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Segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

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"É de graciosidade que falamos aqui", diz professor da USP sobre poeta cuiabano

Da Redação - Stéfanie Medeiros

18 Fev 2015 - 14:35

Foto: Danilo Bezerra/Olhar Direto

Matheus Jacob no lançamento da segunda edição do livro

Matheus Jacob no lançamento da segunda edição do livro

Ele já ganhou dois prêmios nacionais pelo seu trabalho, já foi comparado a Carlos Drummond de Andrade e publicou, mesmo com apenas 21 anos, três livros. Agora, a poesia de Matheus Jacob Barreto é novamente alvo de elogios do professor Nelson Luís Barbosa, doutor em Letras pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

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Desta vez, o professor avalia em um artigo uma seleção de poemas de 2012 a 2015 feitos pelo próprio Matheus. “Eu fiz uma pequena seleção de poemas que representam o que eu criei neste período de tempo. Alguns são inéditos e outros foram publicados em jornais ou em meus livros. Acho que essa seleção é o melhor resumo do que fiz nos últimos três anos”, contou Matheus ao Olhar Conceito.


(Segunda edição do livro "É", de Matheus Jacob, publicado pela editora nacional Scortecci)

“Já tive a oportunidade de expressar que na poesia de Matheus Jacob Barreto percebe-se claramente um diálogo com a mais fina tradição da poesia brasileira, de Drummond (uma quadrilha nova), de Bandeira (para lá para cá / a mão de mãe da mãe), de Cabral (o bastão não se passa a ninguém na corrida) – mas não é algum diálogo estéril que apenas retoma os mestres e os reverencia, e sim um diálogo que determinantemente se insere numa linha contínua de tempo, fazendo prosseguir esse modo de dizer e sentir a vida, as coisas, a própria insuficiência do viver e do fazer poético como um modo de compensar toda inutilidade da vida. E nisso a juventude de Matheus é um alento sem fim”, escreveu o professor no artigo “É de graciosidade que se trata aqui”.

Atualmente, Matheus Jacob está em intercâmbio na cidade de Heidelberg, na Alemanha. O jovem poeta estuda letras na USP, mas passará o ano em uma universidade onde estudaram 55 ganhadores do Prêmio Nobel. Para ver a seleção de poemas 2012-2015 completa, clique AQUI.


(Lançamento do livro "É" na Academia Mato-Grossense de Letras/ Foto: Danilo Bezerra)

Confira o artigo do professor Nelson Luís Barbosa na íntegra:

É de graciosidade que se trata aqui

Muitos são os pontos de observação da poesia de Matheus Jacob Barreto: é possível senti-la de cima para baixo, assim como de baixo para cima; de lado; ao lado e entre; e como “entre dois momentos” – entre-lugares, incômodos ou bem acomodados apesar de apenas para ouvir o som, que aos poucos vai se tornando uma sonoridade, como um canto – letra, música e harmonia – ou um silêncio; na linha contínua do verso como na construção vertical de sua sintaxe; de fora para dentro, mas também de dentro para fora; como num mergulho profundo ou numa volta à superfície para tomar mais ar e prosseguir na observação – às vezes, mesmo de um único e sonoro verso/verbo: “Falhamos”.

Tanto no verso único, abandonado na linha do tempo e do espaço, como numa sequência de profusão de versos divididos em partes, o fôlego do poeta no entanto é sempre o mesmo: pela densidade daquilo que seus versos carregam e pelo que deixam ser carregado nessa apreensão/observação – e nisso a poesia também se realiza.

Do movimento de uma delicada “cantiga de ninar um futuro” à estupefação da inutilidade de um existir – tudo embala, leva e traz sentidos, sons e sentimentos renovados por uma sintaxe cuidadosa, como o ofício de um ourives a manipular uma pinça muito certeira, ou de um alfaiate que corta com precisão a fina fazenda e depois une as partes escondendo a costura; ou como um pedreiro que, ao assentar as pedras, os tijolos e o concreto vai retirando os andaimes que sequer fazem supor sua preexistência para dar lugar à construção que se observa.

Já tive a oportunidade de expressar que na poesia de Matheus Jacob Barreto percebe-se claramente um diálogo com a mais fina tradição da poesia brasileira, de Drummond (uma quadrilha nova), de Bandeira (para lá para cá / a mão de mãe da mãe), de Cabral (o bastão não se passa a ninguém na corrida) – mas não é algum diálogo estéril que apenas retoma os mestres e os reverencia, e sim um diálogo que determinantemente se insere numa linha contínua de tempo, fazendo prosseguir esse modo de dizer e sentir a vida, as coisas, a própria insuficiência do viver e do fazer poético como um modo de compensar toda inutilidade da vida. E nisso a juventude de Matheus é um alento sem fim.

Tchékhov, certa vez, ao se dirigir a Górki numa carta para lhe falar de sua obra, alerta-o para o que considera “falta de contenção” ou de “graciosidade”, e define este termo assim: “Graciosidade é quando, numa determinada ação, alguém utiliza o mínimo de movimentos”. Certamente é de graciosidade que falamos aqui, como se pode perceber nos poemas “Curto e azul” ou “com a boca cheia de silêncios”.

Obrigado, Matheus Jacob Barreto, pela oportunidade de lê-lo e por me obrigar a pensar sobre a graciosidade da vida.

*por Prof. Dr. Nelson Barbosa
(Doutor em Letras pela FFLCH-USP, Departamento de
Teoria Literária e Literatura Comparada.)


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