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Domingo, 25 de outubro de 2020

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Um exímio conhecedor da música de ouvidos de fino trato: amor à bossa nova e ao jazz

Da Redação - Lidiane Barros

09 Jun 2013 - 17:46

Foto: Thalita Araujo

Dedilhava um violão com muita propriedade e gostava de cantar

Dedilhava um violão com muita propriedade e gostava de cantar

Marcos Coutinho sempre foi conhecido por seu bom gosto para música, pelos livros, por sua intelectualidade que beirava o descomunal: era difícil acompanhá-lo. Raciocínio rápido e rasteiro. Vez ou outra ele cantarolava um verso e me sabatinava: “sabe que música é essa”? Confesso que ficava um pouco tensa, com medo de desapontá-lo. Vez ou outra dava para acertar, mas o cara era uma verdadeira enciclopédia com conhecimento sobre tudo.

Bossa nova, MPB, jazz e blues: ouvidos de fino trato. Dedilhava um violão com muita propriedade e gostava de cantar. A única vez que o vi em ação, foi na quinta-feira passada no boteco do jornalista Dirceu Carlino. Foi só uma música “Só Tinha de Ser com Você”, de Tom Jobim, ao lado do tecladista Assis, o baterista Ferrinho e o trompetista e professor de Coutinho, Toni Maia.

“Fazia um tempo que não nos encontrávamos porque ele trabalhava muito, mas tinha uma aula marcada para a terça-feira em sua casa. Ele tinha muito potencial, além de ser um grande violonista. Já estava tirando uma música, é difícil acreditar”.

As aulas de trompete serviam para descontraí-lo. Era momento de trocar figurinhas com Toni. “Ele me mostrou certa vez um caderno da faculdade com letras de MPB. Falávamos sobre jazz, trocávamos CDs e DVDs. Teve um dia em que ele foi à livraria e voltou com a biografia do Louis Armstrong para me presentear”.

O proprietário do Chorinho, seo Marinho, se surpreendeu com a notícia da morte de Coutinho. “Ele nunca se desvirtuou dos clássicos, nunca esteve ligado a modismos. Um homem muito inteligente que cultuava a bossa nova e que vai fazer muita falta às rodas de choro”.

O tio, o seresteiro Zied Coutinho, realçou o amor de Coutinho ao repertório romântico e ao gosto pelas artes. “Ela cantava, tocava e viajava muito para consumir arte, seja no teatro, em musicais ou shows. Coutinho lia muito, respirava cultura”.

Além de consumi-la, mais recentemente com a criação do seu Olhar Conceito – dedicado inteiramente a noticiar a cultura – o diretor do Grupo Olhar Direto queria mais, queria de fato contribuir para a produção artística. Na semana passada em conversa com o produtor cultural Mario Olimpio, começou a confabular, tinha planos.

“O Coutinho não estava satisfeito. Ele queria mexer as coisas e me procurou para gente fazer coisas na produção cultural. No ano passado já tínhamos feito o Vanguart de graça na Praça Santos Dumont. Ele era inquieto, provocativo, empreendedor. Na quarta-feira à noite conversamos em afinar as parcerias na produção cultural. Colocar o Olhar Direto em um outro nível de protagonismo. Ele vai fazer falta para a cultura cuiabana. Uma pena”, desabafa.

Ele estava entusiasmado em poder contribuir. De acordo com o cineasta e pesquisador do cinema, Luiz Borges, - morador de Chapada - ele estava abrindo um novo caminho para a produção de cultura. “A proposta era que as iniciativas não dependeriam do poder público. Ele já estava se consolidando como interlocutor entre os produtores culturais e a iniciativa privada. Uma perda sem igual. Sem contar, que Chapada perde um grande aliado. Foi ele quem começou a erguer a imagem da Chapada na mídia”.

O presidente da Associação Comercial de Chapada também concorda com Luiz. “Era um parceiro que incentivava as notícias boas”. Ele também sempre dava uma passada no Restaurante Pomodori. “Ele gostava muito do repertório, especialmente os embalados pelo jazz. Mas na mesa ele pouco ficava, estava sempre circulando, conversando, costurando coisas e projetos”. Só para ressaltar, em maio Chapada dos Guimarães foi palco do Blues Chapada, uma iniciativa da associação e do Grupo Olhar Direto.

Bate uma saudade da presença intensa dele e de todas as coisas que fiquei por aprender, mas foram poucos meses de convivência fervorosos que me servem como legado. De discussão de jornalismo, de cultura... Em casa, um amontoado de artigos e revistas que estão por ler... Ele sempre vinha com vários deles se virava para mim e dizia: "toma, você tem que ler". Não vou mais ler, vou devorá-los. Ainda tenho o que aprender.

A propósito, a foto acima foi tirada pela colega Thalita Araújo durante um happy hour de jornalistas do Olhar Direto. A presença esfuziante de Coutinho sempre se sobrepunha. Fica um vazio, mas brindemos a ele. Tenho certeza que iria gostar!

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