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Domingo, 26 de junho de 2022

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CATEGORIA PERFORMANCE ARTÍSTICA

Mais de 40 anos no teatro e parceria com Liu Arruda: professor, escritor e produtor cultural Ivan Belém recebe Prêmio Jejé de Oyá

Foto: Reprodução

Mais de 40 anos no teatro e parceria com Liu Arruda: professor, escritor e produtor cultural Ivan Belém recebe Prêmio Jejé de Oyá
Ivan Belém, que respira teatro desde a adolescência e já tem mais de 40 anos de carreira nas artes cênicas, foi matriz de criação do gênero de comédia teatral “As Comadres”, junto com Liu Arruda. Belém já atuou em rádio, cinema, circo e tem sua formação acadêmica toda pela Universidade Federal de Mato Grosso. Ator, poeta, historiador, produtor cultural e escritor premiado, ele é personagem protagonista e exponencial do ramo artístico cênico de Cuiabá e MT.  

Caminhando entre grupos de rua, teatro infantil, político - quando atuou para as Diretas Já - e a comédia original, hoje aposentado, Ivan foi escolhido pelo júri do Prêmio JeJé de Oyá para ser gratificado na categoria Performance Artística. Para ele, estar entre os personagens escolhidos pela premiação é motivo de felicidade e contemplação. “Eu como ator negro, com mais de 40 anos de carreira em Cuiabá, me sinto contemplado e fico feliz não só por mim, mas por todos os companheiros e companheiras negras”, disse ao Olhar Conceito.  

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Nascido em Barão de Melgaço, Ivam chegou na capital com sua família ainda bebê recém-nascido. Durante a infância conheceu o teatro e, na adolescência, entrou para o grupo de teatro do Sesi, aos 17 anos de idade.  

Pouco depois, ainda jovem, fundou o grupo Gambiarra e dedicou-se ao teatro infantil. Mais tarde, o Gambiarra se transformou no primeiro grupo de teatro de rua de MT, após Belém se reencontrar com nomes expressivos de atores e atrizes cuiabanos.  

No começo da década de 80, Ivan foi convidado por intermédio de Therezinha de Arruda – fundadora de movimentos culturais e tia de Dante de Oliveira – para fazer teatro de rua atuando pelas Diretas Já - movimento de cunho político que buscou a retomada pelo voto direto após os 20 anos de ditadura militar.  

Sobre a dobradinha com Liu Arruda, Ivan contou que ambos se conheceram ainda no grupo de teatro do Sesi, dirigido à época por Camilo Ramos. Mais tarde, a parceria se fortaleceu no gambiarra e a dupla se formou após o encerramento do coletivo. Com isso, eles criaram na década de 80 “As Comadres”, gênero teatral de humor original de Cuiabá.  

Dentre as interpretações de Ivan, uma das mais famosas é Creonice. Nascida para ser o contraponto Nhara, criada por Liu, elas foram as primeiras comadres do teatro em MT. Creonice é cuiabana, classe média, loira, que sempre viaja para o RJ nas férias. 

“A Prainha. Ai que saudade que eu tenho da minha querida Prainha. Da casa da minha avó que é também minha madrinha. Eu me alembro, quando eu era pequenininha, vovó batia “no mim” com cobrinha. Eu fugia da velha e gritava: “larga disso vovó dindinha!” Vovó morreu, fecharam o canal, o ouro acabou e chegou o carnaval. Eu agora sou mocinha, pra ganhar dinheiro, rodo bolsa na prainha”, disse Comadre Creunice em seu poema A Prainha, criado por Ivan.  



Sobre ser reconhecido como protagonista negro das Artes Cênicas pelo Prêmio Jejé de Oyá - Aos Personagens Negros, Ivan reforça sobre a importância desse espaço de visibilidade. “O racismo tenta apagar as questões raciais em nome de uma cordialidade que nunca existiu”, declarou.  

Amigo próximo da figura negra irreverente que foi Jejé, Ivan e ele eram frequentadores de bares cuiabanos pela madrugada, como o Choppão e o Presidente. O ator percebe que a homenagem a é muito importante pelo peso emblemático que a figura de Jejé carregava.  

“Eu sou militante do movimento negro há muitos anos, sou membro da União de Negros Pela Igualdade (Unegro). Outro motivo que me deixa feliz e orgulhoso com essa indicação, é por levar o nome de Jejé de Oyá, que foi meu amigo particular, muito querido. Foi uma figura emblemática, um ícone da irreverência negra. Do poder negro. Penetrou em todos os escalões da sociedade, com acesso também ao popular, ao povão”, finalizou Ivan. 

Graduado em História, Belém fez mestrado e doutorado em Educação, resultando daí a publicação de dois livros: “A Baía de Tchá Mariana: Mitopoéticas Africana e Pantaneira nos círculos de aprendizagens ambientais” e “Liu Arruda: a Travessia de um Bufão”, obra que lhe rendeu o Prêmio Mato Grosso de Literatura.  
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