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Por trás das câmeras: Conheça Ana Rafaela, a caçula que encantou o Brasil na primeira edição do The Voice

Da Redação - Stéfanie Medeiros

04 Nov 2013 - 16:26

Foto: Reprodução

Ana Rafaela cantando no The Voice Brasil

Ana Rafaela cantando no The Voice Brasil

De short jeans e blusa vermelha, os modos informais e caseiros contrastavam com a Ana Rafaela que encantou o Brasil na primeira edição do programa The Voice. A mãe molhava as plantas do quintal da frente enquanto a filha, apressada, correu até os quartos no final do corredor para trocar de blusa.

A sala espaçosa com sofás vermelhos tinha as paredes decoradas com quadros de ruas antigas e emblemáticas de Cuiabá. Na televisão de tela plana, a clássica novela “O cravo e a rosa” como som ambiente. E usando agora uma blusa com rendas brancas e lantejoulas espalhadas pelo tecido, Ana Rafaela Oliveira sentou-se no sofá, sem, no entanto, parar um segundo.

Ao falar, as mãos acompanham a voz com gestos teatrais. Quando não se lembra de uma música, Ana canta os trechos do mesmo jeito que faz em palco, deslumbrando a plateia.

A queridinha do primeiro The Voice, a candidata mais nova que chegou até as semifinais começou sua trajetória musical com grande influência do pai. Quando chegava da escola, ele colocava discos de vinil infantis para tocar, no que Ana Rafaela, com apenas quatro anos, acompanhava.

Um ano mais tarde, depois de a avó ter concluído um curso de informática, elas estavam em um auditório da Tv Centro América. A mãe então conversou com um dos produtores para que Ana pudesse cantar no palco. Depois de ter concordado, Ana cantou pela primeira vez para o público a música “Maria Maria”, em homenagem a avó, a mesma música que a fez ser aprovada na pré-seleção do programa The Voice.

Na escola, certo dia, a professora gravou os alunos cantando. Ana, como ela disse, “ficou louca com aquilo”. Gostava de participar, “se aparecer”, produzir e sempre de cantar. Sempre foi assim. Ana não consegue lembrar muito bem quando começou porque talvez tenha começado antes mesmo de ela conseguir se lembrar das coisas.
Às vezes, alguns de seus projetos começaram tão cedo que Ana não consegue lembrar datas, a idade que tinha e detalhes do que aconteceu. Nestes casos, Ana grita uma pergunta para a mãe através da janela. A mãe, ainda molhando plantas no quintal, responde com maior precisão e mesmo com uma parede de distância bloqueando a visão e diminuindo a intensidade da voz, se percebe o orgulho que sente da filha.

Tanto a infância, quanto a adolescência de Ana foram marcadas por apresentações na escola, peças, musicais, coral e teatro. A jovem aspirante queria sempre participar, dar opiniões, estar envolvida na produção. Aos 11 anos, adaptou um livro infanto-juvenil sobre uma sereia para apresentar na escola. Ao se lembrar disto, os olhos de Ana brilham e ela se lembra das falas que escreveu, dos cenários que planejou, nas roupas que ajudou a escolher.

Na mesma época, por meio de um primo, Ana entrou em um coral de crianças no Espaço Cubo. Foi então que seu envolvimento com a música ficou mais sério, profissional. A lembrança mais marcante que Ana tem dos ensaios é o ambiente decorado com folhas de gibis em todas as paredes. Por meio deste coral, ela entrou em contato com cantores com Noel Rosa, Ivan Lins, Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Gonzaguinha, dentre outros. O CD gravado pelo coral, inclusive, tem na primeira faixa Ana cantando a música “filosofia”, de Noel Rosa.

E então, Ana Rafaela passou a estudar na Escola Livre Porto Cuiabá. Para aqueles que não conhecem, esta escola possui pedagogia Waldorf, um tanto quanto diferenciada das outras, e tem grande foco no desenvolvimento artístico dos alunos. Antes de as aulas começarem de manhã, por exemplo, os estudantes de cada sala reúnem-se no pátio, na quadra ou no “grande quintal” para fazer o ritmo da manhã, uma série de exercícios lúdicos que envolvem cantos, poemas e movimentos com o corpo.



Lá, os alunos não recebem notas, mas avaliações por escrito com base no comportamento e desempenho, não focando apenas em uma prova ou outra, que também são raras. Com colegas extremamente musicais, Ana Rafaela se encontrou um pouco mais. Com os amigos, planejava e sugeria ritmos da manhã, preparava musicas e, na sétima série, foi a vez de sua sala apresentar o teatro “A flauta mágica”, de Mozart.

Paralelamente, fez o papel de Narizinho em uma peça da escola de música Sol Maior. Depois, no musical “Desculpa ae”, da mesma instituição, Ana interpretou seis personagens: Shakira, Rita Baiana, Bela, Lady Gaga, uma integrante de As frenéticas e um fã dos Beatles.

O ritmo frenético da vida da jovem, no entanto, não parava ai. Ana queria e ainda quer se aperfeiçoar no canto, ganhar experiência e polir o seu talento. Para isto, desde o ensino fundamental faz alguns cursos de música oferecidos em vários lugares, como por exemplo no Sesc Arsenal. Com estes cursos, Ana começou a perceber que realmente tinha algo em mão, pois seus professores e tutores a incentivavam a ir em frente, porque, segundo eles, Ana tem futuro com a música. “E eles não falavam isso pra todo mundo. Era para um ou outro”, disse Ana.

E enquanto crescia tanto nos cursos quanto na escola, Ana teve, ao mesmo tempo, que se preocupar com o vestibular. Para isto, mudou-se para o São Gonçalo, onde estudou todo o ensino médio.

Show de talentos e The Voice

Em 2010, mesmo com a nova rotina mais rígida de estudos, Ana não deixou a escola de música Sol Maior, o grupo espírita de teatro Juventude Ativa e os recitais com a orquestra Sexta Sinfônica. Mas também não perdeu a oportunidade de incorporar seu “eu” artístico na nova escola.

Ana participou do show de talentos do São Gonçalo nos três anos no ensino médio, mas em 2010 teve uma homenagem da escola. Depois de encantar, como sempre, os alunos e professores cantando a música “Angel”, Ana teve o vídeo que foi gravado desta apresentação postado na página inicial do site da escola.

Foram mais de 30 apresentações, milhares de alunos vendo e professores assistindo. E somente a apresentação de Ana ganhou um espaço no site. Naquela época, isso era grande coisa. Ou era apenas uma pequena coisa que significou muito.



Dois anos depois, Ana estava tentando ligar para a mãe a cobrar quando o professor de inglês José Nerone chegou e disse: “Ana, quase fiz sua inscrição pra você sem você saber”. “Inscrição pra que?”, perguntou Ana, deixando a ligação de lado. O professor então explicou sobre The Voice, um programa que procurava novos talentos, mas que, no entanto, precisava que o candidato tivesse 18 anos ou mais. Na época, Ana tinha apenas 17. “Mas eu já vou fazer 18”, foi o que disse ao professor José. “Então você devia se arriscar”, ele completou, incentivando-a a procurar saber mais sobre o programa.

Depois de muito conversar com a mãe, resolveu ir atrás quando ela disse: “O que você tem a perder?”. Ana não tinha nada a perder, só a ganhar. O seu perfeccionismo e conhecimentos adquiridos com o teatro, produção e música, no entanto, exigiam um vídeo de inscrição bem feito.

Ana escreveu suas falas, ensaiou, pensou na postura, na roupa, na maquiagem, no violão que iria usar, na estética do vídeo. Em resumo, não queria algo amador, desejava um vídeo que refletisse sua personalidade, mas que também transbordasse com seu conhecimento técnico. O amigo de seu primo Dilmar Portilho tinha uma produtora. Fazendo uma parceria, Ana gravou um vídeo com eles em uma sala de música, valorizando o som e a estética.



Ana deixou para se inscrever na última hora, mas mesmo assim, foi pré-selecionada. Passou pelos jurados e foi em uma entrevista que ficou sabendo ser a candidata mais nova. E então, conheceu alguns candidatos. Alguns já tinha CDs, outros já tinha se apresentado no Japão, um tinha cantado com Ana Carolina. Parecia que Ana, além de ser a mais nova, era a menos experiente.

E então, se deparou com Ellen Oléria. Ana já conhecia e admirava o trabalho de Ellen, mas quando soube que ela estava no The Voice, ficou com sentimentos mistos. O primeiro dizia que esta era uma oportunidade sem igual e que estar no mesmo lugar que Ellen já era muita coisa.

O outro lado tinha certeza que Ana não estava lá para ganhar o programa. Refletia que, sendo de uma capital relativamente pequena e pouco estruturada no quesito artístico, teria uma torcida menor. Neste aspecto, estava errada, mas Ana aceitou o fato de que não estava ali para ganhar e sim para aprender.

E Ana não consegue expressar direito o que foi cantar para Ed Motta, seu ídolo, ou ter Cláudia Leite como técnica e, mais tarde, como parceira em algumas apresentações. E ao longo do programa, Ana ganhou uma torcida grande e fiel. Chegou às semifinais, venceu o duelo e aprendeu a valorizar o estilo próprio na hora de cantar, um dos conselhos do tão admirado Ed Motta.

Além disso, aprendeu a diferença de assistir e se estar na televisão. Estar no meio de pessoas consideradas famosas não podia causar frenesi. Ana aprendeu a estar no meio daquele talento todo de forma natural. Incorporou-se no ambiente de um jeito muito próprio, sem deixar de fora o que era somente seu.

Depois do programa, muitas pessoas passaram a acompanhá-la. No facebook, é seguida por 15.962 pessoas. Tem um fã clube e passou a receber várias perguntas de admiradores. Algumas normais, outras um pouco estranhas. Muitos queriam saber se a Cláudia Leite era mesmo bonita pessoalmente e, assumindo que a jovem cuiabana havia se tornado amiga íntima da cantora, pediam para que Ana levasse recados a ela.

Mas apesar de não ter intimidade, Ana não perdeu completamente o contato com sua técnica ou com outros cantores. No show de Cláudia Leite em Cuiabá no último 26 de outubro, Ana se reencontrou com a cantora. Cantaram juntas no palco e conversaram nos bastidores.

Sobre o show, Ana depois escreveu no facebook: “A minha semana se transformou depois que encontrei você ! Obrigada por me lembrar que eu devo dizer ‘sim’ aos meu menores e maiores sonhos. Te admiro demais”.

E é isto que Ana quer: todos os seus sonhos, pequenos ou grandes.

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