Não são poucos os vídeos do perfil "Dicas da Drik" no TikTok que se dedicam a relacionar o personagem Stitch, da animação Lilo & Stitch, a riscos espirituais. "Eu queimei tudo do Stitch", "Alerta aos pais o Lilo e Stitch é macumbeiro", “Cuidado, o Stitch vai acabar com a sua família" e "Depois que queimei as coisas do Stitch não paro de vomitar" são alguns dos títulos que anunciam o conteúdo das publicações. O vídeo em que ela aparece queimando uma mochila do Stitch que seria da filha viralizou nas redes sociais nesta semana e chegou a quase 1 milhão de visualizações. Nas redes, ela não é a única que classifica o desenho animado como “demoníaco” ou contrário a princípios religiosos, especialmente a partir de leituras bíblicas.
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Ao
Olhar Conceito, o psicanalista e professor de Psicologia Lucas Guerra, explica que esse tipo de interpretação não está ligado necessariamente à obra em si, mas ao modo como artefatos culturais são preenchidos simbolicamente pelo público. Segundo ele, todo objeto artístico é revestido de significados que escapam ao controle de quem o produz.
Guerra destaca que o objeto, por si só, não carrega perigo algum. "Alguns artefatos artísticos são preenchidos por fantasias más, como espiritualmente perigosos, a quem se sente ameaçado por um significado dado por si mesma, ao preencher o objeto. Obviamente o objeto é só um objeto, ele precisa ter uma fantasia investida para ser significado como perigoso a ponto de ameaçar a espiritualidade, a quem tem essa dimensão como relevante".
O diferencial do momento atual, aponta, é o tamanho do “canhão” usado pelas redes sociais, que disseminam conteúdos em um piscar de olhos transformando essas interpretações em "espetáculo público". "A demonização, embora pareça algo que acontece em outros contextos, como uma família que toma um objeto como mau e o joga fora, ou mesmo uma determinada igreja que em um culto específico o faça, está limitado aquele público que está presenciando aquilo e partilhando daqueles valores constitutivos", explica Lucas.
Nas redes, porém, a destruição se torna performática, feita para ser vista e compartilhada. “Então, há o fator de exibição, o desejo de fazer ser vista a destruição do objeto, e tornar aquela fantasia pública, investindo agressão ao objeto. O público não está sendo apenas alarmado com aquele símbolo, ele está também sendo ensinado a como tratá-lo: com agressão, violência, destruição. Certamente que todos têm direito, em termos de crença, a preencher objetos com seus valores religiosos. No entanto, espetacularizar a agressão contra os objetos, é uma pedagogia bastante contraditória, a quem supõe estar zelando por bons valores".
Nesse contexto, vídeos que mostram a destruição de personagens infantis, como Stitch, podem gerar conflitos internos, medo e paranoia em um psiquismo ainda em desenvolvimento, já que a criança passa a confrontar o valor afetivo que atribuía ao objeto com a narrativa de perigo apresentada por adultos.
"Ele tem um Stitch de pelúcia no quarto. Ele tem uma camiseta do Stitch. Será que ele está vestindo o demônio este tempo todo? Observe o medo e a paranoia que podem se instalar sob um psiquismo ainda em desenvolvimento! Sem contar, que o conflito se dá porque não é o mesmo valor que ela deu até então ao objeto: tem alguém falando que é mau, mas não é o que eu tinha visto. As crianças são as que mais sofrem, ao verem seus universos lúdicos abalados por fantasias de adultos agressivos aos objetos".
Violência simbólica
Lucas Guerra ressalta que pais e responsáveis têm o direito de estabelecer limites a partir de suas crenças, mas defende que isso deve ser feito sem violência simbólica. "Nenhuma criança deve ter seu imaginário habitado por violência dirigida contra aquilo que é diferente do conjunto de crenças da sua família. Pode não pertencer aos seus valores, mas faz parte, o mundo fora da família é mesmo diferente, e deve ser respeitado, jamais agredido".
Para ele, uma coisa é valorar símbolos a partir de crenças pessoais; outra, mais perigosa, é atacar esses objetos em nome de uma suposta verdade e fazer disso um espetáculo, sobretudo quando se trata de artefatos culturais infantis, como o personagem Stitch, capazes de atravessar e afetar imaginários em formação.
"Não é diferente, por exemplo, das estátuas de santos e santas católicas, que eventualmente vemos sendo quebradas, ou dos terreiros de religiões de matriz africana, que vemos serem vandalizados e terem seus orixás e outros símbolos destruídos. Uma coisa é valorar o que quer que seja. Outra coisa é atacar com agressão em nome de uma suposta verdade sobre os objetos e os símbolos. E outra, ainda mais perigosa, é fazer disso espetáculo público, pois ele perpassa imaginários. Sobretudo com relação a artefatos culturais infantis, como é o caso do personagem Stitch".
Na avaliação do psicanalista, o debate em torno de personagens como Stitch revela menos sobre o conteúdo das obras e mais sobre tensões sociais contemporâneas, inseguranças coletivas e disputas simbólicas.
"Nos ocuparmos desse debate que parece tão pequeno, na realidade é imenso, pois estamos debatendo que adultos ensinam crianças, o que ensinam e como ensinam. Deve ser sempre refletido em termos mais amplos do que a unilateralidade da minha crença. Jamais, repito, jamais ensinando que por não corresponder aos nossos valores, temos direito de destruir e agredir os objetos que podem ser importantes aos outros".