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Domingo, 12 de abril de 2026

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Quatro anos longe das ruas: a luta de ‘Pingo’ e o olhar do Psicanálise na Rua sobre aumento da violência no Beco do Candeeiro

Foto: Bruna Barbosa/Olhar Conceito

Quatro anos longe das ruas: a luta de ‘Pingo’ e o olhar do Psicanálise na Rua sobre aumento da violência no Beco do Candeeiro
Há quatro anos, Ingrid, mais conhecida como “Pingo”, dormiu em uma das calçadas do Beco do Candeeiro, no Centro Histórico de Cuiabá, e acordou decidida a não usar mais crack, droga que a acompanhava desde a pré-adolescência. Pingo voltou para casa e começou a trabalhar como cozinheira, mas bastou a visita de uma amiga para que a pasta base voltasse a ser sua fiel companheira. Ela é uma das atendidas pelo projeto Psicanálise na Rua, criado pela professora da UFMT e psicóloga Adriana Rangel, que busca garantir o direito de pessoas em situação de rua serem ouvidas. 


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Na última quarta-feira (17), o Psicanálise na Rua realizou uma festa de Natal no Beco do Candeeiro, com frutas, panetones e refrigerantes, além de roupas, sapatos e itens de higiene para doação. Para os que quisessem, o banheiro que fica nos fundos da Igreja Nossa Senhora dos Passos pôde ser utilizado. Pingo aproveitou para pegar camisetas, shorts e sandálias que estavam expostos para quem precisasse. 

De cabelos molhados, ela celebrou ter conseguido tomar banho naquela noite. Pingo transita entre a região do Centro Histórico de Cuiabá e o bairro Pedregal, onde lamenta não existir iniciativas como o Psicanálise na Rua. Pingo é usuária de pasta base desde os 11 anos, antes da recaída que a levou novamente para as ruas, nunca tinha pensado ou tentado parar. 

As vidas de Pingo e Adriana se cruzaram há quase dez anos, no início do projeto Psicanálise na Rua. (Foto: Bruna Barbosa/Olhar Conceito) 

“Já com 40 anos resolvi, do nada, que ia parar. Dormi, acordei e falei que ia embora para casa. E fui. Estava com a minha casa montada e trabalhando. Com um ano em casa tive a primeira recaída, fiquei três dias no Beco, minha filha veio e me buscou. Depois de uns dois anos, agora dia 28 de dezembro ia fazer 4 anos, mas tive essa recaída. Essa recaída foi brava”. 

Apesar de nunca ter pensado em parar com o crack antes dos 40 anos, hoje Pingo carrega um arrependimento que a faz sofrer quando está sóbria. Quando recaiu, ela se sentiu influenciada pela amiga que comprou a pasta base para elas fumarem. “Todo dia me arrependo de ter recaído, mas fazer o quê? Já estou aqui, já perdi tudo”. 

Segurando a sacola com roupas novas e uma mochila, ela abraça Adriana antes de partir. “Por isso que falo que me sinto vitoriosa, uma pessoa que nunca tentou parar, fiquei quatro anos”. 

Naquela noite, Adriana também descobriu sobre a recaída de Pingo quando a encontrou no Beco do Candeeiro. “Conheço a Pingo desde o início do projeto, ela conseguiu sair da rua durante esse período, quatro anos é bastante tempo. A Pingo está na rua desde menina”. 

A professora da UFMT explica que não utiliza mais o termo “dependente químico” para se referir a Pingo ou aos outros usuários de drogas que habitam o Centro Histórico de Cuiabá. Para ela, nomear dessa forma apaga o sofrimento e o desamparo que essas pessoas estão expostas. 

Professora da UFMT e psicóloga, Adriana Rangel foi responsável por criar o Psicanálise na Rua. (Foto: Bruna Barbosa/Olhar Conceito) 

“Fica parecendo que é algo químico, e não é, é uma doença psicossocial. Essas pessoas precisam de amparo para conseguir trabalho, moradia, tratamento para o sofrimento mental deles que é avassalador”. 

Aumento da violência 

No Beco do Candeeiro, Adriana e os outros integrantes do Psicanálise na Rua costumam ouvir as histórias que constatam o aumento da violência contra as pessoas em situação de rua e usuários de drogas ao longo de 2025. Para a professora da UFMT, as políticas que vão contra o “povo da rua” estão ainda mais eficazes. 

“Estou há dez anos aqui e o que consigo constatar é que eles sempre apanharam, só que aumentou a frequência, agora é duas vezes ao dia, antes era duas vezes na semana. Agora toda hora tem batida, jogam eles para dentro das casas, eles contam o que acontece, eles estupram as mulheres novas, fazem revista íntima, tortura… Você fica chocado de ouvir, mas a gente não consegue fazer nada”. 

No Beco do Candeeiro, as calçadas e casarões, boa parte deles abandonados, guardam as histórias de tortura e violência. Entre os usuários sentados nas calçadas, os nomes de dois dos principais algozes se repetem. “Eles têm prazer em torturar”, diz uma das pessoas. 

O Psicanálise na Rua se encaixa no movimento de Clínicas de Borda, em que psicanalistas e psicólogos atuam fora dos consultórios tradicionais, em espaços públicos como praças, escolas e comunidades, para escutar os sofrimentos que se manifestam. Quando precisa levar feridos para unidades de saúde, Adriana lamenta. 

“Estou levando gente para o hospital com o braço quebrado. Eu falo o que posso, mas o que posso fazer mais do que falar? Falo nos meios que posso. Eu queria poder ter uma fala mais eficaz”. 
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