Durante toda a temporada de premiações, os filmes indicados ao Oscar ocupam o centro das discussões, mas não necessariamente as salas de cinema. Pelo menos, não em Cuiabá, de acordo com um levantamento inédito realizado pela reportagem. Apesar do prestígio de uma indicação, os filmes que concorreram ao prêmio na noite do último domingo (15) permaneceram em cartaz na capital mato-grossense, em média, por apenas três semanas (menos de um mês), dado que contrasta com a média nacional de exibição dos mesmos filmes, que é de aproximadamente 12 semanas (quase três meses).
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Os dados são do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), órgão subordinado à Agência Nacional de Cinema (ANCINE). De modo geral, a nível de Brasil, o tempo médio de exibição de um filme nos cinemas é de 35 dias para filmes brasileiros e de 44 dias para filmes estrangeiros, segundo o último “Informe Anual do Mercado Cinematográfico”, do OCA/ANCINE.
Na prática, porém, uma indicação ao Oscar costuma dar sobrevida às obras, estendendo seu tempo em cartaz para mais de 100 dias, como é o caso dos brasileiros “O Agente Secreto” (da distribuidora Vitrine Filmes) e “Ainda Estou Aqui” (distribuído pela Sony Pictures), que possuem, respectivamente, 141 e 193 dias de exibição nos cinemas de todo o país, de acordo com o Painel de Indicadores do Mercado de Exibição (OCA/ANCINE).
O espectador cuiabano interessado no Oscar, no entanto, precisa se apressar para assistir aos indicados ao prêmio em uma sala comercial da capital, mais do que precisaria em outra cidade do Brasil, como São Paulo, Recife ou Brasília. Conforme apuração da reportagem, a longevidade de um filme do Oscar não ultrapassa 21 dias na dinâmica do circuito comercial de Cuiabá (21,07 para ser exato), considerando-se a média dos filmes indicados nas principais categorias. Por outro lado, a média nacional é de 82 dias (81,62).
Esse prazo é ainda menor quando se leva em conta somente o período inicial de exibição dos filmes, que ocorre, em muitos casos, antes do anúncio das indicações pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, em janeiro de cada ano. Considerando-se apenas os dias ininterruptos de exibição de um filme em um mesmo cinema de Cuiabá desde a sua estreia nacional, a média de tempo em cartaz dos candidatos ao Oscar é de 19 dias (19,36).
Em outras palavras, para assistir a um filme com “perfil” de Oscar nos cinemas comerciais, antes da influência das indicações da Academia no mercado exibidor, o espectador cuiabano conta com uma janela inferior a três semanas, prazo bem abaixo da média nacional de doze semanas.
Para a 98ª edição, a Academia dos Estados Unidos selecionou 50 filmes, entre os 317 candidatos elegíveis. Dessa seleção, 35 filmes são de longa-metragem (duração superior a 40 minutos, segundo a regra oficial). Entre esses, 22 filmes concorreram às categorias principais (11 das 24 existentes): Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Animação, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Escalação de Elenco.
A reportagem considerou uma amostra de 18 filmes, que foram lançados oficialmente no Brasil diretamente nos cinemas do circuito comercial, entre abril de 2025 e março de 2026. Filmes lançados em streaming (como “Blue Moon”, da Sony Pictures) não foram considerados, ainda que tenham tido sessões especiais nos cinemas após a indicação ao Oscar. A metodologia aplicada para o cálculo das médias é a mesma utilizada pelo OCA/ANCINE, em que valores atípicos (outliers) foram retirados do conjunto de dados, segundo o critério da amplitude interquartil.
O filme “A pequena Amélie” (Mares/Alpha Filmes), cuja estreia ocorreu no última quinta-feira (12) e ainda não completou uma semana em cartaz, foi desconsiderado. Os dados locais sobre o filme “Frankenstein” (Netflix), bem como os dados referentes à exibição contínua nos cinemas de Cuiabá, são de apuração exclusiva da reportagem.
A análise revela a baixa diversidade de títulos disponíveis no mercado exibidor local. Enquanto blockbusters de animação distribuídos por grandes estúdios como a Disney sustentam 14 semanas de exibição contínua desde a estreia, como é o caso de “Zootopia 2”, filmes autorais ou independentes, de distribuidoras menores, mal sobrevivem à segunda semana, situação compartilhada por “Arco” (Mares Filmes/MUBI), “Sirât” (Retrato Filmes) e “Foi Apenas um Acidente” (Imovision/MUBI). Além disso, 16,7% dos “oscarizáveis” nem sequer chegam a ser exibidos no circuito comercial de Cuiabá. É o caso de “A Voz de Hind Rajab” (Synapse Distribution) e “Valor Sentimental” (Retrato Filmes), que venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional na noite do último domingo, superando “O Agente Secreto”.
Como alternativa ao circuito comercial, o cinéfilo cuiabano conta com iniciativas públicas ou independentes, além dos serviços de streaming. O Cineclube Coxiponés, por exemplo, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mantém sessões regulares de filmes não comerciais.
O Festival de Cinema de Cuiabá e a Mostra Quariterê democratizam o acesso a obras contemporâneas brasileiras. Já o Cine Teatro Cuiabá exibe filmes independentes, inclusive os “oscarizáveis”, como é o caso de “Valor Sentimental”, que terá sessão única nesta terça-feira (17), às 19h30, com ingressos acessíveis.