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Quarta-feira, 30 de setembro de 2020

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Misturando circo, teatro e dança, espetáculo mostra as dificuldades do viajante

Da Redação - Isabela Mercuri

07 Mai 2014 - 15:15

Foto: Reprodução

Imagem do Espetáculo

Imagem do Espetáculo

Um espetáculo de circo, coreografado com passos de dança e baseado em um roteiro teatral. Ou uma peça de teatro, embalada por movimentos de circo e com um toque de dança. Ou ainda uma coreografia, com enredo de teatro e passos de circo. O espetáculo que aconteceu nesta terça-feira (06) no Cine Teatro de Cuiabá, “Homens de Solas de Vento”, era uma mistura linda.

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Com dois atores no palco, a história foi contada sem que houvesse nenhuma fala. Na trilha sonora, “pingos” pontuavam os movimentos corporais e guiavam as ações em cena.

O roteiro era simples, com uma mensagem forte. Dois viajantes tentavam sair de seus países de origem, mas eram impedidos pela segurança do aeroporto / estação. A partir daí, ficavam presos em um local, um ao lado do outro. Para passar o tempo, o que cada um tinha em sua mala de viagem era fonte de improviso.

Os dois personagens passaram a maior parte da peça suspensos. Em cada canto do palco, suas maletas de viagem serviram como plataforma aérea, onde eles sentavam, deitavam e faziam acrobacias. Um deles retirou de dentro da maleta uma rede, e a utilizava como tecido, fazendo os movimentos de circo enquanto – no roteiro teatral – lia um livro, dormia, limpava os pés.

O outro personagem tinha em sua maleta vários retalhos. Ele amarrou os retalhos entre si, formando duas cordas separadas e, na ponta das duas, colocou uma vassoura. Estava pronto seu trapézio.

No decorrer da história, os personagens tinham que levantar-se e mostrar seus documentos às autoridades a cada vez que a sirene tocava, e a luz vermelha piscava. O tratamento dado a cada um era claramente diferenciado e, segundo o que o ator Ricardo Rodrigues contou no bate-papo após a peça, aquilo era uma forma de mostrar “o que é ser negro e o que é ser branco. O que é ser latino e o que é ser europeu.”

O relacionamento entre os dois personagens também era interessante. O personagem de Ricardo era muito mais aberto e sociável no início. Apesar de se esconder quando comia algo, e ter uma mania de limpeza com seus pés, era ele quem tentava contato com o personagem do outro ator, Bruno Rudolf.

Em certo momento da peça, os dois se aproximaram e ensaiaram um cumprimento. Neste momento foi mostrada a veia coreografada do espetáculo. Quando ambos se tornaram amigos, e estavam comendo e bebendo juntos, a sirene tocou pela última vez, e o personagem de Ricardo foi levado para inspeção. Ele foi humilhado e espancado pelos oficiais, e voltou para a sala totalmente diferente.

Sem querer conversar com o colega viajante, e com ódio em sua expressão facial, ele provocou uma briga entre os dois. Eles giraram o palco brigando, e todos os movimentos eram milimetricamente coreografados e dançados.

Por fim, aconteceu a “hibridação” (nome dado pelos atores da peça): os dois personagens se entenderam, e passaram a fazer tudo juntos, até se tornarem um só. Quando liam, era a mão de um que virava a página, e a perna do outro que dava apoio ao livro. Quando meditavam, a mão de um estava sobre o joelho do outro. Dessa forma, o espetáculo terminou. Com os dois juntos em um corpo só.

Sobre a Cia Solas de Ventos

A Cia Solas de Ventos é formada apenas pelos dois atores, e tem esse espetáculo desde 2007. Bruno Rudolf é francês, vive no Brasil há treze anos e disse que ao fazer este espetáculo, colocou muito de sua experiência aduaneira no personagem. Ricardo viveu uma experiência ruim quando foi viajar à Colômbia e fez escala nos Estados Unidos. Em terras norte-americanas, teve que esperar três horas dentro de uma sala apenas com água e bolacha, até embarcar no outro vôo. 

A temática da peça remete a uma situação que pode acontecer com qualquer viajante. No Brasil, é fácil encontrar alguém com uma história de alfândega para contar. Eu mesma, quando estava viajando para Paris, fui parada no aeroporto de Amsterdã e tive que ir para uma fila “especial”. Nessa fila, somente mulheres brasileiras esperavam para conversar com os oficiais, e tentar provar que não queriam ficar ilegalmente na Europa.

Naquele dia me peguei pensando em algo que, da mesma forma, ontem eu também pensei. Quais são os critérios dessa polícia que só desconfia dos negros, das mulheres, e principalmente das mulheres latino-americanas? O espetáculo “Homens de Solas de Ventos”, além de ser esteticamente lindo, vale pelo que desperta no espectador.

Serviço

O espetáculo faz parte do projeto do Sesc “Palco Giratório”, que acontece de terça a domingo até o final de maio. Para saber mais e ver a programação, clique AQUI.

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