Quando a filha tinha dois anos, a artista e cabeleireira Elizabeth de Araújo, de 45, tinha o costume de deixar a pequena brincar livremente com tinta guache. Durante uma viagem em família para Florianópolis, o ex-sogro dela, ao ver a cena, decidiu presentear Elizabeth com materiais para pintura em aquarela. Junto com as tintas, pinceis e cavaletes também veio o desafio de pintar uma árvore. Desde então, ela não parou mais de pintar, se especializou em retratos de pets e nas vivências de aquarela que se tornaram espaços terapêuticos para mulheres.
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“Até então eu não me imaginava uma artista. Ele, muito querido, me presenteou com a minha primeira paleta de aquarela e os pinceis e falou: eu te desafio a pintar essa árvore. A partir daquele dia não parei mais, estava de férias em Florianópolis. Até então nunca tinha pintado com aquarela, fui muito autodidata, pesquisando e fazendo. Como sou muito do manual, sou só fazer, aprender fazendo. Dediquei bastante a aquarela, depois fui para o lápis de cor”.
Quando veio a pandemia da covid-19, Elizabeth viu a rotina desacelerar pela primeira vez em anos. “Eu trabalhava muito, era muito corrido para mim e, de repente, me vi com tempo, porque até então não tinha tempo para nada. Tive tempo para pintar e criar”, conta. Nesse período, passou a imprimir desenhos de animais para reproduzir e começou a publicar o processo nas redes sociais, onde o trabalho ganhou repercussão.
Pouco depois, decidiu aprender a técnica de retratos em aquarela. “Foi tudo muito rápido, aprendi a fazer os retratos e parei de fazer os desenhos que eu imprimia, porque não sentia que eram obras minhas.”
As primeiras encomendas vieram em seguida, impulsionadas pela divulgação entre conhecidos. “Fiz para uma amiga minha e cresci rápido, porque ela começou a me divulgar”, lembra. Com o alcance das redes, os pedidos começaram a chegar de fora de Cuiabá. Nos retratos, o cuidado com o olhar dos animais virou marca do trabalho. “Tenho essa coisa com o olhar do animal. A pessoa via o pet no desenho e isso era muito legal.”
O crescimento levou Elizabeth a tentar viver exclusivamente da arte durante o período em que morou na Itália, onde encontrou uma realidade diferente. “Achei que ia vender muito lá, porque eles têm muito apego aos animais, mas o italiano não gasta dinheiro como o brasileiro.” Sem a saída que esperava, voltou a trabalhar como cabeleireira, profissão que, segundo ela, tem alta valorização no país. “Tive que voltar com toda a força para o cabelo”, diz. Nesse intervalo, a produção artística acabou ficando em segundo plano.
Vivências como espaço terapêutico
As vivências começaram na Itália, onde ela morou entre 2021 e 2024, período em que a arte ganhou outro sentido na rotina. Mesmo sem conseguir transformar a pintura em principal fonte de renda, foi ali que começaram as vivências que hoje levam sua assinatura. Em um trabalho voluntário com a comunidade Bahá’í, ela passou a reunir pessoas para pintar em encontros ao ar livre.
“Nesse meio tempo na Itália fiz um trabalho voluntário com a arte para a comunidade bahá'í, fazia as vivências de aquarela, eu brincava que eu ensinava aquarela e eles me ensinavam italiano. Nessas vivências foi muito interessante ver o que a arte leva para as pessoas, a conexão, a presença e o brilho no olhar de cada um ao verem os desenhos prontos. Quando voltei para Cuiabá, trouxe essa experiência da vivência também. Foi como se eu mudasse um pouco o foco, porque eu trabalhava muito com os retratos de animais”
De volta a Cuiabá, ela retomou o trabalho no salão de beleza, já que as clientes voltaram a procurá-la e, em meio a mudanças pessoais — entre elas o divórcio —, decidiu se firmar novamente na profissão que já era reconhecida. “Voltei para o cabelo, porque é o que eu domino aqui em Cuiabá, é o que já sou conhecida”, diz.
A arte, no entanto, não ficou de lado e ela passou organizar turmas de aquarela em um curso com encontros semanais. As aulas acontecem em grupo, em um ambiente mais livre, com vinho, conversa e prática. “Montei um curso que ensina as principais técnicas de aquarela e depois dou continuidade com os desenhos. É maravilhoso, porque quando as mulheres se unem para criar, nasce uma coisa fantástica.”
O trabalho, que sempre esteve voltado ao público feminino no salão, ganhou outra dimensão nas vivências. Segundo ela, os encontros se tornaram também um espaço de escuta. “Tenho isso muito forte em mim, desde o salão. Nas aulas também tem esse espaço, a amizade floresce, a conexão se fortalece”, afirma. Com o tempo, as participantes criam vínculos e passam a esperar pelos encontros semanais.
Para Elizabeth, a arte atravessa essas experiências de forma prática. “Sem falar que isso tudo é muito terapêutico”, resume. Em sala, não é raro que as histórias pessoais apareçam junto com os desenhos. Ela lembra de uma aluna que se emocionou ao pintar pela primeira vez. “Ela falou que sempre teve vontade, mas o pai não deixava, rasgava as folhas. Você vê que mexe em coisas lá de trás.”
Ao reunir mulheres em torno da criação, Elizabeth vê surgir um ambiente de troca que vai além da técnica. “Quando a gente se reúne existe esse espaço da escuta. Amizades entre mulheres é uma forma de terapia”, diz.