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20 contos que contam um conto

Inspirado por mochilão, escritor de Cuiabá comenta 1º livro sobre civilização Inca e dá dicas para começar a escrever

Da Redação - Naiara Leonor

30 Out 2016 - 15:19

Foto: Vinícius Rossetto

Inspirado por mochilão, escritor de Cuiabá comenta 1º livro sobre civilização Inca e dá dicas para começar a escrever
No último dia 18 de outubro, uma terça-feira, Santiago Santos fazia seu lançamento do primeiro livro “Na Eternidade Sempre é Domingo”. O lugar escolhido? Aquele que parece casa de vó pelo conforto que traz a alma, a sombra mais fresca para arteiros e toda a gente que valoriza a cultura, o ‘nosso’ Sesc Arsenal em Cuiabá. A obra lançada foi inspirada por um mochilão pela América do Sul, realizado entre fim de 2014 e início de 2015. Para a reportagem do Olhar Conceito, Santiago revelou na última quarta-feira (26) detalhes do livro novo, falou de projetos paralelos, colaboradores e deu dicas para quem deseja se arriscar no universo literário. O livro está à venda em livrarias de Cuiabá e pela Amazon, disponível também em formato e-book.

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Santiago Santos é natural de Blumenau, mas cresceu em Cuiabá. Há três anos publica contos, que ele chama de drops diários, dos mais variados temas em sua página “Flash Fiction”. O lançamento de “Na Eternidade Sempre é Domingo” marcou uma nova fase na carreira do escritor, que saiu da biblioteca virtual para as prateleiras reais.

Na altitude e atmosfera mística e milenar das terras incas, uma personagem viaja pela história em companhia de um guia local incomum, que fará tanto a própria personagem quanto o leitor, questionar o significado de realidade. “Tudo que lembramos é, em certa medida inventado.”.

Para contar sobre esse encontro de uma tarde, me inspiro no jeito Santiago de escrever e divido essa entrevista em pílulas de conversa. Flash’s compartilhados de experiência. Uma caixinha de drops sabor literatura.

#Pílula Um - Do pantanal as Cordilheiras: 20 contos que contam um conto

Precisamente, a saga inspiradora do “mochileiro das cordilheiras” Santiago Santos começou em 17 de dezembro de 2014 e teve seu fim físico em 02 de janeiro de 2015, passando por Santa cruz, La Paz, Cusco, Machu Picchu dentre outros lugares. Depois disso veio a viagem intelectual, foram cerca de oito meses de produção do livro, que finalizado tem 20 contos interconectados pela civilização Inca. 


O escritor Santiago Santos durante viagem a Machu Picchu

Segundo Santiago, a ideia inicial era absorver a viagem para contos desconexos a partir das fotografias, só depois veio o projeto do livro. Para chegar ao nível de profundidade e conexão com a cultura Inca, foi necessária extensa pesquisa historiográfica. “Eu li muita coisa, mas utilizei como base o livro ‘Comentários Reales de los Incas’ de 1609, escrito pelo Garcilaso de la Vega”.

Apesar de baseada numa civilização real, o autor enfatiza que é uma história de ficção. Questiono a semelhança com ‘Batalha do Apocalipse’ do brasileiro Eduardo Spohr pela mistura de pesquisa histórica com realidade, criação de um universo com base em fatos reais e por isso o encaixe do livro no gênero literatura fantástica talvez, e ele responde:

“Classificar ele num gênero foi bem complicado, o livro do Spohr fala de um universo religioso tido como real pelos que tem fé, partindo dele como real talvez haja mesmo semelhança com o meu livro, mas fiquei pensando na classificação porque quando fui registrar o livro precisava definir o gênero e ai pensei ‘será que é um livro de contos? Mas eles se interligam numa narrativa, então porque não seria novela? E tem pesquisa então será ficção histórica?’ Vieram até me dizer que era realismo mágico por conta dos personagens imortais, mas acho que não porque não são vistos como reais na história”. Ele ainda comenta sobre o gênero ‘Fixup’ do autor de ficção científica A. E. van Vogt, que funciona para unir contos que se passem nos mesmos ambientes, universos ou que tenham as mesmas personagens e que foram escritos de forma isolada.

Como não podia deixar de mencionar, a ilustração do livro é de Jean Fhilippe. O artista também é o criador do carimbo que personifica Nipi, usado por Santiago nas sessões de autógrafo e que foi cravado na pele nos últimos dias.

Outro material de divulgação do livro é o vídeo trailer produzido por Marcos Maia, que utilizou imagens da própria viagem ao Peru em 2016 como pano de fundo para o texto criado por Santiago, especificamente para o trabalho. A sincronia perfeita entre texto imagético, sonoro e literário arrasta quem assiste à realidade transmitida.



#Pílula Dois - Personagem indefinido

A paciência nos detalhes do cotidiano, provável herança dos três anos como contista a frente do projeto “Flash Fiction”, é o alicerce do vínculo entre leitor e leitura. Na sinopse a referência de gênero da personagem principal deixa entender que seja uma mulher, mas é apenas uma impressão dada pela língua portuguesa.

“Eu fiz um grande esforço para tirar a identificação de gênero da personagem na história, ele é quem você achar que é, mas no português é difícil porque as palavras tem o masculino e o feminino, no inglês e no quíchua [língua Inca] isso não existe”, explica Santiago, que acha que essa não definição de gênero pode atrair o leitor para que se coloque no lugar do protagonista.

#Pílula Três – um título atemporal

Nomear coisas, titular textos. O fato de ser uma decisão que pode alavancar a sua produção ou jogá-la no limbo do esquecimento, atormenta quem tem que tomar essa decisão. Com Santiago não foi diferente, ele comenta com diversão que foram muitas as ideias desastrosas e clichês até chegar ao título escolhido. “Foi uma luz a ideia do título e surgiu numa conversa com um amigo sobre o problema, mencionei a epígrafe que havia escolhido e foi então que ele disse que era esse o caminho, desde então as pessoas sempre elogiam e eu faço questão de dizer que não é meu”, explica aos risos.

“Na Eternidade Sempre é Domingo” é um trecho do conto ‘A noite’ do livro ‘O Velho Moço e Outros Contos’, de Ricardo Guilherme Dicke. Ele foi escritor, tradutor, professor, jornalista, filósofo, artista plástico, poeta e um dos autores mais premiados de Mato Grosso. “E o título tem tudo a ver com o livro, essa relação com o tempo, a história deles [os Incas] acaba ou continua na contemporaneidade?”, comenta Santiago.

“... a eternidade será como um colar de pérolas, cada pérola um infinito: na Eternidade sempre é domingo e há um silêncio desacostumado pairando nas cidades: como que um zumbido que vem de séculos e séculos passados e remotos e decorridos como a areia do Tempo...” [Epígrafe completado livro].


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#Pílula Quatro - Flash Fiction e OffZine

A página de contos Flash Fiction já tem pouco mais de três anos e acumula mais de 350 histórias, algumas delas que se interligam, outras não, mas todas com o ritmo de escrita fluida para consumo instantâneo, não atoa chamados “drops literários”.

Com uma quantidade considerável de publicações, o que começou no facebook hoje tem site próprio e é publicado em várias outras plataformas como colaboração. Como próximo passo, uma possível publicação. “Eu andei reunindo alguns, fiz uma lista dos cinquenta melhores para talvez publicar futuramente”, revela o escritor, mas que deixa claro que tudo ainda é projeto.

Outro projeto paralelo é a ‘OffZine’, a zine de um grupo de escritores de Cuiabá que decidiram se reunir para uma primeira publicação do que chamam de “literatura compartilhada”. O Coletivo Literário Oficina da Palavra teve origem nas oficinas de escrita criativa do Sesc Arsenal e atualmente, se reúnem quinzenalmente para discutir, produzir e compartilhar palavras. A edição nº01 foi distribuída durante uma quinta-feira de bulixo no Sesc Arsenal e teve também uma segunda impressão para alunos do Colégio Master de Cuiabá.


Offzine em noite de distribuição da primeira edição, no Sesc Arsenal

#Pílula Cinco - Dicas para escrever

Falta incentivo financeiro, incentivo educacional, falta leitura, falta muita coisa e iniciar no mercado literário não é brincadeira de criança no Brasil, ainda mais fora dos grandes centros como é o caso de quem reside em Mato Grosso. Mas ultimamente os bons ventos tem chegado a Cuiabá na personificação de editais públicos, municipais e estaduais. Esta primeira publicação de Santiago é fruto de um deles, lançado pela Prefeitura de Cuiabá.

Mas antes da publicação o caminho é árduo e exige dedicação e é preciso superar alguns monstros internos. “A gente sempre faz texto ruim, mas não podemos ter medo de mostrar. Procura um amigo sincero, alguém que já escreve e esteja disponível, um professor, alguém que dê um feedback sincero. Tem que mostrar e tem que ler muito também. Ler como escritor, saber ler e identificar porque aquele texto te agrada. Precisamos aceitar o erro”, aponta o escritor, que ainda cita trecho de ‘Linhas Tortas’ de Graciliano Ramos como guia para escrever:

“Deve-se escrever da mesma maneira com que as lavadeiras lá de Alagoas fazem em seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Para quem deseja começar a escrever e praticar, ele indica a oficina online de criação de narrativas, ministrada pelo escritor Rodrigo van Kampen, que também é editor da revista Trasgo, publicação trimestral de contos de ficção científica e fantasia. E também as oficinas que acontecem no Sesc Arsenal, além de leitura, leitura e mais leitura.
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