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Conhece-te a ti mesmo: A Copa do Mundo como afirmação do desgosto

Da Redação - Arthur Santos da Silva

03 Jun 2014 - 08:55

Foto: Reprodução

Conhece-te a ti mesmo: A Copa do Mundo como afirmação do desgosto
Historicamente, a Copa do Mundo de Futebol é o maior evento, já organizado, de uma única modalidade esportiva. Com uma dimensão descomunal, o torneio é capaz de despertar sensações de unidade e paixão. Sem qualquer explicação, de quatro em quatro anos uma simples camisa amarela ganha destaque, reunindo os espíritos diversos em um único cosmo embasbacado. Criada em 1928 na França, sob a liderança do presidente da Federação Internacional de Futebol Associado, Jules Rimet, a Copa possui a fama de trazer efeitos positivos para o crescimento e desenvolvimento do país sede. Claramente uma reputação sem nexo, que serve para afirmar uma filosofia do desgosto.

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Em Cuiabá, por exemplo, a expectativa era obter uma modernização estrutural que alcançasse toda a cidade. O planejamento previa projetos que beneficiassem variados cantos da capital Mato Grossense, nivelando, em um patamar positivo, questões que incomodavam a maioria da população. Assim, a tão desejada mobilidade urbana seria prioridade. O problema é que às vésperas dos jogos notamos apenas toneladas de concreto - sem vácuo, mas também sem vida - em forma de viadutos. As ruas, antes estreitas, agora sofrem descaracterizadas. Cuiabá tem o jeito de um corpo mutilado e a responsabilidade é geral.



Ao olharmos nossa cidade parece até que sentimos uma dificuldade insuperável de pensar e viver. É por isso que, quando não recorremos a formulações míticas, nos perdemos em uma aflição descontrolada. Acredito que existimos em um tempo sujeito de uma formação universal, desprovido, porém, de estilo e opinião. Escondemo-nos atrás do progresso e nos sujeitamos a este valor. Duramos em constante estado de submissão. Por pura preguiça, não cultivamos a individualidade e o espírito próprio. Faltam originalidade e liberdade de pensar por si mesmo, sobra o conforto da inércia cotidiana.

Quando a proposta foi feita, agarramos a ocasião com extremo afeto. A Copa tornou-se nossa e a alegria foi disseminada. Era à hora de progredir na busca do bem estar ideal. Teríamos jogos e desenvolvimento. A oportunidade do evento trouxe a perspectiva de nos assemelharmos às maiores e melhores cidades do mundo. Estádios novos, viadutos, pontes, ruas largas e elevados imponentes. A beleza e a modernidade europeia seriam transpostas, como que por mágica, para a realidade quente de Cuiabá. Porém, se pensássemos racionalmente, desde o início a chance de tudo dar certo inexistia.


Foto: Edson Rodrigues

Essas esperanças da Copa eram apenas os sintomas da nossa decadência infinita. Ao não aceitarmos a profundidade da vida e suas diferenças (refletindo sobre isto), nos agarramos a uma filosofia do desgosto, sobrevivendo pelas sobras do que foi previamente pensado por outros. O mundial de futebol nos trouxe a miragem do civilizado e do desenvolvido. Um engano de quem prefere a moral ao invés da estética. Escolha de pessoas incompletas, preguiçosas e inseguras. Questiono se este planejamento realmente seguiu os interesses de Cuiabá. A meu ver, apenas um reflexo entorpecido de conceitos determinantes. A ignorância se sobrepôs a necessidade e o autoconhecimento – no sentido das precisões - mais uma vez foi esquecido. As obras perderam a significação e nos sobrou a amargura.

A origem dos quereres humanos, como impulso insaciável, deve ser guiada por meio de uma vida prudente preenchida por reflexões sensíveis. Somos homens da cultura e temos como fim as nossas representações. Seguir uma convenção, mesmo que seja para demonstrar erudição, é besteira. É a tradição o objeto a submeter-se ao homem, não o inverso. Discorrendo assim imagino como seria a Copa do Mundo para os pensadores pré-socráticos. Homens solitários, plenos, livres dos compromissos idealizados e que viviam apenas pelo conhecimento. Certamente a bola não produziria tanto encantamento e a verdade seria outro. Tales, por exemplo, mesmo sem o futebol, parece-me um homem que viveu satisfeito.

P.S.: Reitero minha ojeriza a conceitos como progresso, civilização e desenvolvimento.


*Arthur Santos da Silva é formado em história pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atualmente, cursa jornalismo na mesma instituição e trabalha no Olhar Jurídico. Email para contato: arthur.santos.1213@gmail.com


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