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Sexta-feira, 17 de abril de 2026

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Depois de passar por restaurantes de alta gastronomia, jovem aposta em comida de 'bachan' em delivery na periferia de Cuiabá

Foto: Arquivo pessoal

Depois de passar por restaurantes de alta gastronomia, jovem aposta em comida de 'bachan' em delivery na periferia de Cuiabá
Criado entre o balcão de sushi e as receitas japonesas milenares preparadas pela avó, Erick Yuji Kamiya cresceu cercado pela tradição e chegou a dividir a bancada de um restaurante japonês de Cuiabá com o pai, o sushiman Maiky Massaaki Kamiya, o “Massa". Há algumas semanas, Erick decidiu seguir o próprio caminho, longe da pressão dos grandes restaurantes, e abriu um pequeno delivery na casa em que mora no bairro Jardim dos Ipês, na região do Tijucal, na periferia de Cuiabá. A ideia é levar comidas de “comida de bachan", avó em japonês com pratos diretos, afetivos e baseados em receitas da própria família.


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A decisão veio em meio a mudanças pessoais e profissionais. Após fazer parte da equipe de um restaurante de alta gastronomia de Cuiabá e trabalhar com o pai, Erick percebeu que não se identificava com o modelo que antes idealizava. “Durante um tempo eu quis muito isso de trabalhar em um restaurante grande, caro, mas nunca fez sentido para mim”, afirma. Foi com incentivo dos pais que ele decidiu apostar em um formato mais enxuto, que permitisse mais liberdade criativa e proximidade com o tipo de comida que realmente consome no dia a dia.

No cardápio, a escolha foi por pratos mais diretos, que dialogam com a rotina e com memórias afetivas. Diferente do sushi tradicional que marcou sua formação, Erick optou por receitas como yakisoba, guioza e sunomono. “Enquanto pessoa asiática latino-americana, sushi não é o que eu como no dia a dia. Quis trazer coisas que fazem parte da minha vivência”, explica.

Filho do sushiman Maiky Massaaki Kamiya, conhecido como Massa, Erick representa a terceira geração de uma família de origem japonesa que mantém receitas tradicionais de Okinawa viva. (Foto: Arquivo pessoal) 

Para Erick, a comida japonesa é a principal forma de conexão com a Okinawa e seus antepassados. Ele conta que percebe que foi pela culinária que construiu esse vínculo com o tataravô e o bisavô, por exemplo, já que, em um ambiente familiar mais reservado, não havia o hábito de compartilhar histórias em palavras. Nesse contexto, receitas, sabores e modos de preparo passaram a ser o elo entre gerações. 

"Sei que a comida de Okinawa não é nada parecida com a comida japonesa que ficou famosa no ocidente, eles têm muito a cultura dos grelhados, da comida de praia, da comida de rua também. Essa tradição de Okinawa é o que eu trouxe para as minhas receitas, os pequenos detalhes dos picles, da acidez pronunciada, a doçura pontual… É tudo mais temperado em Okinawa, porque é quase Havaí lá. É uma comida com muito punch, gosto disso e sinto que agrada os clientes brasileiros". 

No delivery, essa tradição ganha adaptações, como a barriga de porco ao molho de missô que deve entrar no cardápio em breve e é inspirada em uma das receitas da avó, mas os toques de Erick que classifica o acompanhamento da carne como um "barbecue de missô". 

"Lembro muito da minha avó acordar muito cedo para fazer caldo com partes de frango e porco. Ela sempre falava que o segredo de uma boa comida japonesa eram os caldos. Até em casa mesmo a gente tinha caldos cheios de umami, presença e sabor. Era o prato favorito da minha infância, assim como o shimeji na manteiga, pratos mais simples, que quando pensamos em comida japonesa, não costumamos pensar, vamos mais para o sushi". 

Apesar da experiência acumulada ao lado do pai, a mudança para o delivery trouxe desafios. Sem a estrutura de um restaurante, Erick passou a lidar sozinho com decisões que antes eram compartilhadas. Ainda assim, vê no modelo uma forma de se arriscar e construir uma identidade própria.

"A rotina dentro de casa muda tudo isso, apesar de estarmos começando uma obra para começar uma cozinha maior, não vai mudar muito do que é uma casa realmente. Isso foi muito bom para mim agora, porque essas mudanças do restaurante, de toda essa cobrança que tem no restaurante, principalmente na cozinha japonesa, uma cobrança pela perfeição e pela exatidão. O restaurante tem uma rotina muito mais intensa do que o delivery. O principal, e que estou achando o máximo, é adaptar os pratos, adaptar para o delivery é uma descoberta". 

Erick também reconhece no pai a base de tudo o que construiu na cozinha. Ele afirma que a principal referência na gastronomia sempre foi Maiky Massaaki Kamiya, com quem aprendeu desde as primeiras lembranças de infância. Mesmo após cursos e formações técnicas, ele percebe que o essencial já estava dentro de casa. “Tudo que eu sei é por causa dele”, diz, ao destacar que tanto as técnicas quanto a forma de encarar a cozinha foram moldadas no convívio familiar.

Para Erick, esse aprendizado vai além da técnica e se conecta com o legado de uma culinária milenar, transmitida no dia a dia, nos gestos e na prática. "Toda a maneira de encarar a cozinha e as técnicas que aprendi na proficiência com meus senseis, depois eu parava para pensar que  minha família tinha me ensinado tudo, talvez sem a parte tão técnica, mas é muito gostoso esse legado. É maravilhoso cozinhar da maneira que eles cozinham e cozinham, porque acho que isso caracteriza tanto a cozinha japonesa. É uma cozinha milenar". 

Erick afirma que o objetivo do delivery vai além da praticidade e passa pela experiência que quer provocar em quem pede. “Quero que as pessoas sintam a história, cada detalhe que coloquei no prato, desde a embalagem até um bilhete”, diz. A intenção é aproximar o cliente da sensação de estar em um izakaya, bar japonês informal que combina comida caseira e petiscos com um ambiente acolhedor, com uma comida que remete ao acolhimento e à memória. Para ele, a força da culinária japonesa está nesse caráter afetivo.
 
"Se você entra em um restaurante clássico japonês você se sente em casa, porque a comida é afetiva. Quando a comida é gostosa, ela te emociona, traz lembranças e perspectivas, isso deixa tudo mais gostoso. Quero que os clientes entendam que comida japonesa não é só sushi e peixe, tem muitas outras possibilidades. Colocar isso no delivery é ainda mais importante para mim, porque sei que a comida vai estar na casa deles". 
 
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