Olhar Conceito

Segunda-feira, 21 de junho de 2021

Colunas

Em nome do trabalho...

Autor: Isolda Risso

09 Jul 2015 - 14:05

Arquivo Pessoal

Não faz muito tempo me peguei tendo uma atitude que me deixou envergonhada. Era um daqueles dias que para cumprir a agenda o dia teria que ter pelo menos mais cinco horas. No dia anterior eu já havia remanejado alguns compromissos do tipo: remarcar dentista, adiar o retoque da raiz do cabelo, e a lista do supermercado definitivamente ficaria para quando Deus desse bom tempo ou a fome apertasse.

Era início da tarde e o celular toca...

“Alô”!
“Isolda”?
“”Sim”!
“Isolda é X, menina faz tanto tempo que procuro seu número, perguntava para um, para outro e ninguém sabia, até que encontrei seu irmão na exposição e ele me passou. Que alegria poder falar com você. Sinto tantas saudades daqueles nossos papos”.

Já que não consegui associar o nome à pessoa, busquei na memória auditiva de quem seria aquela voz. Sem resultado, não escapei da constrangedora pergunta: “X, X de onde”?

Na tentativa de diminuir o desconforto, falei em tom de brincadeira: “sabe como é, a idade chega e a memória se compromete”.
Do outro lado da linha ouço uma risada e ela fala: “tem perigo não, faz tempo mesmo que a gente não se vê e passou a comentar situações, aí não demorou e a imagem de seu rosto se descortinou para mim”.

“Ahhhhh ... sim... como você está? Que surpresa”...

A partir de então a conversa se estabeleceu, ela narrava sobre sua vida e questionava sobre a minha. Aquele tipo de prosa de quem não se vê há muito tempo. Casamento, filhos, pai, mãe, trabalho, fatos alegres, tristes, enfim...

A conversa foi se estendendo e eu ficando cada vez mais tensa, afinal tinha tanta, mas tanta coisa a fazer, que ficar de papo no celular aquela hora era tudo o que eu não queria. Dei um jeito de encurtar a prosa e de forma quase deseducada, me despedi.

Me envolvi novamente com os afazeres, mas uma voz ficou martelando na minha cabeça, uma voz de culpa e recriminação. Quanta falta de sensibilidade a minha, uma pessoa que fez parte da minha vida, uma amiga que por questões da vida nos separamos e agora em nome do trabalho eu não dei a atenção devida. Na verdade, acabei me privando de desfrutar de uma boa conversa e resgatar laços. Naquela noite fiquei refletindo sobre a forma que estamos vivendo.

A frase que mais escutamos é: estou na correria...

Nossos dias tem sido preenchidos com tantos afazeres, todo mundo correndo que fica inevitável não se perguntar: “estamos correndo atrás de algo ou estamos correndo do quê”?

Acreditamos que trabalhar, estar em contínua atividade, adquirir cada vez mais coisas é sinônimo de se amar, o que também não deixa de ser uma forma até necessária de se atender, mas por que será que a sensação de vazio tem aumentado entre a população? Alcançar estabilidade financeira, status ou poder não tem diminuído o desconforto emocional que assola a sociedade pós moderna.

O fato é que a forma como estamos conduzindo a vida tem nos tornado mais impacientes, estressados, solitários e cansados. A gente dorme e acorda mais cansado.

Em nome de pagar as contas estamos nos enjaulando em nós mesmos... o estrago provocado em decorrência desse comportamento ainda não sabemos. Nem os especialistas em comportamento sabem onde isso vai parar, com certeza em bom lugar que não é...

Comentários no Facebook

Redes Sociais

Sitevip Internet