudo. Basta desbloquear a tela inicial para um mundo se abrir. Facebook, WhatsApp, Youtube, Twitter... Eles nos divertem e nos ajudam no dia a dia. Do conforto do nosso sofá, podemos viver tudo aquilo que nunca viveremos. Essa é a nova liberdade?


Posicionamento do Salão

Na última segunda-feira (18), o Salão Jovem Arte de Mato Grosso utilizou as redes sociais para pedir desculpas. “Mesmo com uma equipe de curadores diversificada, não houve, todavia, a percepção de como elementos da obra poderiam ofender, no momento da avaliação curatorial. Assim, pedimos desculpas a qualquer pessoa que foi ofendida nesse contexto e utilizamos desta oportunidade para refletir e ampliar a discussão acerca do assunto”, disse a nota.



Apesar das críticas apontadas, Luiz Marchetti, diretor geral do Salão, explica ao Olhar Conceito que a organização não cogitou remover a obra, por acreditar que seria um ato de censura, o que vai contra o que é defendido pelos organizadores.

"Sobre a decisão de manter a obra criticada na exposição - tendo em vista que tal apontamento não fora, à época, identificado pela curadoria - o critério foi baseado em não promover nenhum tipo de censura no Salão Jovem Arte, postura combatida pelos organizadores", pontuou.

Segundo Marchetti, a organização pretende promover debates no Programa Educativo do Salão, iniciado na última sexta-feira (22), com representações dos grupos socialmente vulneráveis. Entretanto, Marchetti ressalta que é preciso de recursos financeiros para que o projeto saia do papel.

“Acerca das providências a serem tomadas, estamos buscando promover debates no Programa Educativo, primeiro promovido no Salão Jovem Arte, com representações dos grupos socialmente vulneráveis. Ou ainda, textos destes na segunda tiragem dos catálogos. Mas, para isso, é necessário levantar recursos e, assim que possível, daremos sequência”, afirmou.

Nota do Salão Jovem Arte na íntegra

A curadoria do 26º Salão Jovem Arte recebeu uma crítica pelas redes sociais acerca de uma obra selecionada que versa sobre a dependência tecnológica na atualidade.

Na crítica levantada, tal obra compara - de forma desproporcional - o efeito da tecnologia como um tipo de escravidão.

A curadoria e toda a equipe do Salão reconhecem que o período de escravidão negra no Brasil é de profunda gravidade, mantém relações sociais injustas até hoje, colocando o povo preto em condição de vulnerabilidade e, por isso, tal momento histórico não pode ser minimizado nem normalizado.

Mesmo com uma equipe de curadores diversificada, não houve, todavia, a percepção de como elementos da obra poderiam ofender, no momento da avaliação curatorial.

Assim, pedimos desculpas a qualquer pessoa que foi ofendida nesse contexto e utilizamos desta oportunidade para refletir e ampliar a discussão acerca do assunto.


Atualizada às 19h36.
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