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Terça-feira, 28 de junho de 2022

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OCUPAÇÃO DOS ESPAÇOS

Primeiro vereador do povo Balotiponé, Umutina de Barra do Bugres está abrindo espaço para o protagonismo indígena na política

Foto: Arquivo Pessoal

Primeiro vereador do povo Balotiponé, Umutina de Barra do Bugres está abrindo espaço para o protagonismo indígena na política
Professor Mestre de educação física formado em universidade federal e eleito primeiro vereador indígena de Barra do Bugres (aproximadamente 180km de Cuiabá) em 2020, Lennon Ferreira Corezomae (Podemos) do povo ‘Balotiponé’, Umutina, conversou com o Olhar Conceito sobre sua carreira na política, o espaço que ele abriu para que os povos indígenas da região possam se adentrar nesses meios e, por fim, sobre 19 de abril - “Dia do Índio” - data largamente criticada por reproduzir noções que reduzem, de forma pejorativa, toda diversidade das mais variadas identidades indígenas espalhadas pelo país.  

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Lennon, de 32 anos, é natural de Barra do Bugres e está em seu primeiro mandato como vereador. Ele atribui sua vitória ao seu processo histórico e acadêmico, no qual lhe rendeu diploma de graduação pela Universidade Federal de São Carlos e de Mestrado pela mesma instituição.  

Depois dos títulos federais, retornou para o território Umutina, em Barra do Bugres, onde passou em concurso estadual para ser professor de Educação Física. No município, prestou serviço em escolas municipais, rurais, do campo, da aldeia e até na Apae.  

“Acredito que o conjunto do histórico fez com que tivesse o reconhecimento tanto da população indígena quanto da população não indígena. Os votos desses dois grupos tornaram nossa eleição possível”, pontou.  

Reconhecido em Barra, Lennon foi eleito com 240 votos. Destes, 111 votos na aldeia e 129 na cidade. Sua conquista de uma cadeira na Câmara nos Vereadores demonstrou a importância para os povos indígenas de terem um representante Umutina na Câmara dos Deputados, lutando pelo direito desses grupos.  

Ele foi escolhido, dentre representantes dos territórios indígenas da região para liderar a empreitada política. “Consegui angariar votos dos não indígenas de Barra, o que tornou realidade o sonho em poder estar defendendo tanto a população indígena quanto a população não indígena”, acrescentou.  

Eleito, Lennon contou que suas principais pautas de defesa na câmara giram em torno da união dos povos do município, da educação, e da defesa do servidor público. 

No decorrer de sua campanha pelo Podemos, o vereador pontou que houveram comentários desrespeitosos e pejorativos vindo de uma minoria: “Até um índio agora vai concorrer. Não vai fazer nada, só vai fazer bosta”.  

Por outro lado, disse que as pessoas que lhe conheciam, professores, servidores, educadores, amigos de trabalho saíram em sua defesa do e responderam os comentários. “Ele tem competência sim, é estudado, trabalhamos juntos. É uma pessoa capaz de representar o município, com condições. Indígena formado. Então houve, inclusive, uma defesa por parte da maioria da população”.  

Para o vereador, a principal dificuldade na carreira de vereador foi a conquista pelo espaço do protagonismo indígena nos lugares políticos. Segundo ele, a aprovação de seus projetos na câmara leva em consideração a capacidade de luta, de representatividade, do uso de informações históricas na defesa de argumentos técnicos e profissionais para a indicação de propostas. 

 “A partir do momento que a gente entra, entramos com pessoas de diferentes pensamentos e mostramos que estamos aqui para lutar na política de igual para igual [...] não pelo grito. Tem argumento, fundamento histórico e cultura. É isso que a gente leva para a câmara”, disse.  

Agora, para perdurar a concepção de que os indígenas tem muito a oferecer, com capacidade técnica, profissional e política, Lennon vai lançar candidatura para Deputado Estadual, com intuito de ampliar os espaços de atuação do protagonismo indígena.  

“Precisamos romper essa barreira para conseguir chegar no assento da assembleia legislativa para conseguirmos fazer a luta assim como faço na câmara. Estou preparado para ser expulso de qualquer partido, mas jamais mudar meu pensamento, posicionamento e a luta sobre as questões indígenas”. 

A conversa com o parlamentar se encerrou tratando sobre o 19 de abril, data oficial do país para se comemorar o “Dia do Índio”.  

“Eu, como professor, consigo enxergar na população não-indígena nas escolas, que a data ainda é comemorada ou celebrada de maneira pejorativa, com ações superficiais que reforçam estereótipos, em vez de acabar com ele[...] É um momento de reflexão sobre as lutas culturais, as guerras por demarcação de território. Momento de termos visibilidade para falarmos da nossa causa, para passar para população sobre qual a realidade atual dos povos indígenas”, pontuou. 
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