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Sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

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Igreja da Boa Morte, Patrimônio Histórico de Cuiabá

Autor: Suelme E. Fernandes

15 Ago 2019 - 11:53

Na Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá no século XIX as práticas de cura e saúde embora existente eram bastante rudimentares e as pessoas estavam vulneráveis às inúmeras epidemias, febres terçãs e quartãs, malária, sífilis, cólera entre outras doenças tropicais. Esta situação fazia com que em Cuiabá e a colônia e o império convivesse com a sombra da morte. As pessoas buscavam garantias para ter um “bom descanso” na hora da morte como se dizia naqueles tempos. Temos assim motivos de sobra para existirem neste período 15 igrejas e capelas dedicadas a Nossa Senhora da Boa Morte em todo Brasil.

Há que se considerar que nesta sociedade católica havia uma fé inabalável na vida eterna e que o culto a Nossa Senhora da Boa Morte era um caminho seguro pra alcançar o reino do céu. Na devoção desta santa ocorre o chamado trânsito entre a morte física também chamada dormição e a assunção ao céu quando ela se torna Nossa Senhora da Glória. Segundo a tradição cristã falecer gera pavor apenas para aqueles pecadores que tinha uma vida desregrada e pecaminosa, mas não amedrontava as pessoas generosas e de fé, principalmente dos pertencentes as irmandades que já tinham “seu lugar garantido no céu junto a Maria”.

Como a taxa de mortalidade nas vilas portuguesas oitocentistas aumentava significativamente a partir dos 40 anosem diante, quando as pessoas se aproximavam dessa fase ou contraísse uma doença letal a família e a própria pessoa já começava os preparativos para ter uma boa morte. Era comum mandar fazer a mortalha, decidir sobre a quantidade de missas póstumas em sufrágio da alma, definir detalhes da missa (cânticos, velas, leituras bíblicas), fazer o testamento, pagar dívidas, pedir perdão de alguns pecados para a família além de deixar de sobreaviso o pároco para extrema unção.

Em Cuiabá, a Vila era cercada por 10 templos católicos entre o séc. XVIII e XIX. Essa igrejas eram definidas em alguns casos de acordo com a localidade, status social e político da comunidade: a matriz do Bom Jesus de Cuiabá era a igreja dos brancos; a igreja de São Benedito, dos negros e Nossa Senhora da Boa Morte a igreja dos pardos.

A igreja da Boa Morte foi inaugurada em 1810, nos documentos históricos apresenta a participação na Irmandade com 190 membros em 1826. Segundo o historiador Joaquim Murtinho essa irmandade foi criada para construir e zelar pela capela e teria como obrigação realizar a festa da santa todo dia 15 de agosto, dar assistência aos irmãos filiados e escolher seus membros que na sua fundação era exclusiva de pessoas da cor parda. Esta igreja teria surgido de uma cizânia destes fiéis pardos com os membros da Igreja Matriz de predominância branca originando a separação, pouco se sabe sobre este conflito.

Estas instituições tinham duplas dimensões: nas religiosa os chamados “compromissos” de irmandades definia as obrigações: acompanhar os enfermos nas residências, chamar o padre para extrema unção, preparar o corpo do defunto para o velório, destinar o túmulo para o enterro no cemitério da irmandade, oferecer o caixão, participar da missa de corpo presente, acompanhamento do féretro e encomendar as missas em sufrágio pós mortem. Na Bahia por exemplo, em Cachoeira do Recôncavo a irmandade era espaço para a afirmação religiosa africana e era formada apenas por mulheres que celebram até hoje a festa da Boa Morte de maneira sincrética numa mistura boa de manifestações do catolicismo e das religiões de matriz africana.

Na dimensão política, essas irmandades podiam também financiar as alforrias de escravos, apoiar as fugas para os quilombos e participar das lutas pela abolição da escravatura. Ainda não podemos afirmar através dos documentos que a irmandade de pardos de Cuiabá, apesar da presença negra endinheirada na irmandade, tinha as mesmas características, mas as possibilidades de semelhanças certamente existem. Estes sincretismos religiosos em Cuiabá foram pouco estudados ainda e podem revelar muitas circularidades culturais.

A igreja sofreu ao longo dos seus 209 anos de existência apenas três modestas restaurações: uma na década de 1960 na fachada e nave central, em 2006 pelo Estado de Mato Grosso que recuperou o telhado e por último em 2009 o IPHAN que fez alguns reparos pontuais, troca do reboco com reforço e correção de rachaduras e infiltrações, além de algumas reformas das instalações elétricas e hidráulicas, além da pintura geral. Esta é a única igreja tombada pela portaria 75/1987 de 22/04/1987 da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso que nunca sofreu uma restauração completa.

Assisti a missa de Nossa Senhora da Boa Morte na igreja nesse mês de agosto que ocorre todos os sábados as 6:30 da manhã, única oportunidade de visitações. A missa tinha pouquíssimos fiéis do lado de fora encontrei uma praça suja e abandonada, sem iluminação e segurança, um lugar ocupado por ambulantes, moradores de rua e durante o dia dominado por “flanelinhas” que controlam o estacionamento e até um lava jato clandestino que funciona no pátio da igreja.

Fui convidado para fazer uma apresentação a convite da Associação dos Amigos do Centro Histórico na I semana do Patrimônio Histórico de Cuiabá que se comemora no dia 17/08 e decidi falar sobre um bem tombado do centro, e escolhi esta igreja porque existem poucas pesquisas históricas sobre ela. Pra minha surpresa o dia da apresentação conhecidiu exatamente com a data de comemoração de Nossa Sra. da Boa Morte. E estou aqui como homem temente que sou prestando minha singela homenagem a santa e as múltiplas memórias que essa igreja representa na nossa história cultural e clamando por sua restauração urgente.

Convido a todos para participarem da minhapalestra juntamente com a Dra. Vanda da Silva no Espaço Cultural Casa Verde n. 715, na Praça da mandioca às 19hs: Cultura, religião e fé na irmandade dos pardos de Nossa Senhora da Boa Morte de Cuiabá no Séc. XIX.

*Suelme E. Fernandes é Mestre em História pela UFMT

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