O pagamento do aluguel do imóvel na Praça da Mandioca, no Centro Histórico de Cuiabá, onde está instalada a Casa das Pretas, que abriu às portas em abril de 2020, sempre foi uma questão delicada para a fundadora do local Antonieta Costa, que também criou o Instituto de Mulheres Negras do Mato Grosso (Imune). Muitas vezes, o valor foi tirado do próprio bolso. Neste mês, no entanto, o governador Mauro Mendes (União) assinou um decreto que autoriza a aquisição da Casa das Pretas por meio de uma emenda parlamentar da deputada federal Rosa Neide (PT).
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Ao
Olhar Conceito, Antonieta explica que a conquista simboliza um passo importante para a população negra e para toda a comunidade cuiabana, especialmente em um contexto nacional de fechamento de instituições voltadas à promoção da cultura e da educação negra.
“Não é um avanço só para o Instituto. É um avanço para a população negra. É um avanço para toda a comunidade cuiabana e mato-grossense. Em tempos em que as instituições que trabalham com a comunidade negra estão sendo fechadas, no ano passado foram mais de 8, inclusive a única escola afrocentrada do Brasil, em Salvador, a Tia Filipa, que foi fechada, nós chegamos na contramão desse movimento, porque conseguimos garantir um espaço que, para nós, é de direito".
Antonieta ressalta que o espaço geográfico em que a Casa das Pretas está localizada marca um processo de ressignificação. De acordo com ela, o imóvel foi um mercado de pessoas escravizadas, enquanto a Praça da Mandioca foi o pelourinho de Cuiabá.
"Hoje é um espaço de acolhimento, um espaço de entendimento desse processo, dessa diversidade que existe no nosso Estado e, principalmente, aqui no nosso município. É um processo que traz para nós, negros e negras, pessoas conscientes, pessoas que nos apoiam, colaboradores e colaboradoras na luta antirracista. Nos traz uma luz, um caminho e, principalmente, reafirma a palavra ‘é possível’. Nos traz a perspectiva não só da mudança, mas da transformação social".
"Para nós, do Instituto de Mulheres Negras, não é apenas deixar de pagar um aluguel que atualmente é de R$ 5.500, além de luz, água e internet. É um momento de pensar no crescimento, de pensar no amadurecimento político, na cultura do nosso Estado. A gente amadurece quando reafirma e quando apoia", continua.
A emenda foi destinada pela deputada federal Rosaneide em 2021, no entanto, levou cerca de cinco anos para ser concluído devido a entraves burocráticos comuns em imóveis do Centro Histórico, como a regularização documental. Com a publicação do decreto de desapropriação, o espaço passa oficialmente a ser destinado ao Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso, já que a emenda é impositiva e vinculada diretamente à instituição.
“Isso é um começo. A gente quer que isso se prolongue para outros grupos que estão fazendo um trabalho excelente. Em relação ao governo do Estado, eu achei bem interessante. Esses dias, inclusive, entraram na nossa rede e partidarizaram a luta, mas a gente não quer partidarizar. Comentários do tipo ‘é uma boa ação, mas é do PT’ não têm nada a ver. A gente precisa ter discernimento.”