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Aos 112 anos, Antônio Mulato terá ajuda de MT para ser reconhecido como “o mais velho do mundo”

Da Reportagem Local - Ronaldo Pacheco

19 Ago 2017 - 15:54

Foto: José Medeiros/Gcom

Antônio Mulato da Conceição teve 18 filhos, sendo 13 vivos, com 38  netos

Antônio Mulato da Conceição teve 18 filhos, sendo 13 vivos, com 38 netos

Símbolo da resistência quilombola em Mato Grosso, o ancião Antônio Benedito da Conceição, o popular Antônio Mulato, 112 anos, vai começar em poucos dias uma nova batalha: o reconhecimento como o homem mais velho do munto, pelo Guiness World Records – o Livro dos Recordes. Filho de escravos, ele é líder do quilombo Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento, sendo um dos mais respeitados do Brasil, considerado responsável direito pela conquista do direito à propriedade, onde hoje vivem mais de mil pessoas.
 
Além da busca do Guiness, Antônio Mulato da Conceição cobrou que os governos e as novas gerações lutem para preservar o Pantanal de Mato Grosso. Ele exige uma atenção  especial ao risco de extinção de um dos símbolos da região: a onça pintada. Mulato afirma que a onça não faz mal ao homem e que geralmente foge, ao avistar humanos.

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Desde a morte do polonês Yisrael Kristal, em Haifa (Israel), no último dia 11 de agosto, Antônio Mulato se tornou o homem mais velho do mundo. Yisrael era sobrevivente do Holocausto, vivia em Israel e tinha 113 anos – faltava um mês para completar 114 anos.
 
O governador José Pedro Taques (PSDB) e o secretário de Comunicação, jornalista Kleber Lima, anunciaram que o Governo de Mato Grosso vai ajudar a família Conceição na busca pelo reconhecimento do Guiness. “Sua parcela de contribuição para a história de Mato Grosso é gigante. Vendo o senhor Antônio Mulato [da Conceição], eu tenho orgulho de ser mato-grossense e muito mais ainda de ser negro”, afirmou Kleber Lima.
 
Antônio Benedito da Conceição nasceu em 12 de junho de 1905, e completou 112 anos há pouco mais de dois meses. Seus pais eram escravos libertos – nasceram na servidão e receberam a liberdade pela Lei Áurea – já na vida adulta, no final do século XIX.
 
O seu filho Eduardo Benedito da Conceição, 55 anos, o mais velho do segundo casamento, destacou a luta do pai em defesa das terras quilombolas e da educação. “Ele sempre defendeu ali [Mata Cavalo] como se fosse parte do seu corpo; como se fosse o seu próprio coração. Sem ele, certamente Mata Cavalo não existiria”, pontuou Eduardo Benedito.
 
Graças à luta de Antônio Mulato a maioria dos 13 filhos que ficaram vivos tem formação em nível superior. Manoel Irineu da Conceição, 90 anos, filho mais velho do primeiro casamento, é advogado. De sua descendência, além dos 13  flhos, tem 38 netos, 44 bisnetos,  29 tatarenetos e quatro trinetos. “E os números da família continuam crescendo”, declarou o neto Airton Conceição de Arruda, 50 anos, em tom de brincadeira.



Na década de 1940, Antônio Mulato conseguiu instalar, em Mata Cavalo, a primeira escola pública do Brasil em uma comunidade quilombola, sob forte resistência das elites dominantes. “Para mim não tem diferença: negro, branco, índio, mestiço, todos têm que estudar e se formar”, disse Antônio Mulato, para a reportagem do Olhar Direto, ao ser homenageado com o documentário Tipos Mato-Grossenses, em evento no Cine Teatro Cuiabá.
 
Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, em decorrência de sua defesa da terra quilombola, recebeu incontáveis ameaças de morte, por não aceitar deixar as terras que receberam da ‘sinhazinha’. Mesmo enfrentando Mal de Parkinson e Alzhaimer, Antônio Mulato ainda se lembra de fatos do século passado. E, para se “manter forte”, ainda toma um cálice de vinho por dia, antes do almoço.
 
Caso consiga ter seu nome inscrito no Guiness, como o mais velho do mundo, Antônio Mulato será o primeiro das Américas do Sul e Central e Caribe a conseguir tal façanha. Obtendo êxito ou não na empreitada, isso não faria qualquer diferença, para os que conhecem sua história de vida e resistência negra, inclusive sob risco de morrer, numa época em que toda igualdade era branca.

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