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Domingo, 25 de outubro de 2020

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Com filhos em casa e funcionários afastados, famílias se reorganizam nas funções domésticas

Da Redação - Isabela Mercuri

04 Abr 2020 - 07:50

Foto: Arquivo Pessoal

Natalia e os três filhos

Natalia e os três filhos

Três filhos, funcionária afastada, marido que continua trabalhando e projetos aguardando no home office. A rotina da arquiteta Natalia Pelissari Brandao Belisario, 35, não tem sido nada fácil desde o início da quarentena. A solução é fazer o que dá e, na medida do possível, organizar as atividades dentro da nova rotina.

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Os filhos de Natalia têm oito e seis anos, e a filha tem um ano e seis meses. O marido é engenheiro e, como as obras não pararam durante a quarentena, está seguindo a mesma carga horária de antes. O escritório da arquiteta está fechado, e os funcionários trabalhando de casa, o que lhe dá uma ajuda e tanto.
 
A escola suspendeu as aulas no último dia 23 de março, mas ela já estava com medo antes e, por isso, as crianças estão em casa há mais tempo. Foi no dia 23, também, que decidiu afastar sua funcionária de casa – mantendo o pagamento. Desde então, tudo mudou. “Está indo na medida do possível. Eles são muito pequenos ainda, então não conseguem ajudar muito”, contou ao Olhar Conceito. “Eu fico praticamente o dia inteiro arrumando casa e fazendo comida, porque eles comem o dia inteiro. Estão aqui presos, no meu prédio tem muito idoso, então não fico descendo... é o dia inteiro fazendo alguma coisa, na hora que dá”.
 
Com duas crianças e um bebê, a faxina mais ‘grossa’ só consegue ser feita de uma a duas vezes na semana. De resto, Natalia consegue varrer e fazer a comida – que também já não é mais tão elaborada quanto antes. “É o arroz e feijão mesmo”, conta. Para completar, os professores estão mandando tarefas a serem feitas em casa, o que também é impossível de completar todos os dias. O home office ficou para o sábado, quando marido está em casa e cuida das crianças. Este também é o dia de preparar algumas comidas que serão congeladas para a semana. “Mas tem muitas vezes, à noite, que eu estou exausta e falo, não vou fazer nada. Apelo para o delivery”, conta. “A gente tenta fazer nossa parte, porque temos que seguir o que os técnicos mandam... quem puder não sair de casa, não saia!”.
 
Menos dois

 
Quem também precisou se adaptar à nova realidade foi a empresária Aline Coutinho, 32. Ela, que tem uma filha e tinha em casa uma babá e uma faxineira, está sozinha desde o dia 20 de março, quando as dispensou. “As dispensei para a segurança delas e a de minha família. Continuei pagando porque sei o quanto faria falta para elas, principalmente nesse momento que é tão difícil! Inclusive adiantei os salários”, afirmou.

Aline e sua famíia (Foto: Arquivo Pessoal) 

Como o marido de Aline está em casa, ela ficou com as tarefas domésticas, enquanto ele fica com a criança. Mesmo assim, não está fácil. “Ficar sem a funcionária que cuidava da casa, ter que fazer os afazeres domésticos e ter que manter minha filha de 2 anos isolada, sem poder sair com ela do apartamento [é difícil]. Além de ter que fechar a minha empresa nesse período e dispensar (manter em casa) meus funcionários, sem a segurança de como iria honrar meus compromissos enquanto empresária”, lamenta.
 
A rotina fica ainda mais difícil quando o marido de Aline precisa de silêncio e concentração para manter o home office, mas, para ela, é também uma forma de aprendizado, apesar de acreditar que um ‘lockdowm’ muito longo seja impraticável e que trará estresse e ansiedade tão maléficos quando ser infectado pelo coronavírus. “É notório que esse período está fazendo com que as famílias aproveitem mais momentos juntos, sem todo o estresse do dia-a-dia, então isso tem sido muito bom para o desenvolvimento de nossa filha e da harmonia do nosso lar. Creio que aprendemos também a desacelerar um pouco, viver a vida com mais calma, sem tantos compromissos profissionais, sem tantas ligações de trabalho e mais prioridade para nós mesmos e nossa família”.
 
Uma família de empresários que mora em Cuiabá e tem casa em Rondonópolis também teve que mudar a rotina totalmente. Lá são cinco membros (pai, mãe, duas filhas e um genro), além de quatro cachorros (um poddle, um spitz, um west e um golden que já está com seus 40kg).
 
“Nessa quarentena dispensamos a funcionária que trabalha com os afazeres domésticos aqui de casa, e então dividimos o serviço da seguinte forma: Meu cunhado, que cozinha muito bem, ficou por conta do almoço. Minha irmã ficou cuidando dos cachorros, arrumando e limpando a bagunça deles. Minha mãe ficou por conta das roupas, pano de chão e de prato, que todo dia ela lava, além das calçadas. Eu fiquei encarregada de um pouco de tudo, ajudo na preparação do almoço e faço a janta às vezes... a louça dessas refeições são minhas, incluindo muitas panelas. Também ajudo na limpeza das calças e áreas de lazer”, conta a filha, que preferiu não se identificar.
 
Na casa, cada um cuida de seu quarto e banheiro. “Minha mãe sempre nos ensinou a fazer o serviço de casa, apesar de não precisarmos mais fazê-la há muito tempo.  Mas graças a esses ensinamentos conseguimos manter a casa limpa e organizada durante esse período de quarentena. Apesar de termos menos comodidade, estamos nos saindo bem, inclusive posso dizer que é uma boa maneira de ocupar a cabeça”.
 
A família, agora, está em Rondonópolis, onde iam somente aos finais de semana, e contavam com uma funcionária. Na casa de Cuiabá, onde trabalhavam duas pessoas, elas também estão dispensadas, em casa.
 
No último dia 16 de março, a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) e a Themis publicaram uma orientação para que trabalhadoras domésticas e diaristas sejam dispensadas até passar o período com risco de contaminação de coronavírus e, se isso não for possível, recebam Equipamento de Proteção Individual (EPI) destinado à proteção contra riscos de transmissão do vírus. A orientação é, ainda, que as diaristas e domésticas continuem sendo pagas, pelo tempo que for possível, para diminuir o prejuízo financeiro de suas famílias, que normalmente dependem deste dinheiro para sobreviver.
 
Na última segunda-feira (30), a juíza Ana Paula da Veiga Carlota Miranda, da 8ª Vara Cível de Cuiabá, determinou que um condomínio de luxo, localizado no Bairro Jardim das Américas, autorize a entrada de uma babá e uma empregada doméstica de um casal que mora no local. Os dois são empresários a atuam em uma das áreas essenciais à população, que não teve seu funcionamento suspenso em decorrência do coronavírus. 

Eles argumentam que por isso não podem trabalhar de casa e ficar com os dois filhos. A magistrada entendeu que em nenhum decreto foi proibida a atuação de babás ou empregadas domésticas, e que não cabe ao síndico impedir a entrada em unidades residenciais.

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