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Conheça o carioca que vende jujuba no ônibus para fazer ‘batalhas de poesia’ nas ruas de Cuiabá

Da Redação - Isabela Mercuri

21 Jan 2018 - 08:30

Foto: Reprodução / Facebook

Guilherme Raeder é carioca e mora em Cuiabá desde 2012

Guilherme Raeder é carioca e mora em Cuiabá desde 2012

“Eu levava uma vida muito errada antes de conhecer a batalha de poesia. Estava no crime, e foi ela que me tirou do buraco”. É assim que o carioca Guilherme Raeder, 22 – que vive em Cuiabá desde 2012 – começa a contar sua experiência com o Slam, competição de poesia falada que existe no mundo todo desde 1984, e que ele trouxe para Cuiabá no início de 2017, após uma viagem a São Paulo. Hoje, ele lidera o coletivo ‘Slam do Capim Xeroso’, já conseguiu realizar 15 eventos culturais na capital mato-grossense, e vende jujuba no ônibus para pagar suas contas.

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A próxima batalha oficial do Slam do Capim Xeroso acontece no dia 27 de janeiro, sábado, na rua do meio da Praça da Mandioca. Qualquer pessoa pode se inscrever na hora para competir, e as regras são simples: “A única regra que tem, é a poesia ter no máximo três minutos”, explica. “E pra batalhar, a pessoa tem que ter pelo menos 3, porque se ela chegar na final, ela tem que participar”.

Nestes três minutos, o competidor pode falar sobre qualquer assunto que quiser, desde que a poesia seja autoral, e não haja nenhum auxílio de figurino, trilha sonora ou instrumento musical. Cinco jurados são escolhidos aleatoriamente da plateia, e eles escolhem as cinco melhores apresentações para irem para o segundo round. Depois, as três melhores vão para a final.

Em 2017, Guilherme conseguiu realizar onze eventos, um por mês, em Cuiabá. Para chegar a isso, no entanto, o caminho não foi simples. “Eu tive um surto em 2016, ai eu viajei, fui dar uma volta. Eu fui até Campinas, São Paulo. Eu já escrevia, fazia poesia, e em Campinas eu conheci uns poetas de rua que me falaram do slam, que é a batalha de poesia. E aí, quando eu voltei, eu voltei já querendo fazer a batalha”.

Uma das edições da batalha (Foto: Reprodução / Facebook)

Em Cuiabá, ele encontrou dificuldades para firmar parcerias. “Convidei a galera pra fazer, e todo mundo me tirava de maluco. Todo mundo falava, você ‘tá louco, onde vai arrumar poeta aqui?”. Foi no meio do rap, com os artistas que já tinham seu som gravado, que ele encontrou os primeiros parceiros.

Em janeiro de 2017 foi realizada a primeira edição do ‘Slam do Capim Xeroso’, com 57 pessoas presentes. Na última do ano, este número quadriplicou, chegando a mais de 200 pessoas, tanto assistindo quanto competindo. “A gente tem um numero muito pequeno de poetas, porque tem muita gente que recita lá, mas não tem a cara de colocar pra competir”, conta Guilherme. Segundo ele, nas últimas edições foram, geralmente, os mesmos poetas a competir, sendo que em sete das onze batalhas, quem venceu foi Ana Gabriela Santana Corrêa, a ‘Pacha Ana’. No final do ano, ela foi representar Mato Grosso na competição nacional, em São Paulo, e chegou até a semifinal.

Pacha Ana (Foto: Reprodução / Facebook)

Para o futuro

Guilherme já conseguiu muito mais do que esperava até aqui, mas ele quer mais. Para 2018 seus objetivos são realizar batalhas interescolares e também fazer edições em bairros periféricos. “Assim como tem futsal, vôlei, handbol, vai ter a batalha de poesia entre as escolas”, garante. Para transformar o sonho em realidade, ele conta com a parceria de alguns amigos professores, mas afirma que não quer nenhum tipo de patrocínio do governo.

Outra vontade é fazer com que os eventos culturais sejam ainda de mais ‘peso’. “A primeira vai ser dia 24 de fevereiro, na casa dos artistas do CPA 2. A gente vai trazer GF e Átomos, que são dois grupos de rap de campo grande, e a ideia nas culturais é sempre fazer esse intercâmbio”, explica. “A nossa primeira cultural a gente trouxe o campeão nacional da batalha de poesia, a nossa segunda cultural a gente fez com Artigo Rec, que é um grupo de rap de Sinop, e com a banda de rock Mormaço Severino, lá de Cáceres. E aí na terceira edição a gente trouxe Edgar Perere, de São Paulo. Na quarta edição a gente fez uma sessão rock’n’roll. E agora a gente quer conseguir chegar ao ponto de trazer artistas de reconhecimento nacional mesmo”.

Todos os eventos realizados até hoje, segundo Guilherme, foram feitos de forma independente, com venda de ingressos e rifas, principalmente pela vontade de continuar sendo um movimento livre. “Quando eu entrei em contato com o pessoal do nacional, eles me passaram a regra e falaram assim: faz, mas fique ciente que é um trabalho muito grande. O slam é uma arma. Porque querendo ou não, ali as pessoas estão passando na rua e às vezes nem queriam ouvir o que estão ouvindo, entendeu? É um tapa na cara”, lembra. “Ela falou assim: vai, faz, e não esquece que ano que vem é ano de eleição. Vai aparecer muita gente querendo tomar o seu movimento. Por isso que hoje eu estou sozinho, eu confio nas pessoas, mas até certo ponto”.

Para conseguir realizar tudo o que quer, então, ele precisa de um trabalho flexível. Foi por isso que decidiu vender jujubas dentro dos ônibus. “Hoje eu vendo jujuba pra poder pagar minhas contas, e eu acredito muito nesse trabalho. Eu não arrumo um trabalho de carteira assinada porque a minha ideia é colocar o Slam dentro das escolas, então a partir do momento em que eu arrumar um trabalho de carteira assinada, que eu tiver um horário pra trabalhar, provavelmente vai ser no horário das escolas e eu não vou poder estar dentro dekas efetuando o que eu quero fazer”, finaliza.

Serviço

1º ‘Slam do Capim Xeroso’ 2018
Data: Sábado, 27 de janeiro
Horário: 19h30
Local: Rua do Meio – Praça da Mandioca
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