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Escritora e jornalista cuiabana conta suas experiências europeias em notas de viagem na coluna "H"

Da Redação

09 Mai 2015 - 17:30

Foto: Reprodução / Stéfanie Medeiros

Escritora e jornalista cuiabana conta suas experiências europeias em notas de viagem na coluna
Há cerca de uma semana, a escritora e jornalista cuiabana Stéfanie Medeiros começou uma nova aventura ao mudar de ares e começar uma temporada na Europa. Inspirada por suas referências literárias e pelas maravilhas de passar pelos mesmos lugares que suas grandes inspirações, rodeada de cafés, pessoas e lugares diferentes, ela começou um diário virtual.

Suas notas de viagem voltaram para a coluna que ela já possuiu no Olhar Conceito, " Caderno H", e começam a ser publicadas todos os domingos neste portal.

Abaixo, as notas dos primeiros quatro dias de viagem para que o leitor tenha uma noção do que Stéfanie viveu até agora, antes que a primeira coluna oficial entre no ar neste domingo (10):  

Leia mais:



Notas de viagem (Primeiro dia: 2 de maio de 2015, Do Brasil para Heidelberg, Alemanha)

- Não importa a nacionalidade, bebês e crianças histéricas são irritantes em qualquer língua.

- Pessoas que não comem, não tomam água, não vão ao banheiro e não se levantam em um vôo de 10 horas: aliens.

- Enquanto eu achava ruim pegar ônibus pra ir da minha casa ao centro de Cuiabá ( o que a pé da meia hora, no máximo), um capitão de uma plataforma de sonda pega um avião duas vezes por mês, todo mês, da Croácia para o Brasil. Todo mês!



- Desde quando “water” quer dizer água com gás?!

- verão na Alemanha: RISOS (vento tão gelado que não da pra ficar lá fora muito tempo. Coloquei duas calças, porque não dá).

- Se não fosse o hambúrguer com gosto de nada e a água com gás do mc donalds, acho que eu tinha desmaiado no meio do aeroporto (nota pra família: leve exagero para fins dramáticos. Está tudo bem, gente)



- Todos os atendentes alemães se parecem com uma versão mais nova do Leonardo DiCaprio? Até onde a pesquisas puderam apurar, a resposta é “sim”.

- Quantas voltas eu dei no terminal 2 do aeroporto de Frankfur? Algo entre 5 e o infinito.



- Depois de 21 horas de viagem, meu corpo ficou tão anestesiado que não consigo distinguir as emoções.

Notas de viagem (Segundo dia: 3 de maio de 2013, Heidelberg, Alemanha)

- Liberdade, na real mesmo, é a liberdade de poder andar por ruas históricas em um centro medieval durante a madrugada, com as luzes *daquele jeito* e uma garoa, sem medo de ser feliz.



- Por que as cidades são mais bonitas em uma noite fria?

- Sem explicação: Quando estamos olhando uma torre no jardim inglês de uma parte da universidade, e de repente aparecem umas bolinhas de luz no céu. Pareciam bolhas luminosas dando voltas na torre do relógio. Podiam ser mini-balões. Muito esquisito. E muito, muito bonito (Não fumamos, nem bebemos nada, by the way).



- Enquanto eu estou sentada empacotada com um milhão de roupas, o rapaz ali passa correndo com um short e as longas pernas à mostra. Explicação: Estamos na primavera, né, querida.

- Um cookie grande e um cappuccino com creme: Dois euros.

- Bandejão da universidade de Heidelberg: Restaurante refinado no Brasil.



- Notinha da universidade de Heidelberg em 2014: Parabéns, professor Stefan Hell, pelo seu prêmio Nobel de química. Beijos. http://www.uni-heidelberg.de/presse/meldungen/2014/m20141008_universitaet-heidelberg-congratulates-stefan-hell-on-the-nobel-prize-in-chemistry.html

- Pesado: Circulo em uma praça “X” onde os nazistas queimaram os livros proibidos durante a segunda guerra mundial. A fogueira de Heidelberg, por ser uma cidade universitária, foi particularmente grande.

- História do dia: Elizabeth Stuart, filha de monarcas ingleses, precisava “ser casada”. Depois de vários candidatos serem considerados para o cargo de marido, o escolhido foi Friedrich V, de Heidelberg, Alemanha. Por sorte (porque ser da monarquia poderosíssima dessa época não bastava), os dois se apaixonaram. Então, unindo o útil ao agradável, casaram-se. Tiveram treze filhos. Viveram juntos até a velhice. Logo depois do casamento, para que Elizabeth não sentisse falta de casa, Friedrich mandou construir um jardim inglês no castelo (lindíssimo, aliás). Pessoas que já andaram nesse jardim: Goethe, Schiller, dentre outros. Pois bem, no aniversário de Elizabeth em 1615, há exatos 400 anos, Friedrich esperou sua esposa ir dormir e, durante a madrugada, mandou construir um portal. No dia seguinte, quando Elizabeth acordou, lá estava o portal com os seguintes dizeres: “Friedrich V para Elizabeth, cara cônjuge, 1615”. Chorei litros com esse conto de fadas da vida real. Outra coisa: não aceito mais presentes atrasados.



- Reflexão sobre sorte e aleatoriedade: Enquanto alguns nascem em Cuiabá, outros moram em uma mansão *acima* do castelo de Heidelberg (que antes tinha que ser a construção na parte mais alta da cidade e ponto. Hoje o colega ali do lado mora acima do rei).

- Projeto arquitetônico para quando eu chegar em casa: Fazer um puxadinho lá em casa e construir um jardim inglês igual o da Elizabeth Stuart, princesa da Alemanha.



- Ironia da vida: Até ano passado, eu nem sabia da existência de Heidelberg.

- Aprendi três palavras em Alemão até agora (mas não tenho coragem nem de falar “obrigada” para as pessoas. Felizmente, um sorriso e aceno de cabeça bastam).

Notas de viagem (Terceiro dia: 4 de maio de 2015, Heidelberg, Alemanha)

- Cena: Sentada em um banco nos jardins do castelo de Heidelberg, mesmo lugar por onde já passaram pessoas como Schiller e Goethe. Estou escrevendo um diário de viagem, quando paro por um momento e olho para frente. Do meu lado esquerdo, as ruínas do castelo. No meio, a cidade e o rio. Do lado direito, as montanhas. Atrás de mim, os jardins. Comecei a chorar do nada. Às vezes ver que a gente conseguiu o que queria é demais para o nosso emocional. Preparem o psicológico com antecedência.



- Eu me sinto adulta andando sozinha em outro país, um país com uma língua que eu não falo e cuja cultura conheço superficialmente? Definitivamente não. Parece que cai de pára-quedas nessas coisas. Ainda bem que as pessoas são educadas com a minha ignorância.

- Excursão escolar dos alunos do último ano do ensino médio alemão é o equivalente ao catálogo de modelos da São Paulo Fashion Week.

- Coisas para serem importadas: Ao lado de todos os bancos de um local com 715 anos de história, há uma lata de lixo. Em todos, sem exceção.



- Toda vez que vejo um corvo passando (e aqui tem muitos), penso que Edgar Allan Poe vai sair trançando as pernas de algum beco.

- Felicidade extrema: Ouvir os sinos do castelo.

- Felicidade surreal: Fazer o que você queria nos lugares que você queria.

- Para comemorar o calor de hoje (sério, gente, sem zoeira), comprei um sorvete e fui aprecia-lo no mirante da cidade. E aí veio aquela pergunta: "Brasil, pera, o que está acontecendo?"

- Uma coisa que eu amo na Europa: poder beber água da torneira.

- Segredinho sentimental: Não ajustei o relógio de pulso para sempre saber que horas são em casa.

- Teve arroz branco no almoço. O pessoal da universidade sentiu que meu estômago não se recuperou daquele currywrust.



- Comer em Heidelberg sem saber falar alemão é uma missão quase impossível.

- As pessoas fumam bastante por essas bandas.

- Uma dica que serve para a gastronomia e para a vida, Alemanha: Coloca açúcar no café, por favor.

- Ah, mais uma coisa: Pelo que entendi, é normal beber cerveja no bandejão da universidade em plena segunda-feira a tarde.



Notas de viagem (Quarto dia: 5 de maio de 2015, Heidelberg, Alemanha)

- Angústia: Toda hora escrevo uma notinha dessas no bloco de notas do celular. Mas se me pedirem para escrever um texto sobre esses dias, acho que fico três horas na frente do computador sem digitar nada que preste. Triste.



- Não consigo tirar a história da Elizabeth Stuart da cabeça. Assim que chegar em Paris vou procurar a biografia dela em inglês.

- Enquanto o Matheus estava na aula, fiquei em um café da universidade escrevendo. Quase cai dura quando colocaram um cd do Beirut pra tocar. Fiquei cantando em voz alta no café. E achado a vida linda.

- Só digo uma coisa para os amigos do Brasil: Está tocando "saco duro" em uma festa de Heidelberg. Sem brincadeira.

- Festa de estudante na Alemanha é equivalente aos deuses do olimpo virem receber as graças dos mortais. Acho um desrespeito essa distribuição desigual de beleza.

- Riesling: Vinho branco caríssimo no Brasil que aqui custa três euros. Amigos, olha: amigos! Acho que já comentei tudo o que tinha que comentar.

- O Matheus traz café da manhã pra mim todos os dias. Hoje foi pretzel de queijo e torta de morango. E café, claro.

- Uma delícia: Tomar chá no centro antigo da cidade e ouvir os sinos tocando nas igrejas. A vida ainda acontece nos cafés.



- Idiotice: Veio com o chá uns biscoitinhos cor de caramelo. Coloquei um inteiro na boca e descobri que eram cubos de açúcar. A essa altura já tinha bebido metade do chá. Pelo menos a outra metade ficou bem doce.

- Vou falando em inglês com todo mundo sem a menor preocupação do mundo. Até agora, não teve ninguém que não entendeu o que eu queria.

- Ontem encontrei uma raridade: Um alemão que mora aqui em Heidelberg e sabe falar português.

- É impressão minha ou os portugueses que moram aqui parecem com uma versão atualizada de Alvares de Azevedo?

- Ficar horas sentado em um café pensando na vida é normal aqui. Eu sou normal aqui.

- Outra coisa linda: Poder ir com computadores, celulares e tablets para qualquer lugar, a qualquer hora, sem medo de ser feliz.

- Fugir e se exilar são coisas diferentes. O primeiro é um ato de desespero. O segundo exige plena consciência do que você está fazendo (até mesmo das consequências que você pode não querer).

- A gente fala mais com os braços e a sobrancelha do que com a boca. Posso não entender o que as pessoas dizem, mas pelo gesto e expressão, dá pra saber o que elas querem. Engraçado isso, mas muito verdade.

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